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Nariz de cera

anotações e apontamentos que dizem tudo - de, por e para mim - por si mesmos.

Nariz de cera

anotações e apontamentos que dizem tudo - de, por e para mim - por si mesmos.

alunos com patente

Para essas e outras famílias com o mesmo tipo de simbolismo era vital chegar à fronteira antes dos nazis : a corrida tinha começado. Uma corrida na qual os alemães contavam com alguns trunfos: a velocidade à qual avançavam, com um material de grande qualidade, e em quantidade; apoios das forças colaboracionistas de Pétain e de Franco, e o apoio "tranquilo" de "um bom aluno" - António de Oliveira Salazar, com uma Circular 14 mesmo oportuna. 

 

António Moncada S. Mendes – Aristides de Sousa Mendes, Memórias de Um Neto
Edições Saída de Emergência e António Moncada S. Mendes  (2017)

 

in https://plataformacascais.com/component/tags/tag/big-pharma.html

 

 

bemzinho fedorento

Para o capitão gostinho Lourenço, «o cônsul de Bordéus andava mesmo a pedi-las», e essas contas teriam de ser ajustadas, quanto mais cedo, melhor! A PVDE, entretanto, ia-se substituindo ao próprio MNE na decisão de atribuição de vistos, como o demonstra a comunicação da polícia política de 22 de abril de 1940, recebida a 23 do MNE: «Tem notado esta diretoria, de há uns tempos a esta parte, que os pedidos de judeus holandeses para virem para Portugal tomam um volume que não é de desprezar, atendendo à convulsão que agita a Europa. Por outro lado, os nossos serviços têm registado uma agitação por parte dos judeus, que nos tem feito tomar medidas rigorosas sobre a sua atividade. Nestes termos, rogo a V.Exa. que a bem do serviço público, os senhores cônsules na Holanda sejam avisados, para antes de pedirem autorização para visarem os passaportes, averiguarem bem se os indíviduos que desejam vir são ou não judeus, a fim de se evitar a entrada em Portugal de indivíduos dessa qualidade. A bem da Nação. Lisboa, Secretaria-Geral da Polícia de Vigilância e Defesa do Estado. 22 de abril de 1940.»

 

António Moncada S. Mendes – Aristides de Sousa Mendes, Memórias de Um Neto
Edições Saída de Emergência e António Moncada S. Mendes  (2017)

 

 

entendimentos rolha

Após o despiste, motivado pelo cansaço, o meu avô terminou a viagem em Ciudad Rodrigo, em Espanha, mesmo antes da fronteira com Portugal, para pôr a família em lugar seguro. Aí, apareceu Silvério, seu sobrinho, que os ia buscar para passarem a fronteira para Portugal, evitando que a polícia política na fronteira identificasse o cônsul. A PVDE estava a tornar-se cada vez mais interventiva, e com o estado de guerra declarado na Europa, o seu comandante, o capitão Agostinho Lourenço, aproveitava tudo para se pôr em evidência e ganhar mais terreno e poder. As suas pressões, juntamente com as de outros funcionários do MNE e elementos da sociedade portuguesa com simpatias germanófilas - e havia bastantes - levaram Salazar a assinar mais uma circular para conter os fluxos migratórios de seres humanos que desejassem entrar em Portugal. Chegara-se assim à Circular 14, assinada a 11 de novembro de 1939. Não trazia boas notícias ... 

[...]

A famigerada Circular 14, de 11 de novembro de 1939, assinada por Luiz de Sampaio (secretário-geral do MNE), em nome do ministro António de Oliveira Salazar, começava por evocar «as atuais circunstâncias anormais para adotar certas providências e definir algumas normas que previnam [...] em matéria de concessão de passaportes consulares portugueses e de vistos consulares, abuso e práticas de facilidades que a Polícia de Vigilância e Defesa do Estado entende inconvenientes ou perigosas [...] nesta orientação fica determinado o seguinte:

[...]

2 - Os cônsules de carreira [Aristides de Sousa Mendes e outros] não poderão conceder vistos consulares sem prévia consulta ao Ministério dos Negócios Estrangeiros:

ao estrangeiros de nacionalidade indefinida, contestada ou em litígio, aos portadores de passaporte Nansen [nome do diplomata norueguês pelo qual ficaram conhecidos os "passaportes" que deu aos apátridas, isto é, aos que foram expoliados da sua nacionalidade e ficaram indocumentados] e aos russos;

aos estrangeiros que não aleguem de maneira que o cônsul julgue satisfatória, os motivos da vinda para Portugal e ainda àqueles que apresentem nos seus passaportes a declaração ou qualquer sinal de não poderem regressar livremente ao país de onde provêm; com respeito a todos os estrangeiros devem os cônsules procurar averiguar se têm meios de subsistência;

aos judeus expulsos dos países da sua nacionalidade ou de aqueles de onde provêm. 

 

António Moncada S. Mendes – Aristides de Sousa Mendes, Memórias de Um Neto
Edições Saída de Emergência e António Moncada S. Mendes  (2017)

 

in https://outraspalavras.net/gavinadams/2020/01/18/memes-de-emergencia/

 

a saúde está no coração

Sebastião (...) ao despedir-se do pai prometeu-lhe, diante da mãe, que iria contar ao mundo a história da atitude heroica do cônsul de Bordéus em 1940. E assim o fez. Em agosto de 1945 instalou-se na Califórnia, e com o irmão Carlos Francisco Fernando começou a divulgar o gesto de rebeldia praticado pelo pai, que tantas vidas tinha salvado, e que era uma verdadeira proclamação dos direitos humanos. Escreveu vários rascunhos (...)

Mas nos anos que se seguiram ao apocalipse que foi a Segunda Guerra Mundial, a Humanidade não estava preparada para ler histórias de morte, destruição e iniquidade. As pessoas queriam olhar para um futuro menos escuro, menos duro. Acabavam de sair do inferno, queriam esquecê-lo, queriam aproveitar o que a vida tinha de bom para lhes oferecer, e deixar para trás os anos de luta e desesperança. É verdade que havia filmes sobre a guerra, e as pessoas iam ao cinema vê-los, mas era difícil o processamento, de um ponto de vista mais racional, mais intelectual, de um horror como a carnificina que foi o Holocausto. Era muito penoso, como coletivo, termos de nos interrogar sobre as razões que permitiram que tal monstruosidade acontecesse. 

Teriam de passar 70 anos para que os países que participaram na Segunda Guerra Mundial se voltassem para esse período da História, fizessem eles parte dos vitoriosos ou dos derrotados. Essa já era uma história que tinha sido vivida pelos nossos avós, duas gerações tinham nascido e crescido depois daquele horror, e agora desejavam compreender minimamente aquilo que pais e avós não puderam entender. 

 

António Moncada S. Mendes – Aristides de Sousa Mendes, Memórias de Um Neto
Edições Saída de Emergência e António Moncada S. Mendes  (2017)

 

 

cada uno con su devenir

Em França, os crimes contra a Humanidade não prescrevem, e em 1997 começou o célebre Processo Papon, justamente em Bordéus. No termo deste processo, Maurice Papon, secretário-geral da Gironda entre 1942 e 1944 sob o regime de Vichy, foi considerado responsável pela deportação de milhares de franceses por serem judeus. Na sua defesa diz que «cometeu os "tais crimes" apenas porque obedeceu a ordens superiores [...] portanto devia ser considerado inocente». É então que aparecem observadores, entre eles o Père Bernard, que vêm clamar que na mesma cidade de Bordéus, em 1940, houve um cônsul que desobedeceu às ordens dos seus superiores para não colaborar em «chacinas». Maurice Papon foi condenado em 1998 pela justiça francesa a dez anos de prisão por cumplicidade em crimes contra a Humanidade, pois devia ter tido em consideração o aspeto moral das ordens recebidas, e devia ter desobedecido.

 

António Moncada S. Mendes – Aristides de Sousa Mendes, Memórias de Um Neto
Edições Saída de Emergência e António Moncada S. Mendes  (2017)

 

 

atirar a salvar

Ao olharmos para a lista dos emolumentos do consulado de Portugal com os nomes de pessoas que pagaram para obter o visto, é possível constatar a existência de muitos nomes que poderiam ser "suspeitos" segundo os critérios da PVDE. As pessoas falavam umas com as outras e transmitiam os seus sentimentos, os medos e as ânsias de forma espontânea. O cônsul de Portugal começava a ser falado nos lugares públicos, por «ajudar judeus a deixar França», como relata o biógrafo Rui Afonso.

Quando Aristides vem a Portugal para o casamento da filha, já traz na bagagem o início do primeiro caso que vai custar-lhe a carreira: é o caso Wiznitzer - o primeiro visto, passado apenas dez dias depois da entrada em vigor da Circular 14. Arnold Wiznitzer, a mulher e o filho, por terem perdido a nacionalidade austríaca e por serem judeus, tinham-se tornado personae non gratae numa Europa em guerra. O seu único objetivo era sobreviverem e conseguirem sair do continente europeu. Aristides assina-lhes o visto para virem a Portugal apanhar um navio para o outro lado do Atlântico, a 21 de novembro de 1939. Não havia tempo a perder com burocracias, pois Wiznitzer iria ser "internado" num campo de concentração por se encontrar em França de forma irregular. O pedido de autorização para passar o visto foi enviado para Portugal a 27 de novembro por Aristides, repetido a 6 de dezembro, e sempre nada... As autoridades portuguesas nunca responderam de forma séria, pois começaram a dizer em tom de troça que o cônsul primeiro passava os vistos e depois é que pedia autorização, para estar conforme à Circular 14. De facto, enquanto os militares nazis primeiro atiravam a matar e depois é que faziam perguntas, Aristides primeiro salvava pessoas e depois é que se conformava à burocracia lenta e pesada. 

 

António Moncada S. Mendes – Aristides de Sousa Mendes, Memórias de Um Neto
Edições Saída de Emergência e António Moncada S. Mendes  (2017)

 

 

ou se imagina ou se lava as mãos

Chegaram a Bordéus mesmo no fim de setembro, na altura exata em que se desenrolavam os tristes célebres Acordos de Munique (29 e 30 de setembro de 1938), no âmbito dos quais os representantes de França e de Inglaterra acabariam por ceder periogosamente às pressões da Itália de Mussolini e, sobretudo, da Alemanha de Hitler, deixando que este último anexasse o território dos sudetas, na Checoslováquia. Não só não apaziguaram Hitler e o Reich, como, pelo contrário, lhe deram mais força e convicção para os seus avanços [...] E todos estavam muito longe de imaginar as consequências. O Anschluss, que anexou a Áustria à Alemanha, tinha sido consumado em março desse ano, e a Noite de Cristal iria acontecer daí a dois meses. Essa noite marcaria o início da ofensiva aberta contra os judeus, aos quais já tinham sido retirados os direitos cívicos, e que já estavam afastados da vida económica na Alemanha e nos territórios anexados [...]

Em Portugal, o governo e as autoridades que, claro, iam acompanhando os acontecimentos apesar da distância, iam definindo uma espécie de orientação no sentido de "afastar" possíveis problemas que certas "categorias de pessoas" pudessem vir a causar, em função dos interesses de Salazar e do regime. Assim, em outubro de 1938 (11 meses antes da declaração de guerra), Salazar introduz novas restrições aos vistos para judeus que quisessem entrar no nosso país, exigindo-lhes que adquirissem vistos de turismo por períodos de 30 dias, se precisassem de entrar no nosso território. Uma forma de limitar o acesso a Portugal e de travar assim eventuais planos de "certas pessoas". Surgiu, então, a célebre Circular 10, de outubro de 1938, que seria progressivamente endurecida por outras, até 11 de novembro de 1939, já em plena Segunda Guerra Mundial, com a Circular 14, e sob forte controlo da polícia política portuguesa, a então PVDE (a Polícia de Vigilância e Defesa do Estado). 

 

António Moncada S. Mendes – Aristides de Sousa Mendes, Memórias de Um Neto
Edições Saída de Emergência e António Moncada S. Mendes  (2017)

 

 

 

justos

Há cerca de 22 mil pessoas no mundo que são reconhecidas como Justos Entre as Nações, mas diplomatas são menos de cem. Atualmente, há quatro portugueses nessa lista: o padre Joaquim Carreira, o embaixador Sampaio Garrido, José Brito Mendes e Aristides de Sousa Mendes. São heróis que devem ser conhecidos e estudados em todas as escolas. Mas há outros Justos estrangeiros que merecem ser conhecidos: o cônsul japonês Sugihara, que também desobedeceu ao seu governo em 1940 e, como Aristides, passou vistos a milhares de refugiados na Lituânia; Giorgio Perlasca, italiano, fez-se passar por diplomata espanhol para "falsificar" documentos, salvando muitos refugiados; Giovanni Roncalli (que veio a ser o Papa João XXIII, em 1958) "falsificou" certificados católicos de batismo para salvar judeus; e Georg Duckwitz, adido na embaixada alemã em Copenhaga, que soube dos planos nazis de deportação para a população judaica dinamarquesa - conseguiu avisar as comunidades e ajudou milhares de pessoas a fugir para a Suécia, salvando-as assim da morte certa [...]

Para salvar inocentes da morte, todos os meios são justos, e nenhum destes homens cometeu crimes ao fazê-lo, contrariamente ao que certos indivíduos extremistas escreveram em Portugal. A medalha dos "Justos" do Yad Vashem tem inscrito: «Quem salva uma vida, salva a humanidade.» Por vezes, a tradução varia, o que origina diferentes versões, mas a ideia é que cada pessoa contém em si todos os elementos do universo, todo o bem e todo o mal e, como está escrito nos livros santos, o «homem é feito à imagem e semelhança de Deus». 

 

António Moncada S. Mendes – Aristides de Sousa Mendes, Memórias de Um Neto
Edições Saída de Emergência e António Moncada S. Mendes  (2017)

 

 

sinédoques

Em julho e agosto de 1940, quando vinha a Lisboa, Aristides reunia-se com amigos e familiares. Precisava de falar dos acontecimentos. Algumas vezes, encontrou-se com o rabino Kruger, que esperava em Lisboa por um barco que o levasse, e à família, para o novo mundo. O tema principal das conversas era, invariavelmente, a guerra. Kruger, naturalmente, mostrava a sua dor pelo sofrimento causado por Hitler ao povo de Israel, mas ao saber que Aristides enfrentava a raiva de Salazar, terá lamentado: «Tudo o que está a sofrer agora por nossa causa!», e Aristides, que procurava sempre dar-lhe algum consolo por tanto infortúnio, respondeu-lhe: «Se milhares de judeus estão a sofrer por causa de um católico [Hitler], então é compreensível que um católico [Aristides] possa sofrer por causa de tantos judeus. Eu não podia ter agido de outro modo, por isso aceito, com amor, tudo o que me aconteceu e poderá vir a acontecer por causa do meu gesto.»

 

António Moncada S. Mendes – Aristides de Sousa Mendes, Memórias de Um Neto
Edições Saída de Emergência e António Moncada S. Mendes  (2017)

 

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convenções, proteções, regimes e estímulos

Em momentos críticos, a ajuda dos irmãos César e José Paulo, e de primos direitos como Silvério e outros foi essencial para lhe dar algum ânimo e esperança nos últimos 14 anos de vida. A maior parte dos primos direitos vinha do lado Amaral e Abranches que, diga-se em abono da verdade, no verão de 1940 não o aplaudiram exatamente. Esses primos tinham carreiras e famílias a proteger, e estavam bem conscientes da verdadeira natureza do Estado Novo, sabiam que podiam ser atingidos por ricochete devido ao gesto rebelde do primo Aristides - que se tornaria um proscrito e uma espécie de refugiado no seu próprio país. 

Um primo de Aristides, Adolfo Abranches Pinto, que foi general e ministro do exército durante quatro anos, entre 1950 e 1954, que exerceu funções de adido militar em Washington D.C. [...] foi chamado a participar em visitas de comissões internacionais aos campos de concentração, tendo de efetuar relatórios descrevendo o horror que aí viu e a vergonha que são para a espécie humana. Um dia, o primo Adolfo disse para a sua família mais próxima: «Compreendo a posição e a atitude do Aristides durante a guerra. Ele prestou um grande serviço à Humanidade!»

Dizer estas palavras é revelador de bons sentimentos, mas teria sido muito mais benéfico e corajoso da parte de um general - um homem de armas - dizê-lo diretamente a Aristides e a César. Mas a verdade é que o regime ditatorial de Salazar não existia propriamente para estimular a coerência e a dignidade. E as paredes tinham ouvidos... 

 

António Moncada S. Mendes – Aristides de Sousa Mendes, Memórias de Um Neto
Edições Saída de Emergência e António Moncada S. Mendes  (2017)

 

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