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Nariz de cera

anotações e apontamentos que dizem tudo - de, por e para mim - por si mesmos.

Nariz de cera

anotações e apontamentos que dizem tudo - de, por e para mim - por si mesmos.

i.


Cecília

17
Jul19

O capitão de Intendência Octave Rigault é um maníaco das cifras. O Palácio-Convento tornou-se para ele um desafio e uma guloseima. Andou dois dias de nariz no ar, a rondá-lo, contornando-o lentamente, a determinar numericamente a sua vastidão imponente e desengraçada, calculando a passos, com pequena margem de erro, 40 000 metros quadrados monumentais e contando, como maior cuidado e interesse, as suas 4500 portas e janelas (...)

Estando excluído o interesse do curioso capitão da Intendência pela pureza dos mármores e pela perfeição clássica das colunas jónicas do vestíbulo, dos capitéis corínticos e das admiráveis figuras esculpidas por Bernini, Corsini, Ludovici e Bracci, imagina-se facilmente o prazer que ele teria se pudesse alinhar outros números no seu caderno de notas, que acrescentassem à avaliação de tanta monumentalidade os 50 000 trabalhadores que ali se esforçavam em 1729 pela grandeza do voto d'El Rei dom João V. Para não falar dos 1300 bois, dos 7000 soldados que mantinham a ordem nessa cidade artificial paga com o ouro do Brasil, e dos 1383 operários mortos, durante os primeiros 13 anos da obra de agradecimento ao Sublime Arquitecto por ter dado um filho a Sua Majestade. 

 

Álvaro Guerra – Razões de Coração (1991)
Coleção Mil Folhas PÚBLICO (2002)

 

 

 

até que


Cecília

15
Mar19

... até que um dia 

já não terá sentido o amanhã.

 

 

Primo Levi – Se Isto É Um Homem (1947)
Coleção Mil Folhas PÚBLICO (2002)

 

 

 

 

cagões há muitos


Cecília

29
Mai18

 

e a suspensão de asas negras dos invasores celestes precipita até se confundir com o pesado voo dos néscios e cagantes pombos citadinos

 

 

Italo Calvino  - Palomar (1983)

Planeta DeAgostini (2001)

 

 

 

 

aprende a esperar


Cecília

15
Mai18

Aprende a esperar, pois ninguém conhece o futuro, e é mais do que certo que não o conseguirás submeter à tua vontade. 

 

 

George Sand – Diário Íntimo

Antígona (2004)

 

 

 

 

tom humano


Cecília

28
Abr18

Já notei que a maior parte dos homens se sente açulada e indignada quando, em pleno combate moral, recorremos à ternura e ao afecto. É vê-los feras amansadas e apanhadas de surpresa assim que recorremos à violência ou à dureza (...) Realidade estranha e deplorável, pois, em muitos casos, é igualmente aplicável à amizade (...) Quando não é refreado nem reprimido, o homem aproveita imediatamente para cometer abusos. Despreza quem o receia e maltrata quem o ama; receia quem o despreza e ama quem o maltrata. 

 

George Sand – Diário Íntimo

Antígona (2004)

 

 

 

intervalo de conflito


Cecília

27
Mar18

Chega-se a um ponto na vida intelectual em que se aprende enfim a distinguir o verdadeiro do falso, o possível do impossível, a ilusão da realidade. Contudo, entre essa época de iluminação e de discernimento, e a época da razão e da força, quando impiedosamente se subtrai à vida tudo o que seja sedutor e nocivo, dá-se um intervalo de conflito entre o saber e o poder; trata-se do período mais difícil e perigoso da existência humana. A experiência conduz ao conhecimento. A vontade conduz ao desprendimento. 

 

George Sand – Diário Íntimo

Antígona (2004)

 

 

 

 

as editoras dos segredos


Cecília

25
Fev18

Tal fue el caso de «La Gloria de mi hermano», novela de un tal Gustave Horn, que había padecido treinta y dos rechazos. Richard Ducousset no esperó para proponerle un contrato al autor, que pensó que se trataba de una broma, ¿o quizá de una cámara oculta? No, el contrato era de verdad de la buena. 

- Pues no lo entiendo. Hace unos meses no quiso saber nada de mi libro. Recibí una carta estándar. 

- Hemos cambiado de parecer. Todo el mundo puede equivocarse... - explicó el editor. 

 

Pocas semanas más tarde, el libro salió al mercado con la siguiente faja cruzándole la cubierta:

 

" La novela que rechazaron 32 veces"

 

 (...) sobrepasó la muy respectable cifra de veinte mil ejemplares. A los lectores les había intrigado una novela que habían rechazado tantas editoriales. Esa atracción se interpretaba como un gusto por lo transgresor. Incapaz de captar lo irónica que resultaba aquella situación, Gustave Horn sintió que por fin su talento recibía la recompensa que merecía. Estaba tan convencido que no comprendió por qué la editorial rechazó el siguiente manuscrito que presentó. 

 

 

 

David Foenkinos - La biblioteca de los libros rechazados (2016)
Titulo original: Le Mystère Henri Pick
Traducción de María Teresa Gallego Urrutia y Amaya García Gallego
Penguin Random House Grupo Editorial S.A.U. (febrero, 2017)

 

portugal fica para depois e os portugueses também


Cecília

30
Jun17

 

Foste de verdade, não de feito, a voz de Portugal. 

(...)

A Portugal, a voz vem-lhe sempre depois da idade 

e tu quiseste acertar-lhe a voz com a idade

e aqui erraste tu,

não a tua voz de Portugal

não a idade que já era hoje. 

(...)

Tu levaste empunhada no teu sonho a bandeira de Portugal

vertical

sem pender pra nenhum lado 

o que não é dado pra portugueses.

Ninguém viu em ti, Fernando,

senão a pessoa que leva uma bandeira

e sem a justificação de ter havido festa. 

Nesta nossa querida terra onde ninguém a ninguém admira

e todos a determinados idolatram.

Foi substituído Portugal pelo nacionalismo 

que é maneira de acabar com partidos 

e de ficar talvez o partido de Portugal

mas não ainda apenas Portugal!

Portugal fica para depois

e os portugueses também 

como tu. 

 

José de Almada Negreiros, ODE A FERNANDO PESSOA
Poemas Escolhidos José de Almada Negreiros - Assírio & Alvim | Porto Editora 2016

 

 

bulir com imaginações e vontades


Cecília

27
Abr17

Era a primeira aula de «História Local». Eu procurava, como costumo fazer, um tema que despertasse a atenção dos meus alunos e os lançasse numa animada troca de ideias. « Digam-me lá que imagens, que estereótipos, que histórias associamos normalmente à cidade do Porto?»

Algum embaraço inicial foi rapidamente superado: «cidade do trabalho», «cidade da liberdade», «o granito», «a chuva», «o cinzento», «Não! Cinzento não! É o contrário! As casas coloridas!», «a Cidade Invicta», «os tripeiros». Com uma pequena ajuda minha - a pedagogia não directiva tem os seus limites... -, acabámos o quadro: «o bairrismo», «a solidariedade», «o carácter». Já havia muito por onde começar. Tentei pôr alguma ordem no caos: «A chuva e granito são dados objectivos! A chuva mede-se e o granito está lá! A qualificação de "Invicta" tem uma história (...) o professor continuava ali, disciplinando as intervenções objectando para suscitar maior consistência nos argumentos; mas o observador, o «amador» do Porto distanciava-se com alguma incomodidade: quanta banalidade, Deus meu!, o trabalho, o granito, a liberdade... Em que momento do caminho é que o meu Porto ficou prisioneiro de um punhado de lugares-comuns, que, repetidos até à exaustão, perderam qualquer capacidade de bulir com imaginações, quanto mais com vontades? (...) Quanto mais gosto do Porto e melhor o conheço, mais díficil me é escrever sobre ele.

 

 

Luís Miguel Duarte, Prefácio

Germano Silva e Lucília Monteiro – Porto, a Revolta dos Taberneiros e Outras Histórias (2004)

Editorial Notícias (maio 2004)