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Nariz de cera

anotações e apontamentos que dizem tudo - de, por e para mim - por si mesmos.

Nariz de cera

anotações e apontamentos que dizem tudo - de, por e para mim - por si mesmos.

sem perguntas ou condições

Cecília, 28.09.19

Um dos mais infames costumes observados na Prisão de Fleet, nos séculos dezassete e dezoito, era a celebração de cerimónias de casamento por clérigos desonestos e dissolutos. Estes funcionários, na sua maioria presos por motivo de dívidas, insultavam a dignidade da sua sagrada profissão ao casarem nas instalações da Prisão de Fleet, a qualquer instante, quaisquer pessoas que se apresentassem perante si para esse propósito. Não eram feitas perguntas, como não se impunham condições, exceto em relação à taxa cobrada pelo serviço ou à quantidade de bebida a emborcar na ocasião. Aconteceu frequentes vezes clérigo, escrivão e noivos estarem embriagados por altura da celebração da cerimónia. 

 

Wray Delaney - Memórias de Uma Cortesã  (2016)

Quinta Essência, Oficina do Livro (2017)

 

 

 

outras coisas que dão matéria

Cecília, 13.09.19

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Edouard Manet (1832-1883)
La plage à marée basse

 

 

Estamos nus e gramamos.

(...)

As paisagens continuam a existir.

As paisagens são suaves.

Continuam também a existir

outras coisas que dão matéria para poemas.

A vida continua. 

Felizmente que há ódios, comichões, vaidades.

A estupidez, esta crassa crença intratável, esta confiança indestrutível

   em si mesmo,

é o que felizmente dá uma densidade, uma plenitude a isto.

Num mundo descoroçoante de puras imagens

é bom este banho de resistências, pressões, vontades, atritos,

é bom navegar.

Porque este presente é logo saudoso.

(...)

A vida continua tão improvavelmente.

(...)

Estamos nus e gramamos.

 

 

António Ramos Rosa in TELEGRAMA SEM CLASSIFICAÇÃO ESPECIAL

 

António Ramos Rosa - Obra Poética I 

Assírio & Alvim (2018)

 

i.

Cecília, 17.07.19

O capitão de Intendência Octave Rigault é um maníaco das cifras. O Palácio-Convento tornou-se para ele um desafio e uma guloseima. Andou dois dias de nariz no ar, a rondá-lo, contornando-o lentamente, a determinar numericamente a sua vastidão imponente e desengraçada, calculando a passos, com pequena margem de erro, 40 000 metros quadrados monumentais e contando, como maior cuidado e interesse, as suas 4500 portas e janelas (...)

Estando excluído o interesse do curioso capitão da Intendência pela pureza dos mármores e pela perfeição clássica das colunas jónicas do vestíbulo, dos capitéis corínticos e das admiráveis figuras esculpidas por Bernini, Corsini, Ludovici e Bracci, imagina-se facilmente o prazer que ele teria se pudesse alinhar outros números no seu caderno de notas, que acrescentassem à avaliação de tanta monumentalidade os 50 000 trabalhadores que ali se esforçavam em 1729 pela grandeza do voto d'El Rei dom João V. Para não falar dos 1300 bois, dos 7000 soldados que mantinham a ordem nessa cidade artificial paga com o ouro do Brasil, e dos 1383 operários mortos, durante os primeiros 13 anos da obra de agradecimento ao Sublime Arquitecto por ter dado um filho a Sua Majestade. 

 

Álvaro Guerra – Razões de Coração (1991)
Coleção Mil Folhas PÚBLICO (2002)

 

 

 

até que

Cecília, 15.03.19

... até que um dia 

já não terá sentido o amanhã.

 

 

Primo Levi – Se Isto É Um Homem (1947)
Coleção Mil Folhas PÚBLICO (2002)

 

 

 

 

cagões há muitos

Cecília, 29.05.18

 

e a suspensão de asas negras dos invasores celestes precipita até se confundir com o pesado voo dos néscios e cagantes pombos citadinos

 

 

Italo Calvino  - Palomar (1983)

Planeta DeAgostini (2001)

 

 

 

 

aprende a esperar

Cecília, 15.05.18

Aprende a esperar, pois ninguém conhece o futuro, e é mais do que certo que não o conseguirás submeter à tua vontade. 

 

 

George Sand – Diário Íntimo

Antígona (2004)

 

 

 

 

tom humano

Cecília, 28.04.18

Já notei que a maior parte dos homens se sente açulada e indignada quando, em pleno combate moral, recorremos à ternura e ao afecto. É vê-los feras amansadas e apanhadas de surpresa assim que recorremos à violência ou à dureza (...) Realidade estranha e deplorável, pois, em muitos casos, é igualmente aplicável à amizade (...) Quando não é refreado nem reprimido, o homem aproveita imediatamente para cometer abusos. Despreza quem o receia e maltrata quem o ama; receia quem o despreza e ama quem o maltrata. 

 

George Sand – Diário Íntimo

Antígona (2004)

 

 

 

intervalo de conflito

Cecília, 27.03.18

Chega-se a um ponto na vida intelectual em que se aprende enfim a distinguir o verdadeiro do falso, o possível do impossível, a ilusão da realidade. Contudo, entre essa época de iluminação e de discernimento, e a época da razão e da força, quando impiedosamente se subtrai à vida tudo o que seja sedutor e nocivo, dá-se um intervalo de conflito entre o saber e o poder; trata-se do período mais difícil e perigoso da existência humana. A experiência conduz ao conhecimento. A vontade conduz ao desprendimento. 

 

George Sand – Diário Íntimo

Antígona (2004)