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Nariz de cera

anotações e apontamentos que dizem tudo - de, por e para mim - por si mesmos.

Nariz de cera

anotações e apontamentos que dizem tudo - de, por e para mim - por si mesmos.

15.09.19

ações


Cecília

... cada um tem que, por suas próprias forças, criar liberdade e combater as ficções sociais. 

 

 

Fernando Pessoa - O Banqueiro Anarquista (1922)
Antígona (2018)

 

 

 

03.06.19

natureza


Cecília

essa pergunta que regressa ciclicamente ao seu espírito: o que é a Natureza?

Raimundo olha à sua volta e, nas ruas de Mafra ou nas colinas verdes salpicadas de moinhos e casitas brancas não vislumbra anjos, nem madonas, nem santos, nem cordeiros de Deus. O que vê é uma outra natureza habitada por rudes cavadores, saloias dobradas para a terra das hortas, o oleiro com o barro nas mãos como uma segunda pele, o sapateiro na banca a furar o couro com a sovela, o tanoeiro a ajustar as aduelas de folha numa celha, o ferreiro com o corpo de bronze entre o fole e a bigorna, o regatão bocejando à porta da lojeca, o carpinteiro de formão apontado a uma tábua de pinho, o aguadeiro de porta em porta, a alombar com o barril.

É essa gente que ele tem ganas de pintar. E decide que essa gente e essa gana são, para ele, a Natureza. A Natureza que ele gostaria de trazer para fora da obscuridade das igrejas e da privança dos palácios. 

 

Álvaro Guerra – Razões de Coração (1991)
Coleção Mil Folhas PÚBLICO (2002)

 

anunciação---na-eira-fit-555x353-6.jpg

Na eira , 1861

Tomás da Anunciação

 

 

01.03.19

???


Cecília

Não sei se isto é amor. Procuro o teu olhar,
Se alguma dor me fere, em busca de um abrigo;
E apesar disso, crê! nunca pensei num lar
Onde fosses feliz, e eu feliz contigo.

Por ti nunca chorei nenhum ideal desfeito.
E nunca te escrevi nenhuns versos românticos.
Nem depois de acordar te procurei no leito
Como a esposa sensual do Cântico dos Cânticos.

Se é amar-te não sei. Não sei se te idealizo
A tua cor sadia, o teu sorriso terno...
Mas sinto-me sorrir de ver esse sorriso
Que me penetra bem, como este sol de Inverno.

Passo contigo a tarde e sempre sem receio
Da luz crepuscular, que enerva, que provoca.
Eu não demoro o olhar na curva do teu seio
Nem me lembrei jamais de te beijar na boca.

Eu não sei se é amor. Será talvez começo...
Eu não sei que mudança a minha alma pressente...
Amor não sei se o é, mas sei que te estremeço,
Que adoecia talvez de te saber doente.

 

«Interrogação»

de

 

Camilo Pessanha

(7 de Setembro, 1867 — 1 de Março, 1926)

 

 

28.02.19

voltar a ser


Cecília

Depois de arranjar a janela partida e depois de o aquecedor começar a difundir calor, pareceu que em cada um a tensão afrouxara, e foi então que Towaroski (um franco-polaco de vinte e três anos, doente de tifo) propôs aos outros doentes que oferecessem cada um uma fatia de pão a nós os três que tivemos o trabalho, e a proposta foi aceite. 

Um dia antes, tal acontecimento não teria sido concebível. A lei do Lager dizia: «come o teu pão e, se puderes, o do teu vizinho», e não deixava lugar à gratidão. Isto significava claramente que o Lager estava morto.

Foi este o primeiro gesto humano que aconteceu entre nós. Julgo que se poderia fixar naquele momento o início do processo pelo qual, nós que não morremos, de Häftlinge voltámos lentamente a ser homens. 

 

 

Primo Levi – Se Isto É Um Homem (1947)
Coleção Mil Folhas PÚBLICO (2002)

 

 

Resurrection of the Messiah

Justin BUA

 

30.05.18

de ser como se é


Cecília

Aquela cara de feições enormes, de gigante triste, volta-se de vez em quando para a multidão dos visitantes que estão para lá do vidro, a menos de um metro de distância; um lento olhar carregado de desolação de ser como se é, único exemplar no mundo de uma forma não escolhida, não amada, todo o cansaço de se carregar sobre os ombros a sua própria singularidade, todo o desgosto de ocupar o espaço e o tempo com a sua própria presença, tão embaraçante e tão vistosa.

 

 

 

Italo Calvino  - Palomar (1983)

Planeta DeAgostini (2001)

 

 

 

 

 

 

13.03.18

interiores e exteriores


Cecília

 

The Blind Girl

John Everett Millais

 

 

 

- ¿Así que le parece que toca peor en París?

- No he dicho «peor». Simplemente, es distinto. Es cuestión de intensidad. Y sí, se lo he dicho, y está muy intrigado. Hay que tener su música muy interiorizada para darse cuenta.
- Qué curioso. ¿Y dice usted que es su mayor admiradora?
- Sí.
- Seguramente sabrá que le ha dedicado su último disco a Marina…
- Claro, es su madre.
- Con un deseo un poco enigmático: «Para que pueda mirarme».
- Precioso.
- ¿Es que ha muerto?
- No, qué va. A veces viene a verlo, bueno, a oírlo. Es ciega.
- Ah…
- Tienen un vínculo estrechísimo. Él va a verla casi todos los días.
- ¿Dónde vive?
- En una residencia, en Montmartre. Se llama La Lumière. Su hijo le eligió una habitación con vistas al Sacré-Coeur.
- Pero si me ha dicho que era ciega.
- ¿Y qué? No solo se ve con los ojos

 

 

 

David Foenkinos - La biblioteca de los libros rechazados (2016)
Titulo original: Le Mystère Henri Pick
Traducción de María Teresa Gallego Urrutia y Amaya García Gallego
Penguin Random House Grupo Editorial S.A.U. (febrero, 2017)

 

 

 

 

13.12.16

Rio de Janeiro, Lisboa, Luanda, Agronomia e Silvicultura


Cecília

Talvez seja necessário retomar o sonho. Há muitos anos que tenho uma ideia para um livro sobre sonhos. Há uns dias, li uma entrevista com um meganeurologista brasileiro, professor na universidade em Natal, e fiquei muito impressionado porque ele falava na necessidade de recuperar os sonhos. Durante milénios, estes foram fundamentais para a sobrevivência, os homens levavam o sonho muito a sério. Ele dizia que, se um caçador sonhasse que naquele lago onde ele ia beber estava um tigre, ia tomar mais cuidado. Muito recentemente na História da Humanidade, o sonho deixou de ter importância, as pessoas substituíram o sonho por sonhos já construídos, como a televisão - adormecem a ver tv, sonham com as coisas que veem lá... O sonho merece mais atenção.

in http://visao.sapo.pt/actualidade/cultura/2013-06-15-Jose-Eduardo-Agualusa-O-sonho-merece-mais-atencao-1

 

José Eduardo Agualusa

 (13 de Dezembro, 1960) 

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