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Nariz de cera

anotações e apontamentos que dizem tudo - de, por e para mim - por si mesmos.

anotações e apontamentos que dizem tudo - de, por e para mim - por si mesmos.

Nariz de cera

02
Out23

Satyagraha (II)

Cecília

Severino temia sobretudo a reação dos grandes proprietários portugueses, alguns dos quais possuíam verdadeiros exércitos privados. Contudo, esses sertanejos representavam uma ameaça remota, pois estavam a muitas centenas de quilómetros da capital e decorreriam várias semanas antes que soubessem do acontecido. Até lá, seria possível tomar medidas preventivas e mesmo, se necessário, requerer o apoio de nações amigas. Confiava-se, por outro lado, que a maioria dos colonos acabaria defendendo o levantamento, dadas as evidentes vantagens económicas que para todos adviriam da autonomia política da província. 

 

José Eduardo Agualusa – A Conjura (1989)

Quetzal Editores (2017)

 

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02
Out23

Satyagraha

Cecília

Mas Severino achou a proibição inútil, pois já há muito tempo tinha descoberto que os presságios se cumpriam sempre, e jamais da forma que as pessoas suspeitavam: «Um presságio é uma recordação do futuro», costumava dizer, «contrariar um presságio seria modificar o futuro; e portanto o presente e portanto o passado. E se isso fosse possível não haveria memória e nem haveria presságios.»

 

José Eduardo Agualusa – A Conjura (1989)

Quetzal Editores (2017)

 

 

12
Jun23

que tilintem os guizos da tortura

Cecília

Desde que o homem deixou de combater pela apropriação de bens imediatos, como a caça que outro tinha obtido, ou a mulher, quando rareava na própria tribo, passou a guerrear pelo símbolo desses mesmos objectos. O instinto básico de satisfazer necessidades foi substituído por um estímulo de razões mais abstractas. A violência é uma mitologia do excesso. 

 

Agustina Bessa-Luís – Fanny Owen (1979)

Colecção Mil Folhas / Bibliotex SL / M.E.D.I.A.S.A.T. e Promoway Portugal Ltda (2002)

 

IN MEMORIAM

Que a terra lhe seja pesada.
Que lhe apodreça o corpo e os olhos fiquem vivos,
Se lhe soltem os dentes e a fome fique intacta
E a alma, se a tiver, que lha fustigue o vento
E arrase com ela a memória gravada
Na lembrança demente dos que o choram.

Que a mulher que foi dele oiça o vento na noite,
Cheio de ossos e uivos
E garfos aguçados
E que reparta o medo com o primeiro intruso
E o vento se insinue pelas portas fechadas
E rasteje no quarto
E suba pela cama
E lhe entre no olhar como estiletes de aço,
Lhe penetre os ouvidos como agulhas de som,
Lhe emaranhe os cabelos como um nó de soluços,
Lhe desfigure o rosto como um ácido em chama.

Que a mulher que foi dele oiça o vento na noite,
Que a mulher que foi dele oiça o vento na cama!

Que o nome que era o seu o persigam os ecos,
O gritem no deserto as gargantas com sede,
O murmurem no escuro os mendigos com frio,
O clamem na cidade as crianças com fome,
O soluce o amante de súbito impotente,
O maldigam no exílio as almas sem descanso.

Que o nome que era o seu seja a bandeira negra,
A pálpebra doente,
O vómito de sangue.

Que o gesto que era o seu o imitem as mães
Que se torcem de dor quando abortam nas trevas,
O desenhem a lume os braços amputados,
O perpetue o esgar dos jovens mutilados,
O dance o condenado que morre na fogueira.

Que o gesto que era o seu seja o punhal do louco,
A arma do ladrão,
A marca do vencido.

Que o sangue que era o seu o farejem os cães
Nas veias de seus filhos.
Que o sangue que era o seu se lhes veja nas mãos,
E lhes aperte os pulsos como algemas de lodo,
Lhes carregue o olhar como um sopro de infâmia,
Lhes assinale a testa como um escarro de fogo,
Lhes atormente os passos como um peso de lama.

Que o sangue que era o seu seja o rictus da tara,
A máscara de sal,
A vingança do pobre.
E que o Exterminador, no seu trono de enxofre,
o faça tilintar os guizos da tortura
Até que o mundo o esqueça
E mais ninguém o chore.

 

Ary dos Santos

 

08
Jun22

r€fugiados, solidari€dad€, irmandad€, frat€rnidad€, €€€€,

Cecília

Não me trate como uma ignorante. Pode-se ser inocente sem se ser ignorante.

 

Agustina Bessa-Luís – Fanny Owen (1979)

Colecção Mil Folhas / Bibliotex SL / M.E.D.I.A.S.A.T. e Promoway Portugal Ltda (2002)

 

 

24
Mar22

caros & doces erros

Cecília

Entenderemos melhor a relação entre preconceito racial e racismo se olharmos para a forma como ambos se juntam para produzir a discriminação e violência daquele que racializa sobre aquele que é racializado. 

 

Jorge Vala  – Racismo, Hoje, Portugal em Contexto Europeu (2021)

Fundação Francisco Manuel dos Santos, Jorge Vala (2021)

 

 

15
Mar22

sistemas

Cecília

Por exemplo, os comportamentos violentos e deliquentes são geralmente associados a minorias. Como explicar esta associação recorrente entre minorias e comportamentos deliquentes? Será mesmo assim ou trata-se de uma percepção enviesada? Uma investigação replicada frequentemente ajuda-nos a responder a esta pergunta.

Aos participantes neste estudo apresentam-se frases em que indivíduos de dois grupos diferentes (A e B) são descritos como tendo realizado comportamentos positivos e negativos. Além disso, é dito que o grupo A tem o dobro dos membros do grupo B, sendo deste modo criada a ideia de que o grupo A é maioritário relativamente a B. São ainda apresentados mais comportamentos positivos do que negativos para ambos os grupos e a proporção de comportamentos positivos e negativos é a mesma para ambos os grupos. É pedido aos participantes que recordem o número de comportamentos positivos e negativos de cada grupo. Resultado: eles tendem a lembrar-se aproximadamente do mesmo número de comportamentos positivos em ambos os grupos, contudo subestimam o número de comportamentos negativos do grupo maioritário e sobrestimam esses comportamentos no grupo minoritário. Ou seja, os participantes estabelecem uma «correlação ilusória», associando os comportamentos negativos (menos frequentes) ao grupo minoritário (menos frequente), isto é, associaram duas realidades pouco frequentes. A sobrestimação de comportamentos negativos nos grupos minoritários será com grande probabilidade o resultado de um mecanismo cognitivo enviesador, uma ilusão produzida pelo sistema cognitivo de quem perceciona.

 

Jorge Vala  – Racismo, Hoje, Portugal em Contexto Europeu (2021)

Fundação Francisco Manuel dos Santos, Jorge Vala (2021)

 

 

11
Mar22

[gri gri gri gri]

Cecília

[...] estudo mostrou mudanças notáveis na expressão do racismo: uma redução no racismo biológico, tradicional, flagrante, ao mesmo tempo que surgia um racismo mais indirecto e subtil, que se exprime mais no benefício do branco do que em sentimentos antinegro [...] 

Embora o racismo tenha, em muitas situações, evoluído de flagrante para subtil [...] a verdade é que persiste e, consequentemente, a probabilidade de a discriminação racial e a violência contra pessoas percebidas como tendo «origens étnicas ou cor diferente» continuar a ocorrer é elevada.

 

Jorge Vala  – Racismo, Hoje, Portugal em Contexto Europeu (2021)

Fundação Francisco Manuel dos Santos, Jorge Vala (2021)

 

 

11
Fev22

desiludida falta de caráter

Cecília

Observei com uma clareza desiludida a falta de identidade da rua; as suas varandas e cortinas; as roupas castanhas, a cupidez e a complacência das mulheres que trabalhavam nas lojas; os velhos passeando com as suas roupas de lã; a forma cautelosa como as pessoas atravessavam a rua; a determinação universal de se continuar a viver quando a verdade é que, seus idiotas, uma qualquer telha vos podia cair em cima e este ou aquele carro galgar o passeio 

 

Virginia Woolf – As Ondas (1931)

Colecção Mil Folhas / Bibliotex SL / M.E.D.I.A.S.A.T. e Promoway Portugal Ltda (2002)

 

 

05
Fev22

subliminarmente mergulhados

Cecília

Em Portugal, como noutros países, as pessoas negras são consistentemente associadas a violência e isso tem consequências vitais para elas. Muitos leitores lembrarão o caso de Amadou Diallo, um imigrante guineense negro que foi abordado pela polícia de Nova Iorque em fevereiro de 1999 e recebeu instruções para não se mexer. Porém, Diallo levou a mão ao bolso para tirar a carteira com a identificação. Esse gesto foi confundido com o sacar de uma arma. Foi morto com cerca de 40 tiros. Vejamos a este propósito uma linha de pesquisa experimental replicada em vários países, incluindo Portugal, com a participação de estudantes universitários brancos.

Nesta linha de pesquisa, é pedido aos participantes que identifiquem um objeto (uma arma ou uma ferramenta) que é apresentado no ecrã do computador por um brevíssimo espaço de tempo. As respostas são registadas como certas ou erradas. Acontece que antes de o objeto (arma ou ferramenta) ser apresentado no ecrã é colocado no mesmo ecrã ora a foto de uma pessoa negra ora a de uma pessoa branca. Isto é feito de forma tão rápida que os participantes não se dão conta da foto - uma exposição subliminar. O que se verifica é que os participantes brancos confundem mais vezes uma ferramenta com uma arma quando subliminarmente são expostos à foto de um negro. De forma inversa, quando uma arma aparecia na sequência de uma foto de um branco era mais vezes confundida com uma ferramenta. Se com os resultados desta experiência refletirmos sobre o assassinato de Amadou Diallo, apreenderemos melhor o potencial de violência inscrito nos estereótipos.

 

Jorge Vala – Racismo, Hoje, Portugal em Contexto Europeu (2021)

Fundação Francisco Manuel dos Santos, Jorge Vala (2021)

 

 

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