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Nariz de cera

anotações e apontamentos que dizem tudo - de, por e para mim - por si mesmos.

Nariz de cera

anotações e apontamentos que dizem tudo - de, por e para mim - por si mesmos.

28.10.19

delicadezas de estilo


Cecília

 

O mais delicado champanhe não passa do desperdício de uma festa, daquilo que as leveduras decidiram cagar depois de se empanturrarem do açúcar das uvas. 

 

 

Afonso Cruz_ O macaco bêbedo foi à ópera - Da embriaguez à civilização (2019)
Fundação Francisco Manuel dos Santos e Afonso Cruz (2019)

 

 

6836-champagne_at_the_hotel_room.jpg

Champagne at the Hotel Room

Marc Ferrero

 

 

08.08.18

foi a cerveja


Cecília

Na mesa junto à janela virada para Poente, ensaia-se uma Última Ceia: a companhia de teatro arranjou doze apóstolos e um Cristo (...) De repente, a meio de uma dança, Borja caminha para a mesa onde se desenrola a Última Ceia e manda retirar o vinho, pois é um erro histórico. O Cristo está impávido, mas São João acha que não faz sentido e afasta o seu copo do alcance do professor, que começa a discursar:

- Ninguém sabe, caros Jesus Cristo e seus apóstolos, por que razão o homem se sedentarizou, já que está provado que ser nómada dá muito menos trabalho. Então porque sucedeu essa mudança radical? Muito simples, vou explicar-vos, queridos apóstolos e Nosso Senhor: foi a cerveja. Para ter cerveja era preciso cultivar. E assim nasceu a sociedade como a conhecemos. Graças à cerveja, temos hospitais e bibliotecas. Não existiriam livros se não fosse a cerveja. Não existiriam escritores nem ciência. Os nómadas não têm prisões nem conhecem o castigo, mas por outros lado não têm bibliotecas. Os nómadas não têm nada disto, porque andam de um lado para o outro e as prisões não podem ser transportadas, tal como as tipografias e os hospitais e as livrarias. E tudo isso se deve ao facto de alguns povos terem querido beber cerveja e, para isso, precisarem de se sedentarizar. No tempo de Cristo, no vosso tempo, andavam todos a beber cerveja. Na verdade, as bebidas alcoólicas confundiam-se entre si, pois era normal juntar frutos a bebidas de cereais e cereais a bebidas de frutos. Mas o que é certo é que o Egipto tinha inúmeras cervejeiras e exportava grandes quantidades para a Palestina. O que se bebia no espaço geográfico em que Cristo habitava era cerveja. O vinho era uma bebida de romanos, dos invasores. Cristo não iria beber a bebida dos ricos, dos opressores (...) mas a dos pobres, das putas e dos pecadores. Isso é que era a cerveja, um símbolo do povo. Jesus Cristo bebia cerveja, que sempre foi chamada de pão líquido, pois é verdadeiramente pão com água. 

 

 

Afonso Cruz - Jesus Cristo Bebia Cerveja (2012)

Penguin Random House (2016)

 

 

 

 

25.05.17

naufrágio de um barco rabelo


Cecília

Foi um próspero comerciante e também um lavrador de vistas largas. Não limitou a sua actividade à exportação do vinho do Porto. Cultivou a vinha, plantou olivais e produziu azeite segundo conceitos vanguardistas; foi fabricante de vinagres e dedicou-se ainda ao linho, que aprendeu a «malhar, tascar,espadar e pentear». 

Trabalhava desde o romper do dia até à hora do jantar, que se fazia, naquela época, por volta das seis da tarde. 

Desenhou e ilustrou mapas da região vinhateira; e munido de um lápis ou pincel, recolheu e arquivou aspectos, tipos, usos e costumes da nossa terra e da nossa gente (...) 

Joseph Forrester viveu na sua casa da Ramada Alta, onde recebia as figuras de maior relevo na vida política, económica e social do seu tempo. Por via disso, exerceu uma grande influência na sociedade portuense dessa época. O Governo português distinguiu-o, em 1855, com o título de barão de Forrester, como recompensa pelos relevantes serviços prestados à causa do Douro vinhateiro. Pois este homem da lavoura duriense, este comerciante do vinho do Porto, este artista e fidalgo, impulsionador da economia e da geografia agrária do Douro, este artista de rara sensibilidade e de aguda inteligência, veio a morrer no naufrágio de um barco rabelo, ocorrido na manhã de domingo do dia 12 de Maio de 1861. 

O desastre verificou-se no Cachão da Valeira, curiosamente um dos sítios mais traiçoeiros que havia no Douro e que Forrester estudara minuciosamente. Regressava à Régua de uma visita à Quinta do Vesúvio, de que eram proprietários Francisco José da Silva Torres e sua mulher, D. Antónia Adelaide Ferreira, a célebre Ferreirinha. Viajavam no barco, além do barão e deste casal, a condessa e o conde de Azambuja, respectivamente filha e genro de D. Antónia; o juiz Aragão Mascarenhas e ainda dois criados da Quinta do Vesúvio. O naufrágio ocorreu porque o barco não conseguiu vencer a corrente impetuosa das águas, que haviam engrossado desmesuradamente devido às fortes bátegas que tinham caído nos dias anteriores. Morreram no acidente o barão de Forrester e os dois serviçais da família Torres. Uma versão popular do naufrágio diz que o barão foi rapidamente ao fundo por causa do peso das libras que trazia com ele para a compra de vinho e porque usava umas botas altas, que se encheram de água e lhe tolheram os movimentos, impossibilitando-o de nadar. Outra versão, e esta mais aceitável, diz que quando o rabelo se voltou o barão de Forrester foi atingido na cabeça pelo mastro do barco, tendo, com a pancada, perdido os sentidos, afundando-se. Na esteira da primeira narrativa popular, surge uma outra que atribui o salvamento de D. Antónia Ferreira ao facto de ela usar uma ampla saia rodada que em contacto com a água se abriu e terá servido de bóia, contribuindo para que a Ferreirinha flutuasse facilmente. Mas isto são apenas narrativas lendárias. Uma coisa é certa: o corpo do malogrado negociante de vinho do Porto, não obstante as intensas e exaustivas buscas que se fizeram, nunca mais apareceu. 

 

 

Germano Silva e Lucília Monteiro – Porto, a Revolta dos Taberneiros e Outras Histórias (2004)

Editorial Notícias (maio 2004)

 

 

 

 

 

 

 

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