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Nariz de cera

anotações e apontamentos que dizem tudo - de, por e para mim - por si mesmos.

Nariz de cera

anotações e apontamentos que dizem tudo - de, por e para mim - por si mesmos.

loucura sadia

09.10.20

[..] O procedimento do Sr. Aristides de S. Mendes implicara tal desvairamento que ao comunicar logo em seguida às autoridades espanholas a decisão de dar por nulos os vistos concedidos pelo consulado em Bordéus a numerosíssimas pessoas que ainda se encontravam em França, não tive dúvida em declarar que era minha convicção que o referido cônsul havia perdido o uso da razão. A bem da nação.»

Neste aceso encontro entre Teotónio Pereira e Aristides houve troca de palavras desagradáveis. A determinada altura, Teotónio Pereira declara que Aristides deve ter enlouquecido, ao que este lhe responde: «Mas será preciso ser-se louco para fazer o que está certo?» 

 

António Moncada S. Mendes – Aristides de Sousa Mendes, Memórias de Um Neto
Edições Saída de Emergência e António Moncada S. Mendes  (2017)

 

 

abençoada por não acreditar

19.12.19

Um terramoto atingiu Londres quando eu tinha onze anos. O mundo abanou, caíram louças das prateleiras, utensílios, vidraças racharam-se e as pessoas correram para as ruas, gritando que era castigo de Deus. Infantilmente, encontrei conforto no tremer da terra. A ideia de que existia uma força maior do que a insignificância de homens e mulheres agradou-me. Nos dias que se seguiram ao terramoto, os arautos da desgraça anunciaram que pecados de Londres eram responsáveis pela terrível calamidade e que o fim do mundo estava próximo. Se eu acreditasse num Deus vingativo, coisa em que me sinto abençoada por não acreditar, talvez tivesse pensado que (...) fosse um castigo 

 

Wray Delaney - Memórias de Uma Cortesã  (2016)

Quinta Essência, Oficina do Livro (2017)

 

o preço do destino

15.11.17

Que fazer então? Matar a enteada com gás da Companhia ficava caríssimo e os tempos que correm exigem a mais apertada economia. Para tirar as dúvidas, puxou de papel e lápis e fez as contas: Tendo a sua casa 185 m3 e custando 40$00 cada metro do referido gás, a vingança importar-lhe-ia em cerca de sete contos e quinhentos. Impossível!... (E aqui deixo o meu protesto para ser exarado em acta na próxima reunião de vereadores. Que porcaria de cidade é esta, onde morrer fica quase tão caro como viver?!) 

 

Vilhena – Branca de Neve e os 700 anões (1962)
Edição fac-símile, A Bela e o Monstro Edições / Rapsódia Final, Unipessoal lda (2014)

 

 

 

arte do desapego

06.11.17

 

 

 

Declarou: saí à floresta para te matar. Arrebatado por esse sentimento, saí. Mas o juízo sobrevém à raiva. Esperei o suficiente para que me rendesse à amenidade de sempre ou à decrepitude. Foi o melhor. A tua vida morre de qualquer maneira. E eu guardo-me de remorsos ou cansaço. Itaro novamente lhe perguntou: de verdade que outro me tocou na floresta. E o oleiro respondeu: de verdade. Podes partir com o meu ódio mas sem a minha condenação. Haverás de condenar-te sozinho. Porco. 

 

Valter Hugo Mãe – Homens imprudentemente poéticos

Porto Editora (2016)