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Nariz de cera

anotações e apontamentos que dizem tudo - de, por e para mim - por si mesmos.

Nariz de cera

rolou, rolará


Cecília

21.02.19

unânime sabor enorme das folhas que nas mãos

se enrolam frescas

somos quase a água de um segredo

 

como se nascêssemos

com os punhos rolados no mar

o solo até à boca

os ossos vivos no abraço 

 

In Perto do Mar

 

 

António Ramos Rosa - Obra Poética I 

Assírio & Alvim (2018)

 

 

 

 

condição humana


Cecília

12.02.19

nossa condição humana, que é inimiga de tudo o que é infinito. Opõe-se-lhe o nosso sempre insuficiente conhecimento do futuro; e a isto se chama, num caso, esperança; no outro, incerteza do amanhã. Opõe-se-lhe a certeza da morte, que impõe um limite a qualquer alegria, mas também a qualquer dor. 

 

Primo Levi – Se Isto É Um Homem (1947)
Coleção Mil Folhas PÚBLICO (2002)

 

 

 

invariavelmente


Cecília

07.02.19

disse a assistente, com um sorriso triste e cansado de quem trabalhava para pagar as propinas da faculdade, visto que os pais já não tinham posses para isso, de quem fazia turnos extra para conseguir mais algum para pôr numa conta poupança-habitação com o namorado, para se meterem numa casa assim que tivessem acabado os respectivos cursos e tivessem arranjado empregos que lhe dessem aquela segurança de que um casal em início de vida necessitava para se chegar ao balcão e pedir cem mil euros, a trinta e cinco anos, com taxa variável e indexada a uma coisa que eles não sabiam muito bem o que era, mas que era suficiente para lhes tirar muitas noites de sono. 

 

Ricardo Adolfo, Mizé - Antes galdéria do que normal e remediada

Alfaguara (2011)

 

 

 

sem


Cecília

30.01.19

 

Aqui esperavam-nos o comboio e a escolta para a viagem. Aqui recebemos as primeiras pancadas: e o facto foi tão novo e insensato que não sentimos dor, nem no corpo nem na alma. Só um profundo espanto: como se pode bater num homem sem raiva?

 

 

Primo Levi – Se Isto É Um Homem (1947)
Coleção Mil Folhas PÚBLICO (2002)

 

 

Scène du massacre des innocent - 1824

Léon Cogniet

 

 

la vida... es un ratico


Cecília

23.01.19

Cada blanco en mi mente
Se vuelve color con verte
Y el deseo de tenerte
Es más fuerte es más fuerte
Solo quiero que me lleves
De tu mano por la senda
Y atravesar el bosque
Que divide nuestras vidas
Hay tantas cosas
Que me gustan hoy de ti
Me enamora
Que me hables con tu boca
Me enamora
Que me eleves hasta el cielo
Me enamora
Que de mi sea tu alma soñadora
La esperanza de mis ojos
Sin ti mi vida no tiene sentido
Sin ti mi vida es como un remolino
De cenizas que se van, oh
Volando con el viento
Yo no se si te merezco
Solo sé que aun deseo
Que le des luz a mi vida
En los días venideros
Léeme muy bien los labios
Te lo digo bien despacio
Por el resto de mis días
Quiero ser tu compañía
Hay tantas cosas
Que me gustan hoy de ti
Me enamora
Que me hables con tu boca
Me enamora
Que me eleves hasta el cielo
Me enamora
Que de mi sea tu alma soñadora
La esperanza de mis ojos
Sin ti mi vida no tiene sentido
Sin ti mi vida es como un remolino
De cenizas que se van, oh
Me enamora
Que me hables con tu boca
Me enamora
Que me eleves hasta el cielo
Me enamora
Que de mi sea tu alma soñadora
La esperanza de mis ojos
Sin ti mi vida no tiene sentido
Sin ti mi vida es como un remolino
De cenizas que se van, oh
Volando con el viento

 

Artista: Juanes
Álbum: La Vida... Es Un Ratico

 

 

Maysa


Cecília

22.01.19

Eu só digo o que penso; só faço o que gosto e aquilo que creio. E se alguém não quiser entender e falar, pois que fale. Eu não vou me importar com a maldade de quem nada sabe.

 

Maysa

(6 de junho, 1936 — 22 de janeiro, 1977)

 

 

 

 

 

rotina da magia


Cecília

21.01.19

É que os clientes quando chegavam do trabalho cansados, desmotivados, prontos para enfiar um tiro nos cornos, sempre passavam por ali - e em vez de chacinarem a família, levantavam o último herói psicopata e com ele arrasavam exércitos de maus em menos de duas horas. O que era o tempo perfeito para voltarem para a cama e dormirem aquelas seis, sete horinhas que os ia deixar fresquinhos para mais um dia de labuta nos cubículos de Lisboa e arredores. 

 

Ricardo Adolfo, Mizé - Antes galdéria do que normal e remediada

Alfaguara (2011)

 

 

ténue barreira


Cecília

11.01.19

A faculdade humana de cavar um nicho para si, de segregar uma carapaça, de levantar à sua volta uma ténue barreira de defesa, mesmo em circunstâncias aparentemente desesperadas, é espantosa e mereceria um estudo aprofundado. 

 

Primo Levi – Se Isto É Um Homem (1947)
Coleção Mil Folhas PÚBLICO (2002)

 

 

 

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