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Nariz de cera

anotações e apontamentos que dizem tudo - de, por e para mim - por si mesmos.

anotações e apontamentos que dizem tudo - de, por e para mim - por si mesmos.

inseguranças indiferentes

Apagaram-se as luzes. Ninguém conseguia dormir, mas todos tentaram. Eu nem me dei a esse trabalho. Eu estava sentado junto à janela e fiquei a olhar para a asa e para as luzes em baixo. Estava tudo organizado em belas linhas rectas. Ninhos de formigas. 

Deslizámos até ao aeroporto internacional de L.A. Ann, amo-te. Espero que o meu carro arranque. Espero que o lava-louça não esteja entupido. Estou contente por não ter fodido com uma groupie. Estou contente por não ser muito bom a meter-me na cama com mulheres estranhas. Estou contente por ser um idiota. Estou contente por não saber nada. Estou contente por não ter sido assassinado. Quando olho para as minhas mãos e vejo que ainda estão agarradas aos meus pulsos, digo a mim próprio: Tenho sorte. 

Desço do avião arrastando o sobretudo do meu pai e a mala dos poemas. A Ann veio ter comigo. Vi a cara dela e pensei, merda, eu amo-a. O que é que vou fazer? O melhor que podia fazer era mostrar-me indiferente e depois seguir com ela para o parque de estacionamento. Nunca devemos deixar que saibam que gostamos delas, senão, matam-nos. 

 

Charles Bukowski in Para Dentro E Para Fora E Por Cima - Música para Água Ardente (1983)

Antígona (2015)

 

 

 

 

então diante de mim

Eu perdi a vez de ser simples, 

perdi a vez feliz de ignorar,

perdi a sábia ignorância,

perdi a graça de não saber.

Deixei passar a vez de ir na corrente 

e de ser como toda a gente 

às carambolas da sorte. 

 

Eu perdi a vez de ser analfabeto,

esse segredo para não ser doutor 

e para não saber também

o que as letras sabem 

do mundo e de mim. 

 

(...) ser ignorante não dói 

não dói tanto como não ignorar!

 

Eu deixei passar a vez de ir na onda 

e de ter o entendimento repartido pelos mais, 

começaram por ensinar-me as letras 

e as letras acabaram por dar comigo 

e eu vi-me então diante de mim 

despegado da onda e da corrente 

diferente de toda a gente 

independente da multidão. 

 

 

José de Almada Negreiros, SEGUNDA MANHàin AS QUATRO MANHÃS
Poemas Escolhidos José de Almada Negreiros - Assírio & Alvim | Porto Editora 2016

 

 

 

 

 

voar

Voar é o contrário de viajar: atravessas uma descontinuidade do espaço, desapareces no vácuo, aceitas não estar em parte nenhuma durante uns momentos que são também uma espécie de vácuo no tempo; depois reapareces, num lugar e num instante sem relação com o onde e com o quando em que tinhas desaparecido. 

 

 

Italo Calvino – Se Numa Noite de Inverno Um Viajante (1979)
Coleção Mil Folhas PÚBLICO (2002)

 

 

 

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