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Nariz de cera

anotações e apontamentos que dizem tudo - de, por e para mim - por si mesmos.

Nariz de cera

anotações e apontamentos que dizem tudo - de, por e para mim - por si mesmos.

Maysa


Cecília

22
Jan19

Eu só digo o que penso; só faço o que gosto e aquilo que creio. E se alguém não quiser entender e falar, pois que fale. Eu não vou me importar com a maldade de quem nada sabe.

 

Maysa

(6 de junho, 1936 — 22 de janeiro, 1977)

 

 

 

 

 

Chacina da Candelária


Cecília

23
Jul18

- A minha avó é mouca - diz Rosa. 

- No fundo, somos todos. Só ouvimos o que nos interessa. 

 

 

Afonso Cruz - Jesus Cristo Bebia Cerveja (2012)

Penguin Random House (2016)

 

 

 

 

A população pede chacinas, principalmente quando não são com seus filhos. Se está morrendo na mão da polícia é porque alguma coisa errada estava fazendo. Até depois descobrir que não é isso"


Patrícia de Oliveira da Silva, irmã de vítima da chacina

 

 

 

a culpa é do governo


Cecília

23
Mai18

"Está um tempo insuportável! Como é que o governo não trata disto?" (...) resmungou o lobo. "Estou a dizer-lhes que a culpa é do Governo, e se não acreditam em mim, devoro-os a todos já!"

 

 

 

Oscar Wilde – O Menino-Estrela (1891)
Ilustração: Luís Henriques

Oficina dos Sonhos - Clássicos - Porto Editora (2008)

 

 

 

 

 

 

 

 

eterna Cruz


Cecília

01
Ago16

" Em 64, executando um gesto exigido pela necessidade de perpetuar essas desigualdades que têm se mostrado o único modo de a economia brasileira funcionar (mal, naturalmente) - e, no plano internacional, pela defesa da liberdade de mercado contra a ameaça do bloco comunista (guerra fria) -, os militares tomaram o poder. (...) Assim as passeatas " com Deus pela liberdade", organizadas por "senhoras católicas" em apoio ao golpe militar, nos surgiam como cínicos gestos hipócritas de gente má.  (...) Tenho a vaga lembrança de ter visto uma moça que eu conhecia da casa de Macalé, de quem ela era vizinha de prédio em Ipanema, e da surpresa desagradável por sabê-la da Polícia Federal. Possivelmente ela exercia um cargo meramente burocrático ali, mas a presença entre os meus algozes de uma moça que eu vinculava a outro tipo de ambiente dava um ar ainda mais sombrio aos acontecimentos. (...) Isso me volta à memória com assiduidade ainda hoje, compondo a confusa lembrança da central carioca da Polícia Federal, onde Gil e eu passamos o dia sentados lado a lado em cadeiras, primeiro numa sala grande cheia de agentes atarefados, depois nalguma sala menor cuja porta era guardade por dois policiais. (...) Os civis sumiram. Fomos entregues a soldados cujos gestos ríspidos, combinados com as caras fechadas, deixavam claro que não havia diálogo possível. A própria homogeneidade da roupa dá aos militares uma aparência (e não só aparência) de entidade extra-humana. (...) Passamos por algumas situações intermediárias, das quais nada lembro, antes de sermos colocados na sala de um general que deveria ocupar um alto posto no Exército (...). A sala era grande, atapetada, mobiliada com o que exigiria uma descrição nos termos algo paradoxais de austera pompa. Estávamos exatamente de frente para uma grande mesa de jacarandá à qual sentava-se o general. A visão era frontal mas afastada, pois a mesa ficava no outro extremo da sala. De modo que o espetáculo do general calado e sério atrás de sua mesa ganhava, do nosso ponto de vista, um ar teatral. Esperamos que aquilo fosse, afinal, ser o interrogatório, embora já tivéssemos começado a perder a cabeça com as esperas inexplicadas, e já pressentíssemos que estávamos sendo roubados às nossas vidas. O general, de fato, passou muito tempo olhando fixamente para nós, sem dizer uma só palavra ou esboçar o menor gesto. (...) Seu primeiro movimento, quase imperceptível, depois desse longo confronto mudo - que, tenho a certeza, não durou poucos minutos -, foi o de apertar um botão que fez soar uma campainha nalgum lugar de onde veio um soldado a quem ele falou sem que ouvíssemos. Passaram-se mais muito intermináveis minutos antes que chegassem dois soldados trazendo bandejas com o jantar do general.  Era galinha. Ele fez calmamente sua refeição na nossa frente, como se estivesse num palco. (...) Dir-se-ia que ele desempenhava meticulosamente o papel da solidão despreocupada, entremeando-o de acenos discretos aos assistentes, como se dissesse: « Eu sei que vocês estão aí e me é indeferente a sua presença quanto a sentir-me à vontade para comer, mas é significativo que vocês me vejam fazer isso e que nada possam dizer a respeito: isto aqui diz tudo sobre nossas relações e muito sobre a condição em que vocês se encontram de agora em diante». (...) O general acabou de jantar, tocou de novo a campainha, os soldados vieram e levaram as bandejas. Ele nos olhou mais alguns minutos, apertou outra vez o botão, outros soldados entraram - possivelmente os mesmos que nos haviam trazido - e nos levaram embora. (...) Estivemos naquela sala apenas para esperar? O general queria nos conhecer? Era uma encenação para nos desestruturar e assustar? Nada disso pôde ser comentado por mim e por Gil enquanto erámos levados, numa viatura do exército, do antigo Ministério da Guerra para o quartel da Polícia do Exército na rua Barão de Mesquita, na Tijuca." 

 

Caetano Veloso  – Verdade Tropical  

 

Quasi Edições para Círculo de Leitores (Outubro de 2003)