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Nariz de cera

anotações e apontamentos que dizem tudo - de, por e para mim - por si mesmos.

Nariz de cera

anotações e apontamentos que dizem tudo - de, por e para mim - por si mesmos.

08.10.19

invisivelmente visível


Cecília

Eu tenho um anjo

Anjo da Guarda

Que me protege de noite e de dia

Eu não o vejo

Eu não o ouço

Mas sinto sempre a sua companhia 1

 

1 António Variações, «Anjo da Guarda», Anjo da Guarda, EMI - Valentim de Carvalho, 1983 

 

Manuela Gonzaga – António Variações, Entre Braga e Nova Iorque (2018)
Manuela Gonzaga e Bertrand Editora (2018)

 

 

 

15.09.19

ações


Cecília

... cada um tem que, por suas próprias forças, criar liberdade e combater as ficções sociais. 

 

 

Fernando Pessoa - O Banqueiro Anarquista (1922)
Antígona (2018)

 

 

 

07.08.19

I reprise de agosto


Cecília

A adrenalina trepa o stress dos VIPs desliza

por rasgadas pistas no cobre a pique a pique a pique

lábio cigarro mão morta ao volante

(...)

Um frigo internacional avança slowly

contra a chaparia de todas as

ambições.

 

Paulo da Costa Domingos in Na EN264, A última Nau

 

Paulo da Costa Domingos - Carmina (1971 - 1994)

Antígona (1995)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

30.07.19

vã soberba


Cecília

Antecede o conhecimento a vagabundagem 

 

 

Paulo da Costa Domingos in Violeta Náutica

 

 

Paulo da Costa Domingos – Carmina (1971-1994)
Antígona (1995)

 

 

A Negação de Pedro, 1610

Caravaggio

 

Presa de indizível remorso, o apóstolo retirou-se, envergonhado de si mesmo. Dando alguns passos, alcançou os muros exteriores, onde se deteve a chorar amargamente. Ele, que fora sempre homem ríspido e resoluto (...) ali se encontrava, abatido como uma criança, em face de sua própria falta. Começava a entender a razão de certas experiências dolorosas de seus irmãos em humanidade (...) Foi aí que o antigo pescador refletiu mais austeramente, lembrando as advertências amigas de Jesus, quando lhe dizia: - “Pedro, o homem do mundo é mais frágil do que perverso!. . .“

in http://www.doutrinaespirita.com.br/?q=node/920

 

03.06.19

natureza


Cecília

essa pergunta que regressa ciclicamente ao seu espírito: o que é a Natureza?

Raimundo olha à sua volta e, nas ruas de Mafra ou nas colinas verdes salpicadas de moinhos e casitas brancas não vislumbra anjos, nem madonas, nem santos, nem cordeiros de Deus. O que vê é uma outra natureza habitada por rudes cavadores, saloias dobradas para a terra das hortas, o oleiro com o barro nas mãos como uma segunda pele, o sapateiro na banca a furar o couro com a sovela, o tanoeiro a ajustar as aduelas de folha numa celha, o ferreiro com o corpo de bronze entre o fole e a bigorna, o regatão bocejando à porta da lojeca, o carpinteiro de formão apontado a uma tábua de pinho, o aguadeiro de porta em porta, a alombar com o barril.

É essa gente que ele tem ganas de pintar. E decide que essa gente e essa gana são, para ele, a Natureza. A Natureza que ele gostaria de trazer para fora da obscuridade das igrejas e da privança dos palácios. 

 

Álvaro Guerra – Razões de Coração (1991)
Coleção Mil Folhas PÚBLICO (2002)

 

anunciação---na-eira-fit-555x353-6.jpg

Na eira , 1861

Tomás da Anunciação

 

 

30.05.19

O Banqueiro Anarquista


Cecília

Nunca o português tem uma acção sua, quebrando com o meio, virando as costas aos vizinhos. Age sempre em grupo, pensa sempre em grupo. Está sempre à espera dos outros para tudo.

Somos incapazes de revolta e de agitação. Quando fizemos uma “revolução” foi para implantar uma coisa igual ao que já estava. Manchámos essa revolução com a brandura com que tratámos os vencidos. E não nos resultou uma guerra civil, que nos despertasse; não nos resultou uma anarquia, uma perturbação das consciências. Ficámos miseravelmente os mesmos disciplinados que éramos.

Trabalhemos ao menos – nós, os novos – por perturbar as almas, por desorientar os espíritos. Cultivemos, em nós próprios, a desintegração mental como uma flor de preço. Construamos uma anarquia portuguesa.

 

Fernando Pessoa

 

 

in https://antigona.pt/collections/5-euros/products/o-banqueiro-anarquista

07.05.19

conhecimento dos homens


Cecília

O resultado deste feroz processo de selecção natural poder-se-ia ler nas estatísticas do movimento do Lager. Em Auschwitz, no ano de 1944, dos velhos prisioneiros judeus (...) dos pequenos números inferiores a cento e cinquenta mil, sobreviviam poucas centenas (...) Só sobreviviam, os médicos, os alfaiates, os sapateiros, os músicos, os cozinheiros, os jovens homossexuais atraentes, os amigos ou patrícios de uma ou outra autoridade do campo; e ainda indivíduos particularmente ferozes, vigorosos e desumanos, desempenhando (em consequência de uma investidura por parte do comando SS, que neste sentido mostravam ter um conhecimento dos homens deveras diabólico) os cargos de Kapo, de Blockältester, ou outros; 

 

Primo Levi – Se Isto É Um Homem (1947)
Coleção Mil Folhas PÚBLICO (2002)

 

 

 

04.04.19

o último


Cecília

Todo este aparato, este cerimonial meticuloso não são novos para nós. Desde que estou no campo, já tive de assistir a treze enforcamentos públicos; mas das outras vezes tratava-se de crimes comuns (...)

Hoje trata-se de outra coisa. 

No mês passado, um dos fornos crematórios de Birkenau foi mandado pelos ares. Nenhum de nós sabe (e talvez nunca ninguém venha a saber) exactamente como é que a iniciativa foi levada a cabo (...) 

O homem que irá morrer hoje diante de nós tomou parte de qualquer forma na revolta (...) todos ouvimos o grito do condenado; ele penetrou as espessas barreiras de inércia e de remissão, percutiu o centro vivo do homem dentro de cada um de nós:

- Kameraden, ich bin der Letzte! - (Camaradas, eu sou o último!)

Queria poder contar que entre nós, rebanho abjecto, uma voz se levantou, um murmúrio, um sinal de concordância. Mas nada aconteceu. Ficámos de pé, curvados e cinzentos, de cabeça baixa, e só descobrimos a cabeça quando o alemão o ordenou. O alçapão abriu-se, o corpo contorceu-se atrozmente; a banda recomeçou a tocar, e nós, de novo formados em coluna, desfilámos diante dos últimos estremecimentos do justiçado. 

Ao pé da forca, os SS olham com indiferença para nós que desfilamos: a sua obra está cumprida, e bem cumprida. Os russos podem chegar; agora, já não há homens fortes entre nós, o último pende por cima das nossas cabeças, e, para os outros, poucas forcas foram suficientes. Os russos podem chegar : apenas nos encontrarão a nós, os vergados, os apagados, dignos da morte inerme que nos espera. 

Destruir o homem é difícil, quase tanto quanto criá-lo; não foi fácil, não foi rápido, mas os Alemães conseguiram-no. Desfilamos dóceis, debaixo dos seus olhares: da nossa parte nada mais têm a recear: nem actos de revolta, nem palavras de desafio, nem sequer um olhar de condenação. 

 

Primo Levi – Se Isto É Um Homem (1947)
Coleção Mil Folhas PÚBLICO (2002)

 

 

 

 

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