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Nariz de cera

anotações e apontamentos que dizem tudo - de, por e para mim - por si mesmos.

Nariz de cera

anotações e apontamentos que dizem tudo - de, por e para mim - por si mesmos.

nenhuma a que valha a pena responder

Não podemos estar cansados de uma miríade de coisas? Cansados de nos levantarmos todas as manhãs e de nos deitarmos todas as noites; cansados de ter calor o Verão inteiro e frio no Inverno... Cansados de nos fazerem perguntas atrás de perguntas e nenhuma a que valha a pena responder... 

 

 

George Sand – Diário Íntimo

Antígona (2004)

 

 

 

As Engomadeiras - 1884.86

Edgar Degas

 

o zen e a imaginação suplementar

Trata-se de um dos monumentos mais famosos da civilização japonesa, o jardim de rochas e areia do templo Ryoanji de Kyoto, a típica imagem da contemplação do absoluto que se alcança com os meios mais simples e sem recorrer a conceitos exprimíveis por palavras, segundo os ensinamentos dos monges Zen, a seita mais espiritual do budismo (...) Ao longo do quarto lado está um estrado de madeira com degraus onde o público pode passar e parar e sentar-se. «Se o nosso olhar interior permanecer absorto na visão deste jardim - explica o prospecto que é oferecido aos visitantes, em japonês e em inglês, assinado pelo abade do templo - sentir-nos-emos despidos da relatividade do nosso eu individual, ao mesmo tempo que a intuição do Eu absoluto nos encherá de serena surpresa, purificando as nossas mentes ofuscadas.»

O senhor Palomar está disposto a seguir estes conselhos com confiança e senta-se nos degraus, observa as rochas uma por uma, segue as ondulações sobre a areia branca, deixa que a harmonia indefinível que liga os elementos do quadro o vá invadindo a pouco e pouco. 

Ou seja: procura imaginar todas estas coisas tal como as sentirá alguém que pudesse concentrar-se na contemplação do jardim Zen em solidão e silêncio. Porque - tinhamo-nos esquecido de o dizer - o senhor Palomar está comprimido sobre o estrado, no meio de centenas de visitantes que o empurram de todos os lados, objectivas de câmaras fotográficas e de máquinas de filmar que abrem caminho por entre cotovelos, joelhos e orelhas da multidão, enquadrando as rochas e a areia de todos os ângulos possíveis, iluminados pela luz natural ou pelos flash (...) proles numerosas são empurradas para a primeira fila por pais com espírito pedagógico, bandos de estudantes, em uniforme, empurram-se, ansiosos por digerir o mais depressa possível a visita escolástica ao monumento famoso; visitantes diligentes verificam, com o vaivém rítmico da cabeça, se tudo aquilo que está escrito no guia turístico corresponde à realidade e se tudo aquilo que se vê na realidade está escrito no guia (...) 

Estas «instruções de utilização» estão contidas no prospecto e parecem ao senhor Palomar perfeitamente plausíveis e imediatamente aplicáveis, sem esforço, desde que se esteja deveras seguro de ter uma individualidade que se possa despir e de estar a olhar o mundo do interior de um eu que se possa dissolver, tornando-se apenas olhar. Mas é exactamente este ponto de partida que exige um esforço de imaginação suplementar, dificílimo de efectuar quando o nosso próprio eu é aglutinado por uma multidão compacta, que olha através dos seus mil olhos e percorre sobre os seus mil pés o itinerário obrigatório da visita turística. 

Conclui-se portanto que as técnicas mentais Zen, destinadas a alcançar o limite extremo da humildade, a distanciação em relação a qualquer forma de posse e orgulho, têm necessariamente como base o privilégio aristocrático, pressupondo o individualismo, com muito espaço e muito tempo à volta de cada um. 

 

 

Italo Calvino  - Palomar (1983)

Planeta DeAgostini (2001)

 

 

 

de ser como se é

Aquela cara de feições enormes, de gigante triste, volta-se de vez em quando para a multidão dos visitantes que estão para lá do vidro, a menos de um metro de distância; um lento olhar carregado de desolação de ser como se é, único exemplar no mundo de uma forma não escolhida, não amada, todo o cansaço de se carregar sobre os ombros a sua própria singularidade, todo o desgosto de ocupar o espaço e o tempo com a sua própria presença, tão embaraçante e tão vistosa.

 

 

 

Italo Calvino  - Palomar (1983)

Planeta DeAgostini (2001)

 

 

 

 

 

 

tom humano

Já notei que a maior parte dos homens se sente açulada e indignada quando, em pleno combate moral, recorremos à ternura e ao afecto. É vê-los feras amansadas e apanhadas de surpresa assim que recorremos à violência ou à dureza (...) Realidade estranha e deplorável, pois, em muitos casos, é igualmente aplicável à amizade (...) Quando não é refreado nem reprimido, o homem aproveita imediatamente para cometer abusos. Despreza quem o receia e maltrata quem o ama; receia quem o despreza e ama quem o maltrata. 

 

George Sand – Diário Íntimo

Antígona (2004)

 

 

 

chamar pai a outro

Conta-nos David, num dos seus Salmos, que Adão, ao olhar o mundo pela derradeira vez e ao ver que ele se encaminhava sem remédio para a senda das pulhices mais ignominiosas, rejeitou o título de Pai da Humanidade que lhe queriam atribuir, gritando num último esforço a famosa apóstrofe: 

- «Vão chamar pai a outro».

 

 

Vilhena – História Universal da Pulhice Humana (1960/1961/1965)
Edição Completa, Integral e Nunca Censurada dos Três Volumes Originais Pré-História / O Egipto / Os Judeus

Herdeiros de José Vilhena / SPA 2015, E-Primatur (2016)

 

 

 

 

 

interiores e exteriores

 

The Blind Girl

John Everett Millais

 

 

 

- ¿Así que le parece que toca peor en París?

- No he dicho «peor». Simplemente, es distinto. Es cuestión de intensidad. Y sí, se lo he dicho, y está muy intrigado. Hay que tener su música muy interiorizada para darse cuenta.
- Qué curioso. ¿Y dice usted que es su mayor admiradora?
- Sí.
- Seguramente sabrá que le ha dedicado su último disco a Marina…
- Claro, es su madre.
- Con un deseo un poco enigmático: «Para que pueda mirarme».
- Precioso.
- ¿Es que ha muerto?
- No, qué va. A veces viene a verlo, bueno, a oírlo. Es ciega.
- Ah…
- Tienen un vínculo estrechísimo. Él va a verla casi todos los días.
- ¿Dónde vive?
- En una residencia, en Montmartre. Se llama La Lumière. Su hijo le eligió una habitación con vistas al Sacré-Coeur.
- Pero si me ha dicho que era ciega.
- ¿Y qué? No solo se ve con los ojos

 

 

 

David Foenkinos - La biblioteca de los libros rechazados (2016)
Titulo original: Le Mystère Henri Pick
Traducción de María Teresa Gallego Urrutia y Amaya García Gallego
Penguin Random House Grupo Editorial S.A.U. (febrero, 2017)

 

 

 

 

mundo é nós

Eram francamente opostos. Antagonizavam-se com honestidade e reconheciam isso no modo como se observavam de soslaio. 

 

 

Valter Hugo Mãe – Homens imprudentemente poéticos

Porto Editora (2016)

 

 

 

 

Nós Somos o Mundo


Dizem que o mundo está acabando
Não está acabando, não, a gente só peca se quiser
A gente é que está destruindo o mundo
Mas se nos unirmos, também podemos construí-lo

Minha gente, do jeito que o mundo está hoje em dia
Não pensem que a sorte está sempre do vosso lado
Gozem, gozem, gozem a vida
Mas andem sempre, sempre com cuidado
Gozem, gozem, gozem a vida
Mas andem sempre, sempre com cuidado

Uuu ia ia, ia ia ia ia ia oh ia

Minha gente, a amizade está mudando
Hoje te querem bem, amanhã já nem te conhecem
A amizade de hoje só vale se tens algo a dar às pessoas
Se não tens, já sabes que elas vão te passar pra trás

Acham que Deus deixou o mundo de lado
Mas somos nós que fazemos nosso mundo
Se pensarmos direito, bem lá no fundo
A gente é que está em dívida com Ele

ulissescoroa