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Nariz de cera

anotações e apontamentos que dizem tudo - de, por e para mim - por si mesmos.

Nariz de cera

anotações e apontamentos que dizem tudo - de, por e para mim - por si mesmos.

compaixão €€€€€€€xpr€€€€€€€ssssss

06.07.21

O tempo passava, e Aristides não perdia a esperança de que melhores dias viessem, apesar do seu estado de saúde deteriorado, pelo derrame cerebral e pela situação absurda em que se encontrava. Houve quem lhe sugerisse que se dirigisse a um influente amigo de Salazar - António Cerejeira, o cardeal-patriarca. Sempre otimista, o meu avô assim fez. Finalmente, obteve uma resposta: «Que se dirigisse a Fátima e aí rezasse pela intercessão de Nossa Senhora.»

 

António Moncada S. Mendes – Aristides de Sousa Mendes, Memórias de Um Neto
Edições Saída de Emergência e António Moncada S. Mendes  (2017)

 

 

 

uma questão de ego

09.06.21

Que mais podemos esperar encontrar neste romance? Um trabalhador em conflito constante com os seus patrões. Um pobre homem que procura incessantemente o consolo na bebida, que precisa de um emprego mas que foge dele. Um homem mais inteligente e sensível do que aqueles que olham para ele de cima [...]

Alguém disposto a travar uma batalha perdida contra as autoridades, na defesa dos seus direitos, da sua honra e do que resta da sua dignidade. Um homem que anseia por uma vida mais simples, mais confortável, mais bela, mas que rapidamente parece destruir todas estas possibilidades. Um aspirante a escritor que carrega a sua cruz com outros bons homens no local de trabalho, homens com os seus próprios sonhos impossíveis e quixotescos [...]

 

Charles Bukowski – Correios (1971)

Antígona (2015)

 

 

redor

07.06.21

Na entrada do prédio dela havia um aviso:

NÃO É PERMITIDO FAZER BARULHO OU QUALQUER TIPO DE DISTÚRBIO, AS TELEVISÕES DEVEM SER DESLIGADAS ÀS DEZ DA NOITE. HÁ AQUI PESSOAS QUE TRABALHAM.

Era um aviso grande, pintado a vermelho.

- Agrada-me aquela parte das televisões - disse-lhe eu. 

 

Charles Bukowski – Correios (1971)

Antígona (2015)

 

 

engarrafados

20.05.21

Bordéus, que em tempos de paz tinha cerca de 200 mil habitantes, até 15 de junho iria contar com mais de um milhão de habitantes. Como acolhê-los, onde se refugiariam eles?

Em 1940, as pessoas não tinham máquinas fotográficas como hoje. Se não há registos de imagem suficientes desses dias negros, há, no entanto, uma gravura que ilustra melhor que tudo o que foi a entrada em Bordéus, em meados de junho de 1940, pela Pont de Pierre. Essa visão catastrófica ficou, sem dúvida, gravada nas mentes de Aristides e Angelina, tal como ficou gravada na mente do pintor e gravador Charles Philippe, o artista que a celebrizou dois anos mais tarde numa gravura que faz parte dos Arquivos Municipais de Bordéus [...] e das janelas do consulado de Portugal viam-se facilmente os autocarros, as ambulâncias, as centenas de automóveis particulares e os milhares de pessoas "engarrafados" nesta entrada de Bordéus, à mercê de um eventual ataque aéreo. 

 

António Moncada S. Mendes – Aristides de Sousa Mendes, Memórias de Um Neto
Edições Saída de Emergência e António Moncada S. Mendes (2017)

 

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L’exode juin 1940

Charles Philippe

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https://laultimahora.es/la-avalancha-de-odio-contra-la-voluntaria-que-consolo-a-un-migrante-en-ceuta-provoca-que-cierre-sus-redes-sociales/

 

 

ad maiora natus sum

12.05.21

O sol é uma noite suave

[...]

Reconheço um caminho entre dois reinos.

[...]

Ser sem qualidades,

consciência sem palavras.

 

Paciência na cor e na pedra

do ser. O esplendor dos sulcos brancos.

Abóbada de ausência, círculo do universo.

O que permanece ondula entre o verde e o vento. 

 

 

António Ramos Rosa in MEDIADORA DA AUSÊNCIA - Obra Poética I

Assírio & Alvim (2018)

 

 

volvendo (y partindo)

26.11.20

A vida é uma roda, a gente acaba por voltar ao ponto de partida. Eu dei a volta completa e a única saída, quando se ultrapassa tudo, é começar de novo. 

 

Manuela Gonzaga – António Variações, Entre Braga e Nova Iorque (2018)
Manuela Gonzaga e Bertrand Editora (2018)

 

 

justos

18.11.20

Há cerca de 22 mil pessoas no mundo que são reconhecidas como Justos Entre as Nações, mas diplomatas são menos de cem. Atualmente, há quatro portugueses nessa lista: o padre Joaquim Carreira, o embaixador Sampaio Garrido, José Brito Mendes e Aristides de Sousa Mendes. São heróis que devem ser conhecidos e estudados em todas as escolas. Mas há outros Justos estrangeiros que merecem ser conhecidos: o cônsul japonês Sugihara, que também desobedeceu ao seu governo em 1940 e, como Aristides, passou vistos a milhares de refugiados na Lituânia; Giorgio Perlasca, italiano, fez-se passar por diplomata espanhol para "falsificar" documentos, salvando muitos refugiados; Giovanni Roncalli (que veio a ser o Papa João XXIII, em 1958) "falsificou" certificados católicos de batismo para salvar judeus; e Georg Duckwitz, adido na embaixada alemã em Copenhaga, que soube dos planos nazis de deportação para a população judaica dinamarquesa - conseguiu avisar as comunidades e ajudou milhares de pessoas a fugir para a Suécia, salvando-as assim da morte certa [...]

Para salvar inocentes da morte, todos os meios são justos, e nenhum destes homens cometeu crimes ao fazê-lo, contrariamente ao que certos indivíduos extremistas escreveram em Portugal. A medalha dos "Justos" do Yad Vashem tem inscrito: «Quem salva uma vida, salva a humanidade.» Por vezes, a tradução varia, o que origina diferentes versões, mas a ideia é que cada pessoa contém em si todos os elementos do universo, todo o bem e todo o mal e, como está escrito nos livros santos, o «homem é feito à imagem e semelhança de Deus». 

 

António Moncada S. Mendes – Aristides de Sousa Mendes, Memórias de Um Neto
Edições Saída de Emergência e António Moncada S. Mendes  (2017)

 

 

pessoal e intransmissível

17.10.19

É que muito antes das portas se terem aberto para deixar entrar o grande público, já António Variações passara estes umbrais e descobrira o seu único, pessoal e intransmissível caminho.

Daí a sua singularidade. Daí a sua universalidade. 

 

 

Manuela Gonzaga – António Variações, Entre Braga e Nova Iorque (2018)
Manuela Gonzaga e Bertrand Editora (2018) 

 

 

 

 

galáxia espiral barrada

10.10.19

« O álcool é uma molécula rara na natureza. Além da sua produção pelas leveduras, a síntese alcoólica está limitada à germinação de sementes e alguns tipos de bactérias. Essas bactérias tendem a gerar maus sabores - que podem estragar a cerveja e a sidra -, mas, para gáudio dos cervejeiros, dificilmente competem com as leveduras. O álcool também é produzido sem intervenção biológica, em nuvens interestelares. A maior destas nuvens moleculares próxima do centro da Via Láctea chama-se Sagitário B2, e contém álcool suficiente para encher 1028 garrafas de vodca, que, curiosamente, pesariam cinco vezes mais do que todos os planetas do Sistema Solar» (Nicholas P. Money, The Rise of Yeast - How the Sugar Fungus Shaped Civilization). 

Quando falamos em 100 000 000 000 000 000 000 000 000 000 garrafas de vodca, só em uma das nuvens moleculares da Via Láctea, já não nos parece tão pouco (tenho amigos que discordariam, mas não serão a maioria). São restos, mas, de certo ângulo, causam a sua impressão. Talvez o «lácteo» da nossa galáxia não seja o baptismo mais apropriado. 

 

Afonso Cruz_ O macaco bêbedo foi à ópera - Da embriaguez à civilização (2019)
Fundação Francisco Manuel dos Santos e Afonso Cruz (2019)

 

terno abrasivo

01.10.19

Bastou uma pequena água

para que o Universo inteiro vestisse

a tua cinza perturbada delirante pelos rituais

da saliva e da pele. E o nosso sangue queimava

terno abrasivo. 

 

Paulo da Costa Domingos in CAMPO DE TÍLIAS

 

 

Paulo da Costa Domingos – Carmina (1971-1994)
Antígona (1995)