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Nariz de cera

anotações e apontamentos que dizem tudo - de, por e para mim - por si mesmos.

anotações e apontamentos que dizem tudo - de, por e para mim - por si mesmos.

Nariz de cera

08
Jun22

r€fugiados, solidari€dad€, irmandad€, frat€rnidad€, €€€€,

Cecília

Não me trate como uma ignorante. Pode-se ser inocente sem se ser ignorante.

 

Agustina Bessa-Luís – Fanny Owen (1979)

Colecção Mil Folhas / Bibliotex SL / M.E.D.I.A.S.A.T. e Promoway Portugal Ltda (2002)

 

 

21
Abr22

saudades das vibes

Cecília

Imagine que é convidado a responder à seguinte pergunta: «Em que medida considera que as pessoas negras e as pessoas brancas em Portugal são muito diferentes, diferentes, semelhantes ou muito semelhantes no que se refere aos valores que ensinam aos filhos?» Imagine que seguidamente teria de responder à mesma questão, agora relativamente ao grau de preocupação que brancos e negros têm com o bem-estar das famílias, a religião, a educação das crianças, os comportamentos sexuais, etc. Esta questão foi objeto de estudo numa pesquisa, já citada, realizada nos anos 90, no quadro do Eurobarómetro. Os resultados mostraram que, quanto mais os respondentes acentuavam as diferenças culturais entre os cidadãos dos países inquiridos e os imigrantes de países não-europeus, considerando-os culturalmente muito diferentes, mais manifestavam racismo biológico e mais consideravam que os imigrantes - por exemplo, pessoas negras no caso de Portugal - eram incapazes de se adaptar à sociedade de acolhimento [...] à primeira vista acentuar ou exagerar as diferenças culturais não pareceria estar relacionado com racismo tradicional e discriminação. Contudo, os resultados são claros e têm mostrado consistência ao longo de 30 anos de pesquisa. A preocupação de Lévi-Strauss tinha razão de ser: a associação subtil entre diferença e inferioridade é prova disso.

 

Jorge Vala  – Racismo, Hoje, Portugal em Contexto Europeu (2021)

Fundação Francisco Manuel dos Santos, Jorge Vala (2021)

 

 

16
Mar22

à deux pas de chez nous

Cecília

Nessa altura soube que não me tinha enganado [...] não era um marginal nem um assassino, era uma pessoa que tinha saído da vida. 

 

Marguerite Duras – Olhos Azuis, Cabelo Preto (1986)

Colecção Mil Folhas / Bibliotex SL / M.E.D.I.A.S.A.T. e Promoway Portugal Ltda (2002)

 

La concierge me dit qu'ils ne sont bons à rien
Qu'ils n'ont pas les manières de chrétiens
Qu'ils respirent notre air et mangent notre pain
À deux pas de chez moi allez voir mes voisins
C'est vrai que nos grands-pères étaient des gens de bien
Qu'ils avaient des manières de chrétiens
Quand ils ont pris la terre d'Afrique aux Africains
À deux pas de chez moi allez voir mes voisins

 

 

17
Fev22

disfunções

Cecília

Os fatores relativos ao nosso funcionamento cognitivo, embora muito importantes, não são, porém, suficientes para explicar a dinâmica dos estereótipos [...] é importante sublinhar que os estereótipos podem mudar de acordo com mudanças no padrão de relações entre grupos. Quando os grupos entram em competição por recursos, os estereótipos mútuos tornam-se sobretudo negativos; porém, logo que os mesmos grupos são envolvidos em relações de cooperação para a sobrevivência mútua, esses estereótipos tornam-se positivos [....]

Da mesma forma, sempre que na União Europeia se verificam crises associadas à gestão de recursos comuns, como a crise do Euro em 2010 ou a crise de 2020 associada à COVID-19, ressurge a categorização dos países europeus em países do Norte vs. países do Sul, envolvendo cada categoria um número variável de nações, mas sempre acompanhada dos mesmos estereótipos ou imagens, mobilizados para justificar medidas ou a ausência delas: o Norte representado como «formiga» e o Sul como «cigarra» e, mais recentemente, «os frugais» contra os «gastadores».

Estas dinâmicas e mesmo mudanças nos estereótipos e na sua valência mostram como estes refletem a natureza mais competitiva ou mais colaborativa das relações entre os grupos e as motivações associadas a essas relações. A instabilidade destas imagens estereotípicas contradiz a perceção que temos de que os traços estereotípicos de um grupo refletem o que esse grupo é, e não o que pensamos sobre ele [...]

 

Jorge Vala – Racismo, Hoje, Portugal em Contexto Europeu (2021)

Fundação Francisco Manuel dos Santos, Jorge Vala (2021)

 

The Future of Europe

Spiros Derveniotis

 

11
Fev22

desiludida falta de caráter

Cecília

Observei com uma clareza desiludida a falta de identidade da rua; as suas varandas e cortinas; as roupas castanhas, a cupidez e a complacência das mulheres que trabalhavam nas lojas; os velhos passeando com as suas roupas de lã; a forma cautelosa como as pessoas atravessavam a rua; a determinação universal de se continuar a viver quando a verdade é que, seus idiotas, uma qualquer telha vos podia cair em cima e este ou aquele carro galgar o passeio 

 

Virginia Woolf – As Ondas (1931)

Colecção Mil Folhas / Bibliotex SL / M.E.D.I.A.S.A.T. e Promoway Portugal Ltda (2002)

 

 

21
Dez21

livramentos

Cecília

Ele vê todas as coisas com os contornos desmaiados [...]  Não posso expor a minha paixão absurda e violenta à sua simpatia compreensiva [...] Preciso de alguém cuja mente caia como um machado no seu cepo; para quem o cúmulo do absurdo seja sublime, e considere um simples atacador como algo digno de admiração. A quem poderei desvandar a urgência da minha paixão? O Louis é demasiado frio, demasiado universal. Não há ninguém aqui - entre estas arcadas cinzentas, estes tolos que se lamentam, estes jogos e animadas tradições, tudo organizado com grande mestria para que não nos sintamos sós.

 

Virginia Woolf – As Ondas (1931)

Colecção Mil Folhas / Bibliotex SL / M.E.D.I.A.S.A.T. e Promoway Portugal Ltda (2002)

 

créditos imagem https://www.eagence.com.br/blog/entenda-como-marcas-famosas-utilizam-a-psicologia-das-cores/

 

06
Jul21

compaixão €€€€€€€xpr€€€€€€€ssssss

Cecília

O tempo passava, e Aristides não perdia a esperança de que melhores dias viessem, apesar do seu estado de saúde deteriorado, pelo derrame cerebral e pela situação absurda em que se encontrava. Houve quem lhe sugerisse que se dirigisse a um influente amigo de Salazar - António Cerejeira, o cardeal-patriarca. Sempre otimista, o meu avô assim fez. Finalmente, obteve uma resposta: «Que se dirigisse a Fátima e aí rezasse pela intercessão de Nossa Senhora.»

 

António Moncada S. Mendes – Aristides de Sousa Mendes, Memórias de Um Neto
Edições Saída de Emergência e António Moncada S. Mendes  (2017)

 

 

 

09
Jun21

uma questão de ego

Cecília

Que mais podemos esperar encontrar neste romance? Um trabalhador em conflito constante com os seus patrões. Um pobre homem que procura incessantemente o consolo na bebida, que precisa de um emprego mas que foge dele. Um homem mais inteligente e sensível do que aqueles que olham para ele de cima [...]

Alguém disposto a travar uma batalha perdida contra as autoridades, na defesa dos seus direitos, da sua honra e do que resta da sua dignidade. Um homem que anseia por uma vida mais simples, mais confortável, mais bela, mas que rapidamente parece destruir todas estas possibilidades. Um aspirante a escritor que carrega a sua cruz com outros bons homens no local de trabalho, homens com os seus próprios sonhos impossíveis e quixotescos [...]

 

Charles Bukowski – Correios (1971)

Antígona (2015)

 

 

07
Jun21

redor

Cecília

Na entrada do prédio dela havia um aviso:

NÃO É PERMITIDO FAZER BARULHO OU QUALQUER TIPO DE DISTÚRBIO, AS TELEVISÕES DEVEM SER DESLIGADAS ÀS DEZ DA NOITE. HÁ AQUI PESSOAS QUE TRABALHAM.

Era um aviso grande, pintado a vermelho.

- Agrada-me aquela parte das televisões - disse-lhe eu. 

 

Charles Bukowski – Correios (1971)

Antígona (2015)

 

 

20
Mai21

engarrafados

Cecília

Bordéus, que em tempos de paz tinha cerca de 200 mil habitantes, até 15 de junho iria contar com mais de um milhão de habitantes. Como acolhê-los, onde se refugiariam eles?

Em 1940, as pessoas não tinham máquinas fotográficas como hoje. Se não há registos de imagem suficientes desses dias negros, há, no entanto, uma gravura que ilustra melhor que tudo o que foi a entrada em Bordéus, em meados de junho de 1940, pela Pont de Pierre. Essa visão catastrófica ficou, sem dúvida, gravada nas mentes de Aristides e Angelina, tal como ficou gravada na mente do pintor e gravador Charles Philippe, o artista que a celebrizou dois anos mais tarde numa gravura que faz parte dos Arquivos Municipais de Bordéus [...] e das janelas do consulado de Portugal viam-se facilmente os autocarros, as ambulâncias, as centenas de automóveis particulares e os milhares de pessoas "engarrafados" nesta entrada de Bordéus, à mercê de um eventual ataque aéreo. 

 

António Moncada S. Mendes – Aristides de Sousa Mendes, Memórias de Um Neto
Edições Saída de Emergência e António Moncada S. Mendes (2017)

 

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L’exode juin 1940

Charles Philippe

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https://laultimahora.es/la-avalancha-de-odio-contra-la-voluntaria-que-consolo-a-un-migrante-en-ceuta-provoca-que-cierre-sus-redes-sociales/

 

 

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