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Nariz de cera

anotações e apontamentos que dizem tudo - de, por e para mim - por si mesmos.

Nariz de cera

anotações e apontamentos que dizem tudo - de, por e para mim - por si mesmos.

dá para explicar


Cecília

18
Jul18

Assírios, caldeus, egípcios e outros infiéis liquidaram o antigo Império de Salomão, criado para grande glória de Deus. Dele restaram, como sugestiva legenda turística, os conhecidos jeremíadas, ou sejam as cartas ao Director do «Diário Popular», que o profeta Jeremias escreveu sentado nas ruínas da desditosa Sion (67).

 

(67) As causas da queda do reino de Salomão não foram ainda completamente determinadas. Tendo sido então nomeada uma comissão de inquérito, para averiguar os verdadeiros culpados e indemnizar as vítimas, até hoje não se chegou a qualquer conclusão e o caso (como o de todos os inquéritos) tende a cair no esquecimento. 

 

 

 

Vilhena – História Universal da Pulhice Humana (1960/1961/1965)
Edição Completa, Integral e Nunca Censurada dos Três Volumes Originais Pré-História / O Egipto / Os Judeus

Herdeiros de José Vilhena / SPA 2015, E-Primatur (2016)

 

 

 

 

fado ferrari


Cecília

26
Jun18

Não tendo ainda descoberto a América e não podendo portanto receber auxílio do Plano Marshal, a extremidade ibérica deste nosso mundo ocidental atravessava então momentos difíceis. Sem indústria pesada, sem divisas da área do dólar, a contas com a inflação e com o maior cardume de tubarões de que reza a história, a sua economia não se mostrava à altura das circunstâncias. Os metálicos filões que haviam dado o nome às Idades do Cobre, do Bronze e do Ferro, tinham desaparecido uns atrás dos outros; e nem a agricultura nem o turismo, nem as comemorações dos centenários desses mesmos filões, despertavam o interesse dos indígenas (...) Nem tudo porém era mau, como estas linhas podem fazer crer. Graças a uma política firme e inteligente, que durou longos anos, foi possível equilibrar a subida dos custos com uma substancial descida do nível de vida e, desta forma, salvaguardar a cultura e a civilização do Ocidente. 

O resto do Mundo encontrava-se em pleno estado selvagem e não merece que se perca tempo a descrevê-lo. Teria, aliás, de esperar muitos séculos até que, por mares nunca dantes navegados, levássemos até ele, graças ao nosso espírito desinteressadamente civilizador, os missionários, o fado e o hóquei em patins. 

 

 

Vilhena – História Universal da Pulhice Humana (1960/1961/1965)
Edição Completa, Integral e Nunca Censurada dos Três Volumes Originais Pré-História / O Egipto / Os Judeus

Herdeiros de José Vilhena / SPA 2015, E-Primatur (2016)

 

 

 

o zen e a imaginação suplementar


Cecília

14
Jun18

Trata-se de um dos monumentos mais famosos da civilização japonesa, o jardim de rochas e areia do templo Ryoanji de Kyoto, a típica imagem da contemplação do absoluto que se alcança com os meios mais simples e sem recorrer a conceitos exprimíveis por palavras, segundo os ensinamentos dos monges Zen, a seita mais espiritual do budismo (...) Ao longo do quarto lado está um estrado de madeira com degraus onde o público pode passar e parar e sentar-se. «Se o nosso olhar interior permanecer absorto na visão deste jardim - explica o prospecto que é oferecido aos visitantes, em japonês e em inglês, assinado pelo abade do templo - sentir-nos-emos despidos da relatividade do nosso eu individual, ao mesmo tempo que a intuição do Eu absoluto nos encherá de serena surpresa, purificando as nossas mentes ofuscadas.»

O senhor Palomar está disposto a seguir estes conselhos com confiança e senta-se nos degraus, observa as rochas uma por uma, segue as ondulações sobre a areia branca, deixa que a harmonia indefinível que liga os elementos do quadro o vá invadindo a pouco e pouco. 

Ou seja: procura imaginar todas estas coisas tal como as sentirá alguém que pudesse concentrar-se na contemplação do jardim Zen em solidão e silêncio. Porque - tinhamo-nos esquecido de o dizer - o senhor Palomar está comprimido sobre o estrado, no meio de centenas de visitantes que o empurram de todos os lados, objectivas de câmaras fotográficas e de máquinas de filmar que abrem caminho por entre cotovelos, joelhos e orelhas da multidão, enquadrando as rochas e a areia de todos os ângulos possíveis, iluminados pela luz natural ou pelos flash (...) proles numerosas são empurradas para a primeira fila por pais com espírito pedagógico, bandos de estudantes, em uniforme, empurram-se, ansiosos por digerir o mais depressa possível a visita escolástica ao monumento famoso; visitantes diligentes verificam, com o vaivém rítmico da cabeça, se tudo aquilo que está escrito no guia turístico corresponde à realidade e se tudo aquilo que se vê na realidade está escrito no guia (...) 

Estas «instruções de utilização» estão contidas no prospecto e parecem ao senhor Palomar perfeitamente plausíveis e imediatamente aplicáveis, sem esforço, desde que se esteja deveras seguro de ter uma individualidade que se possa despir e de estar a olhar o mundo do interior de um eu que se possa dissolver, tornando-se apenas olhar. Mas é exactamente este ponto de partida que exige um esforço de imaginação suplementar, dificílimo de efectuar quando o nosso próprio eu é aglutinado por uma multidão compacta, que olha através dos seus mil olhos e percorre sobre os seus mil pés o itinerário obrigatório da visita turística. 

Conclui-se portanto que as técnicas mentais Zen, destinadas a alcançar o limite extremo da humildade, a distanciação em relação a qualquer forma de posse e orgulho, têm necessariamente como base o privilégio aristocrático, pressupondo o individualismo, com muito espaço e muito tempo à volta de cada um. 

 

 

Italo Calvino  - Palomar (1983)

Planeta DeAgostini (2001)

 

 

 

a problemática do arrendamento - e da habitação em geral


Cecília

10
Mai18

Embora as ruínas das velhas cidades já não sirvam para nos elucidar sobre a qualidade e o aspecto das casas, os papiros falam-nos detalhadamente dos tormentos porque passava um egípcio de terceira classe para conseguir alugar (...) três assoalhadas no sexto esquerdo, sem elevador nem luz na escada. Quando adregava de encontrar uma dessas raras construções (...) com a curiosa designação de rendas limitadas (!) tinham que satisfazer as ilimitadas exigências do senhorio (...) Depois ia muito satisfeito instalar-se no corredor da casa, visto que os três compartimentos assoalhados eram subalugados a outras tantas famílias.

 

 

 

Vilhena – História Universal da Pulhice Humana (1960/1961/1965)
Edição Completa, Integral e Nunca Censurada dos Três Volumes Originais Pré-História / O Egipto / Os Judeus

Herdeiros de José Vilhena / SPA 2015, E-Primatur (2016)

 

 

 

o porto é lindo


Cecília

25
Jan17

Os detalhes evitam o stress. Isto nunca foi dito desta maneira, mas está escrito em páginas de muitos autores (...). 

O coração do Porto não se deixa conhecer. É silencioso quando julgamos que palpita. Não bate de maneira certa. Só quando a morte está perto é que o coração abranda (...). O Porto é difícil de retratar (...) o Porto (...) nos seus detalhes, aqueles que evitam a depressão, a languidez e a morte. Não se morre no Porto, muda-se de casa, de investimento, que é a vida de cada um. 

 

Agustina Bessa-Luís in Espírito do Porto - Aguarelas de Vasco d'Orey Bobone 

 

 

 

 in http://www.jornaleconomico.sapo.pt/noticias/porto-lindo-drone-diz-sim-115038