Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Nariz de cera

anotações e apontamentos que dizem tudo - de, por e para mim - por si mesmos.

Nariz de cera

anotações e apontamentos que dizem tudo - de, por e para mim - por si mesmos.

quando o tempo passa (para alguns)

Cecília, 16.03.20

a alcatifa a pedir perdão de ser tão feia e um abajur de pergaminho semelhante a uma boina basca a tapar a orelha esquerda da lâmpada 

 

António Lobo Antunes – A Última Porta Antes da Noite (2018)

Publicações Dom Quixote (2018)

 

 

 

gosto pelo medieval

Cecília, 18.12.19

As visões românticas da Europa medieval omitem os requintados instrumentos de tortura e ignoram candidamente a taxa de homicídio de então, trinta vezes superior à actual. Os séculos pelos quais sentimos nostalgia eram tempos em que a mulher de um adúltero podia ver o nariz amputado, uma criança de sete anos podia ser enforcada por roubar um saiote, a família de um prisioneiro teria de pagar pelos seus grilhões, uma bruxa podia ser serrada ao meio e um marinheiro açoitado até ficar em carne viva. 

 

Afonso Cruz_ O macaco bêbedo foi à ópera - Da embriaguez à civilização (2019)
Fundação Francisco Manuel dos Santos e Afonso Cruz (2019)

 

 

 

(sweet) combustível da anarquia

Cecília, 13.08.19

Defronte de mim o meu amigo, o banqueiro, grande comerciante e açambarcador notável, fumava como quem não pensa (...) Voltei-me para ele, sorrindo. 

-- É verdade: disseram-me há dias que você em tempos foi anarquista...

-- Fui, não: fui e sou. Não mudei a esse respeito. Sou anarquista. 

-- Essa é boa! Você anarquista! Em que é que você é anarquista?... Só se você dá à palavra qualquer sentido diferente...

-- Do vulgar? Não; não dou. Emprego a palavra no sentido vulgar. 

-- Quer você dizer, então, que é anarquista exactamente no mesmo sentido em que são anarquistas esses tipos das organizações operárias? Então entre você e esses tipos da bomba e dos sindicatos não há diferença nenhuma?

-- Diferença, diferença, há... Evidentemente que há diferença. Mas não é a que você julga (...) Você comparou-me a esses parvos dos sindicatos e das bombas para indicar que sou diferente deles. Sou, mas a diferença é esta: eles (sim, eles e não eu) são anarquistas só na teoria; eu sou-o na teoria e na prática (...) Ia eu dizendo que, como era lúcido por natureza, me tornei anarquista consciente. Ora o que é um anarquista? É um revoltado contra a injustiça de narcermos desiguais socialmente  - no fundo é só isto. (...) Ora, na altura da nossa propaganda em que lhe estou falando, descobri uma coisa. No grupo de propaganda - não éramos muitos; éramos uns quarenta, salvo erro - dava-se este caso: criava-se tirania. (...)

Uns mandavam em outros e levavam-nos para onde queriam; uns impunham-se a outros e obrigavam-nos a ser o que eles queriam; uns arrastavam outros por manhas e por artes para onde eles queriam. Não digo que fizessem isto em coisas graves; mesmo, não havia coisas graves ali em que o fizessem. Mas o facto é que isto acontecia sempre e todos os dias, e dava-se não só em assuntos relacionados com a propaganda, como fora deles, em assuntos vulgares da vida. Uns iam insensivelmente para chefes, outros insensivelmente para subordinados (...) E repare que se passava num grupo de gente que se unira para especialmente para fazer o que pudesse para o fim anarquista - isto é, para combater, tanto quanto possível, as ficções sociais, e criar, tanto quanto possível, a liberdade futura (...) Agora ponha o caso num grupo muito maior, muito mais influente (...) Então é que eu vi com que bestas e com que covardões estava metido! (...) Aquela corja tinha nascido para escravos. Queriam ser anarquistas à custa alheia. Queriam a liberdade, logo que fossem os outros que lha arranjassem, logo que lhes fosse dada como um rei dá um título!

 

Fernando Pessoa - O Banqueiro Anarquista (1922)

Antígona (2018)

 

 

 

 

Cecília, 06.08.19

Que fizeram à mulher e ao homem de antes do cancro e da

                                                                                              [neurose?

Que é feito da roleta sideral? Da areia? Do tacto?

 

Paulo da Costa Domingos in Cabra-cega

 

Paulo da Costa Domingos - Carmina (1971-1994)

Antígona (1995)

 

 

 

foi a cerveja

Cecília, 08.08.18

Na mesa junto à janela virada para Poente, ensaia-se uma Última Ceia: a companhia de teatro arranjou doze apóstolos e um Cristo (...) De repente, a meio de uma dança, Borja caminha para a mesa onde se desenrola a Última Ceia e manda retirar o vinho, pois é um erro histórico. O Cristo está impávido, mas São João acha que não faz sentido e afasta o seu copo do alcance do professor, que começa a discursar:

- Ninguém sabe, caros Jesus Cristo e seus apóstolos, por que razão o homem se sedentarizou, já que está provado que ser nómada dá muito menos trabalho. Então porque sucedeu essa mudança radical? Muito simples, vou explicar-vos, queridos apóstolos e Nosso Senhor: foi a cerveja. Para ter cerveja era preciso cultivar. E assim nasceu a sociedade como a conhecemos. Graças à cerveja, temos hospitais e bibliotecas. Não existiriam livros se não fosse a cerveja. Não existiriam escritores nem ciência. Os nómadas não têm prisões nem conhecem o castigo, mas por outros lado não têm bibliotecas. Os nómadas não têm nada disto, porque andam de um lado para o outro e as prisões não podem ser transportadas, tal como as tipografias e os hospitais e as livrarias. E tudo isso se deve ao facto de alguns povos terem querido beber cerveja e, para isso, precisarem de se sedentarizar. No tempo de Cristo, no vosso tempo, andavam todos a beber cerveja. Na verdade, as bebidas alcoólicas confundiam-se entre si, pois era normal juntar frutos a bebidas de cereais e cereais a bebidas de frutos. Mas o que é certo é que o Egipto tinha inúmeras cervejeiras e exportava grandes quantidades para a Palestina. O que se bebia no espaço geográfico em que Cristo habitava era cerveja. O vinho era uma bebida de romanos, dos invasores. Cristo não iria beber a bebida dos ricos, dos opressores (...) mas a dos pobres, das putas e dos pecadores. Isso é que era a cerveja, um símbolo do povo. Jesus Cristo bebia cerveja, que sempre foi chamada de pão líquido, pois é verdadeiramente pão com água. 

 

 

Afonso Cruz - Jesus Cristo Bebia Cerveja (2012)

Penguin Random House (2016)

 

 

 

 

todos, mais o tempo

Cecília, 08.08.18

Agora plantam-nos os campos de oliveiras espanholas regadas gota a gota, como as mulheres finas. Dantes era sequeiro. Dizem-nos para poupar no banho e depois regam as oliveiras, que nunca foram regadas desde que Deus criou o mundo. Nós não nos podemos molhar, mas as putas das árvores podem encharcar-se como peixes. E depois temperamos os tomates com aquele azeite aguado, que é o que aquelas oliveiras dão, de tanta água que bebem. Dizem que é a competitividade. Mas um gajo quer competir em quantidade ou qualidade? Eles que produzam mundos aguados que nós ficamos com os frutos a saber a suor e a sangue e a terra. Que se fodam todos, mais o tempo, mais o século. 

 

 

Afonso Cruz - Jesus Cristo Bebia Cerveja (2012)

Penguin Random House (2016)

fado ferrari

Cecília, 26.06.18

Não tendo ainda descoberto a América e não podendo portanto receber auxílio do Plano Marshal, a extremidade ibérica deste nosso mundo ocidental atravessava então momentos difíceis. Sem indústria pesada, sem divisas da área do dólar, a contas com a inflação e com o maior cardume de tubarões de que reza a história, a sua economia não se mostrava à altura das circunstâncias. Os metálicos filões que haviam dado o nome às Idades do Cobre, do Bronze e do Ferro, tinham desaparecido uns atrás dos outros; e nem a agricultura nem o turismo, nem as comemorações dos centenários desses mesmos filões, despertavam o interesse dos indígenas (...) Nem tudo porém era mau, como estas linhas podem fazer crer. Graças a uma política firme e inteligente, que durou longos anos, foi possível equilibrar a subida dos custos com uma substancial descida do nível de vida e, desta forma, salvaguardar a cultura e a civilização do Ocidente. 

O resto do Mundo encontrava-se em pleno estado selvagem e não merece que se perca tempo a descrevê-lo. Teria, aliás, de esperar muitos séculos até que, por mares nunca dantes navegados, levássemos até ele, graças ao nosso espírito desinteressadamente civilizador, os missionários, o fado e o hóquei em patins. 

 

 

Vilhena – História Universal da Pulhice Humana (1960/1961/1965)
Edição Completa, Integral e Nunca Censurada dos Três Volumes Originais Pré-História / O Egipto / Os Judeus

Herdeiros de José Vilhena / SPA 2015, E-Primatur (2016)