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Nariz de cera

anotações e apontamentos que dizem tudo - de, por e para mim - por si mesmos.

Nariz de cera

anotações e apontamentos que dizem tudo - de, por e para mim - por si mesmos.

conversa com poucos

06.05.21

Facilmente, passa-se do hedonismo à arrogância com que cada um vive e respira o ar do tempo:

- Havia aquela tontice de todos se acharem únicos, inimitáveis, importantíssimos, excelentes, de modo que só estavam aqui para ditar leis, - recorda Teresa Couto Pinto, que acrescenta: - Na verdade, éramos todos um pouco críticos e com certa intolerância. O António não, embora a seu modo também fosse elitista e seletivo. Costumava dizer: aceito toda a gente, mas isso não significa que tenham de vir todos à minha casa. Ou que tenha de ir beber copos com eles, porque não há paciência para lhes aturar a conversa. 

 

Manuela Gonzaga – António Variações, Entre Braga e Nova Iorque (2018)
Manuela Gonzaga e Bertrand Editora (2018)

 

 

 

ego sum luto

05.05.21

 

Estrela, sim, estrela de argila

em núpcias consigo e com o mundo. 

 

António Ramos Rosa in MEDIADORA DO CORPO - Obra Poética I

Assírio & Alvim (2018)

 

 

imperatriz mim

30.04.21

 

No centro do tempo não há tempo

[...]

Sou uma linguagem límpida com o vento 

[...]

Como me perdi quem sou as interrogações cessaram

[...]

Tudo se desenrola na lúcida amplitude tranquila 

 

António Ramos Rosa in  NO CENTRO DO MUNDO - Obra Poética I

Assírio & Alvim (2018)

 

 

há quem

28.04.21

 

Há quem procure sob abóbadas e abóbadas

um reflexo de sol

[...]

Há quem procure na trama da distância 

[...]

Há quem julgue que já não há tempo para reflectir 

[...]

há quem se decida a não esperar a não ouvir a não chamar 

 

 

António Ramos Rosa in   HÁ QUEM PROCURE - Obra Poética I

Assírio & Alvim (2018)

 

 

espaços do tempo

31.03.21

 

e uns caem separados na distância

 

 

António Ramos Rosa in  O INCERTO EXACTO  - Obra Poética I

Assírio & Alvim (2018)

 

 

 

sair

24.03.21

Quase ao mesmo tempo em que surge o "caso Wiznitzer" aparece outro que vai aumentar as queixas contra Aristides de Sousa Mendes por parte das autoridades nacionais - da PVDE e do MNE. O "caso Eduardo Neira Laporte" [...] um "indesejável" para a PVDE. No caso de Neira Laporte havia uma componente política que afetava o regime salazarista. Desde o início da Guerra Civil de Espanha, em 1936, que havia uma colaboração do salazarismo com o franquismo, em que a polícia portuguesa detinha e entregava à polícia espanhola muitos "refugiados vermelhos", que acabariam por ser fuzilados. Laporte tinha sido um resistente ao franquismo, e para a PVDE já tinha destino marcado - não iria muito longe. 

No entanto, «o cônsul rebelde», que via nele apenas um professor da Universidade de Barcelona com excelentes referências das autoridades francesas e já com passagem de barco de Lisboa para a Colômbia, envia a 3 de fevereiro de 1940, ao Ministério português dos Negócios Estrangeiros, um pedido de autorização para visar o seu passaporte. A 11 de março, o MNE, com a sua habitual lentidão (para ganhar tempo), envia a recusa para o cônsul, mas no dia a seguir, a 12 de março, Laporte chega a Lisboa com visto assinado por Aristides, que entende que em tempos de guerra, mesmo que seja uma drôle de guerre, não devem fazer-se esperar seres humanos. Sincronização certa. Ficava a questão para o regime: o que fazer com Eduardo Neira Laporte? 

[...]

as últimas notícias que se souberam na época, foi que conseguiu também sair daquela Europa enlouquecida, e terá ido mesmo para a Colômbia, exercer o ensino da medicina. 

 

António Moncada S. Mendes – Aristides de Sousa Mendes, Memórias de Um Neto
Edições Saída de Emergência e António Moncada S. Mendes  (2017)

 

 

luta

18.03.21

A sensação de ter escapado por pouco voltaria a abater-se sobre Filipa cinco dias depois de estar internada. Tal como terá acontecido a Gonçalo, a jovem diz que não foi entubada na noite do acidente. «Dei entrada na Urgência, fui para a área de Queimados só para tratarem as queimaduras. Não foi feito um raio-X aos pulmões, nada. Uma noite comecei a sentir-me mal, tinha tosse, dificuldade em respirar. Já estava há cinco dias internada, e foi só nessa altura que me puseram em coma e entubaram. As oximetrias [valor do oxigénio no sangue] davam valores de 30, quando abaixo dos 60 já é muito grave, mas o médico duvidava, porque eu tinha falado todos os dias», conta a jovem. «Só me lembro de a enfermeira dizer: "Deus queira que a menina escape", porque fui entubada ainda meio sedada; senti porem-me o dreno, senti tudo porque nem deu tempo de deixar a anestesia fazer efeito. Eu ouvia o médico dizer "Tem de ser agora", a médica a hesitar, porque nunca o tinha feito, que estava com medo de o fazer, que, se não fizesse certo, eu morria ali, e eu só chorava e não conseguia dizer nada. Entretanto apaguei, e passados cinco dias comecei a ouvir as pessoas a falar na rua. Uma enfermeira com quem ainda hoje falo diz que foi um milagre, porque não havia nada a agarrar-me, se eu própria não tivesse algo que me segurasse. Eu não quis morrer. Fugi das chamas, porque não quis morrer ali, porque ainda tenho coisas para fazer, e naquela noite eu também não quis morrer, e a enfermeira disse: "Notou-se, notou-se que tu não quiseste morrer, porque, no estado em que estavas, a ouvir-nos, enquanto estavas a ser tratada..."».

Os dois entreolham-se para regressar a Gonçalo. Estão convictos de que algo do género lhe terá causado a morte. «O que aconteceu a ela foi o que aconteceu ao Gonçalo. Ela aguentou-se porque era saudável, não tinha problemas e é mais nova. O Gonçalo já não foi a tempo», diz o chefe Tomé. 

 

Patrícia Carvalho – Ainda aqui estou (2018)

Fundação Francisco Manuel dos Santos e Patrícia Carvalho (2018)

 

 

fim flash

15.03.21

Ele já com a marca da queimadura, a gritar [...] O Gonçalo vem na minha direcção e eu pergunto-lhe: " Ó Gonçalo, o que é que vos aconteceu?" Ele olha para mim e aquele olhar disse-me tudo. Não me deu uma palavra, mas o olhar disse-me tudo. Não me deu uma palavra, mas o olhar disse-me tudo. Corro para a ambulância e é onde o vejo a ele, todo encharcadinho de água. A cara dele era uma bolha só. Uma coisa horrível. Estava deitado sobre o lado esquerdo, com as mãos traçadas e a pele toda pendurada. Foi daqueles momentos que nos passa a vida em flash [...]

Ajoelhada junto ao marido, ele pede-lhe que olhe por um irmão, deficiente, que vive com a família. «Ele disse-me, muito baixinho: "Olha pelo Chico, que eu não volto mais a casa."

 

Patrícia Carvalho – Ainda aqui estou (2018)

Fundação Francisco Manuel dos Santos e Patrícia Carvalho (2018)

 

 

exemplos que não passam

05.03.21

Mas o tempo passa. Tomé já sabe andar de novo. Consegue dobrar os dedos das mãos. Filipa chora de dores na fisioterapia, mas não desiste e insiste tanto quanto lhe dizem para insistir, para recuperar o mais rápido possível. Em Abril de 2018, os dois ainda não tinham concluído o processo que lhes permitirá receber uma indemnização, mas Tomé encara os 15 mil euros que lhs deverão estar destinados com desânimo. «As indemnizações deviam começar pelos feridos, que estão cá a lutar, que vão ficar com marcas para toda a vida, mas começaram pelos mortos«, diz.

Há alguma amargura nas palavras dos dois. Mas também ironia, quando falam daqueles que dizem «ter-se aproveitado» do incêndio. Dão como exemplo um conhecido que recebeu uma indemnização por um veículo que, supostamente, ardeu no incêndio, quando de facto o carro já só era uma carcaça inútil parada na propriedade do dono há anos. 

 

Patrícia Carvalho – Ainda aqui estou (2018)

Fundação Francisco Manuel dos Santos e Patrícia Carvalho (2018)