Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Nariz de cera

anotações e apontamentos que dizem tudo - de, por e para mim - por si mesmos.

Nariz de cera

anotações e apontamentos que dizem tudo - de, por e para mim - por si mesmos.

judeias à beira mar plantadas (ou venenos II)

Presença ausente, intratável e carinhoso, dado a explosões repentinas e a silêncios densos, mas de coração lavado. Incapaz de guardar rancores, alimentar ódios, estimular querelas. Mas cheio de uma inquestionável autoridade que o levava a confrontar até o maior dos seus amores, a própria mãe. O facto é que toda a gente o respeitava muito. Até o pai.

- Mas se tivesses de dizer alguma coisa, dizia. Não ia lavar as mãos ao rio. Uma vez virou-se para a minha mãe, e disse-lhe, você é uma beata. O que anda você a fazer na igreja? É uma beata, isso é um beatismo. 

 

Manuela Gonzaga – António Variações, Entre Braga e Nova Iorque (2018)
Manuela Gonzaga e Bertrand Editora (2018)

 

 

brilhos certos e o elogio de brilhos errados

Maria Adosinda, a cunhada, conta:

- Olhava para a minha sogra, brilhavam-lhe os olhos. Ela adorava-o e ele tinha um cuidado muito especial com ela. 

No carro, dava-lhe sempre o lugar da frente. Ajudava-a a sentar-se, a levantar-se, dava-lhe o braço na rua. Mas se via uma dessas senhoras de nariz empinado e ar importante, dizia: Olha para aquilo, parecem mesmo umas peruas. Detestava as velhas da alta sociedade, porque não via nelas a sinceridade que se vê numa pessoa do campo, pobre, humilde... então, quando lhe aparecia uma cliente a dizer, eu gosto assim, mas o António que acha?, ele faria uma coisa correta. Mas se ela entrasse toda cheia de nove horas: Ai, eu isto, eu aquilo, assim não, quero tudo armado! ele exagerava tanto que ela saía do salão a parecer uma maluquinha. Depois vinha-nos contar e fartávamo-nos de rir. 

 

Manuela Gonzaga – António Variações, Entre Braga e Nova Iorque (2018)

Manuela Gonzaga e Bertrand Editora (2018)

 

cada gota, conta

Plano nacional de combate ao racismo e à discriminação 2021-2025

 


Plano Nacional de Combate ao Racismo e à Discriminação já está disponível para consulta pública e a Federação foi uma das entidades consultadas para a elaboração do documento.

A Federação Portuguesa de Futebol contribuiu para a construção do Plano de Combate ao Racismo e à Discriminação, que foi apresentado esta sexta-feira e já está disponível para consulta pública.

O organismo que tutela o futebol nacional foi uma das entidades desportivas consultadas para elaborar o anexo 9 deste documento.

Para além da FPF, também a Liga Portugal e o Sindicato dos Jogadores Profissionais de Futebol foram ouvidos antes da conclusão deste trabalho e as três entidades enviaram uma proposta conjunta de medidas a incluir neste Plano.

O documento está organizado a partir de 4 princípios (“Destruição de estereótipos”, “Coordenação, governança integrada e territorialização”, “Intervenção integrada no combate às desigualdades” e “Intersecionalidade”) e 10 áreas de atuação: “Governação, informação e conhecimento para uma sociedade não discriminatória”, “Educação e Cultura”, “Ensino Superior”, “Trabalho e Emprego”, “Habitação”, “Saúde e Ação Social”, “Justiça, Segurança e Direitos”, “Participação e Representação”, “Desporto” e “Meios de Comunicação e o Digital”.

O Plano Nacional de Combate ao Racismo e à Discriminação, que prevê também vagas específicas na Universidade para alunos carenciados, estará disponível para consulta pública até ao próximo dia 10 de maio.

in https://www.fpf.pt/pt/News/Todas-as-not%C3%ADcias/Not%C3%ADcia/news/29192?smkid=1%3AU4UmqcSXqNc&utm_source=smarkio_email&utm_campaign=NLFPF_20210415_Racismo&utm_medium=email

 

 

a pão e vacinas (mas sem água...)

Quando os voluntários de Esposende se puseram a caminho, no domingo, 2 de julho, já sabiam que teriam à espera deles cinco jipes, que seriam os guias pela terra queimada do Centro. Tinham sido feitos mapas, e as carrinhas e carros particulares foram divididos em cinco grupos, cada um deles com um pouco de tudo o que levavam, para que nenhum dos bens faltasse em cada localidade por onde passavam. O grupo de Coimbra deu-lhes algumas instruções. Que se esforçassem para não chorar convulsivamente à frente das pessoas que iam encontrar, para tentarem controlar as emoções, porque aquelas populações estavam muito fragilizadas. E que tivessem cuidado, porque havia algumas falsas vítimas a tentar aproveitar-se da situação [...] Mas não tinham noção, diz Sílvia. Por muito que julgassem saber, não tinham noção do que os esperava. 

Primeiro, foi a paisagem. Agora, já não havia filtros do ecrã do televisor, a cor e o cheiro do queimado estavam em todo o lado [..] Depois, as pessoas. «Houve uma grande revolta, porque percebemos que, se confiássemos nas instituições, que nos diziam que já não era preciso nada, tínhamos ido de mãos a abanar. Teríamos ido dar um abraço às pessoas, um bocadinho de colo, mas não levaríamos nada. E a realidade que encontrámos foi completamente diferente. As pessoas pediam-nos água, água, que não tinham de beber. Na primeira casa pediram-nos água e eu pensei: é só aqui. Mas o pedido repetiu-se, e massacrei-me aquele dia todo, porque não me ocorreu, em pleno século XXI, que, num país desenvolvido da Europa comunitária, houvesse velhinhos sem água. 

 

Patrícia Carvalho – Ainda aqui estou (2018)

Fundação Francisco Manuel dos Santos e Patrícia Carvalho (2018)

 

 

 

velho sistema instagram

Na cidade, as propostas para mobilar as casas estão recheadas de produtos fantásticos. Frigoríficos cheios de comida pronta a ser confeccionada. Aspiradores, que permitem que a dona de casa rodopie pelo seu lar, limpando-a como quem brinca. Máquinas de lavar roupa, que evitam a canseira dos tanques onde à força de braços e mãos que esfregam, torcem, batem, na faina das barrelas domésticas, se lavam as roupas da casa. Panelas de pressão, que conseguem amaciar o mais rijo naco de carne, enquanto o diabo esfrega um olho. Na cidade, as tarefas domésticas diárias, a acreditar nos maravilhosos anúncios, são meros passatempos que lindas mulheres praticam alegremente. E toda a gente parece resplandecer de asseio. Já no campo, um luxo chama-se telefonia. Um sonho chama-se telefone. Visitas extemporâneas e de última hora... não existem. Visitas só a do padre ou a do médico. Não costumam ser bom sinal. Vizinhos? Ajudam-se, mutuamente, quando é preciso, mas ninguém entra pela casa de ninguém a pedir comida e a reclamar jantares: era só o que mais faltava. E os gestos quotidianos - varrer, limpar, cozinhar, arar os campos, pensar o gado, mondar, ceifar, enxertar as árvores, colher os frutos, apanhar caruma, acender a lareira -, são obrigações. Implicam muitas horas de trabalho esforçado, e não se pensa nelas como passatempos. Ter comida para cozinhar, isso sim, é uma alegria. Matar a fome a todos, aí está o verdadeiro prazer. 

Na cidade, famílias ostensivamente felizes têm crianças, quase sempre louras e inevitavelmente lindas, que adoram pudim Royal e «gostam e necessitam de Milo», o fortificante mágico sem o qual as suas pobres cabecinhas encaracoladas tombam de exaustão sobre imaculados cadernos e livros da escola. Mas as cabecinhas das crianças louras ou morenas dos campos, não tombam sobre cadernos e livros imaculados. Se tombarem, uma palmada do professor ou da professora fornece toda a energia de que precisam para se levantarem imediatamente. Portanto, ali o Milo não faz falta nenhuma a ninguém. Até porque o dinheiro não chega para esses luxos... finalmente, no campo, não se fala em beleza o tempo todo, nem se evocam vocábulos como elegância por dá cá aquela palha. De resto, o mais elementar sentido de decência tornaria impensável que as mulheres corressem de braços no ar ao encontro dos seus homens, quando estes chegam a casa, suados, sujos de terra, exaustos de trabalhar, para lhes servirem algo de tão insípido como um estupendo caldo Maggi. 

 

Manuela Gonzaga – António Variações, Entre Braga e Nova Iorque (2018)
Manuela Gonzaga e Bertrand Editora (2018) 

 

9983.jpg

A refeição do menino

Júlio Pomar 

 

conhecimento factual

gostaria de deixar claro que a nostalgia extremada ou o optimismo cego no progresso, e especialmente num crescimento histérico e infinito, são irracionais e que o uso da temperança e de algum conhecimento factual poderão trazer coisas boas no momento de pesar o que pode ou deve ser preservado do passado, quais as importantes conquistas do presente, e o que é desejável no futuro. 

 

Afonso Cruz_ O macaco bêbedo foi à ópera - Da embriaguez à civilização (2019)
Fundação Francisco Manuel dos Santos e Afonso Cruz (2019)

 

 

 

comportamento perigosamente seguro

Não existe meio mais seguro para fugir do mundo do que a arte, e não há forma mais segura de se unir a ele do que a arte.

 

Johann Goethe

 

 

 

arcas e caixas

Como os homens se mostrassem cada vez mais sórdidos, as mulheres mais desavergonhadas, e como aparecessem os primeiros sintomas de deliquência juvenil (É bem conhecido o caso de David, jovem «teddy-boy» que matou à fisga um venerável ancião chamado Golias) pensou-se, com exagerado optimismo, que a solução estava numa grande barrela.

Num longínquo dia de Outubro, à hora do almoço, (havendo o Serviço Meteorológico Nacional previsto tempo seco) abriram-se as celestes comportas e a água veio em tal abundância que os bombeiros registaram o maior número de chamadas de toda a sua história. Esta lavagem à escala universal destinava-se (como os leitores versados em textos sacros já perceberam) a fazer desaparecer da face da Terra a pouca vergonha, a podridão, os vícios e o genococos que então proliferavam à rédea solta. (Esquecia-se que, para lavar tais e tantas poucas vergonhas, a água, (mesmo com Tide) era insuficiente e o problema só podia ser resolvido a Napalm) [...] Só à custa da requintada imaginação dos redactores do Velho Testamento, foi possível conservar a seco, dentro de uma arca, um grande número de pessoas e animais própriamente ditos. Embora certos parágrafos bíblicos nos informem que eles foram escolhidos de entre o melhor comportados da Criação, estamos convencidos de que se tratava, sim, de indivíduos com muitas cunhas pois o ingresso na barcaça salvadora era pelo menos tão difícil como um lugar na Sacor ou na Fundação Gulbenkian. (Muitos leitores irão admirar-se como foi possível caber tanta espécie de animal dentro de uma arca. Lembrem-se, todavia, quantos hoje cabem numa caixa ainda mais pequena - de TV (...) Além disso nessa época o número de bestas era muito menos do que hoje em dia pois ainda não existia a publicidade comercial esse eficaz meio de animalização em massa). 

 

 

 

Vilhena – História Universal da Pulhice Humana (1960/1961/1965)
Edição Completa, Integral e Nunca Censurada dos Três Volumes Originais Pré-História / O Egipto / Os Judeus

Herdeiros de José Vilhena / SPA 2015, E-Primatur (2016)