Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Nariz de cera

anotações e apontamentos que dizem tudo - de, por e para mim - por si mesmos.

Nariz de cera

anotações e apontamentos que dizem tudo - de, por e para mim - por si mesmos.

redor

07.06.21

Na entrada do prédio dela havia um aviso:

NÃO É PERMITIDO FAZER BARULHO OU QUALQUER TIPO DE DISTÚRBIO, AS TELEVISÕES DEVEM SER DESLIGADAS ÀS DEZ DA NOITE. HÁ AQUI PESSOAS QUE TRABALHAM.

Era um aviso grande, pintado a vermelho.

- Agrada-me aquela parte das televisões - disse-lhe eu. 

 

Charles Bukowski – Correios (1971)

Antígona (2015)

 

 

passar cartão

17.05.21

Nesta altura, também a comunicação social estava muito atenta ao trabalho dos voluntários e houve vários directos a acompanhar o percurso dos camiões TIR carregados de ajuda em direcção à Beira Alta. O que fez o tipo de apoio recebido também ser diferente do de Junho. «Da primeira vez tive pessoas muito abastadas a quem bati à porta e me diziam: "Passas recibo? Então, não." Na Beira Alta foi diferente porque, quando aparece a comunicação social, as coisas mudam. Tivemos algumas empresas que nos diziam: "Mas tem a certeza de que vai aparecer na televisão?", e lá ajudavam. É claro que ficamos todos contentes com a ajuda. As razões das pessoas se calhar não foram as melhores, mas o certo é que entregámos os donativos.» 

 

Patrícia Carvalho – Ainda aqui estou (2018)

Fundação Francisco Manuel dos Santos e Patrícia Carvalho (2018)

 

 

 

bota sofrimento nisso (ou como volta tudo ao mesmo)

11.05.21

Foi, realmente, um momento esplendoroso, «um desses milagres que alteram a mentalidade das pessoas», que possibilitou no curto espaço de um ano que se passasse do amargo ceticismo português - que é dizer mal de tudo e não acreditar em nada -, para a euforia de tudo se cometer. De repente, há um turbilhão chamado «rock português». Um movimento com uma energia imparável. Surgem os UHF, os Xutos & Pontapés, os Táxi, os Jafumega e muitos, muitos outros

 

Manuela Gonzaga – António Variações, Entre Braga e Nova Iorque (2018)
Manuela Gonzaga e Bertrand Editora (2018)

 

judeias à beira mar plantadas (ou venenos II)

04.05.21

Presença ausente, intratável e carinhoso, dado a explosões repentinas e a silêncios densos, mas de coração lavado. Incapaz de guardar rancores, alimentar ódios, estimular querelas. Mas cheio de uma inquestionável autoridade que o levava a confrontar até o maior dos seus amores, a própria mãe. O facto é que toda a gente o respeitava muito. Até o pai.

- Mas se tivesses de dizer alguma coisa, dizia. Não ia lavar as mãos ao rio. Uma vez virou-se para a minha mãe, e disse-lhe, você é uma beata. O que anda você a fazer na igreja? É uma beata, isso é um beatismo. 

 

Manuela Gonzaga – António Variações, Entre Braga e Nova Iorque (2018)
Manuela Gonzaga e Bertrand Editora (2018)

 

 

brilhos certos e o elogio de brilhos errados

03.05.21

Maria Adosinda, a cunhada, conta:

- Olhava para a minha sogra, brilhavam-lhe os olhos. Ela adorava-o e ele tinha um cuidado muito especial com ela. 

No carro, dava-lhe sempre o lugar da frente. Ajudava-a a sentar-se, a levantar-se, dava-lhe o braço na rua. Mas se via uma dessas senhoras de nariz empinado e ar importante, dizia: Olha para aquilo, parecem mesmo umas peruas. Detestava as velhas da alta sociedade, porque não via nelas a sinceridade que se vê numa pessoa do campo, pobre, humilde... então, quando lhe aparecia uma cliente a dizer, eu gosto assim, mas o António que acha?, ele faria uma coisa correta. Mas se ela entrasse toda cheia de nove horas: Ai, eu isto, eu aquilo, assim não, quero tudo armado! ele exagerava tanto que ela saía do salão a parecer uma maluquinha. Depois vinha-nos contar e fartávamo-nos de rir. 

 

Manuela Gonzaga – António Variações, Entre Braga e Nova Iorque (2018)

Manuela Gonzaga e Bertrand Editora (2018)

 

cada gota, conta

15.04.21

Plano nacional de combate ao racismo e à discriminação 2021-2025

 


Plano Nacional de Combate ao Racismo e à Discriminação já está disponível para consulta pública e a Federação foi uma das entidades consultadas para a elaboração do documento.

A Federação Portuguesa de Futebol contribuiu para a construção do Plano de Combate ao Racismo e à Discriminação, que foi apresentado esta sexta-feira e já está disponível para consulta pública.

O organismo que tutela o futebol nacional foi uma das entidades desportivas consultadas para elaborar o anexo 9 deste documento.

Para além da FPF, também a Liga Portugal e o Sindicato dos Jogadores Profissionais de Futebol foram ouvidos antes da conclusão deste trabalho e as três entidades enviaram uma proposta conjunta de medidas a incluir neste Plano.

O documento está organizado a partir de 4 princípios (“Destruição de estereótipos”, “Coordenação, governança integrada e territorialização”, “Intervenção integrada no combate às desigualdades” e “Intersecionalidade”) e 10 áreas de atuação: “Governação, informação e conhecimento para uma sociedade não discriminatória”, “Educação e Cultura”, “Ensino Superior”, “Trabalho e Emprego”, “Habitação”, “Saúde e Ação Social”, “Justiça, Segurança e Direitos”, “Participação e Representação”, “Desporto” e “Meios de Comunicação e o Digital”.

O Plano Nacional de Combate ao Racismo e à Discriminação, que prevê também vagas específicas na Universidade para alunos carenciados, estará disponível para consulta pública até ao próximo dia 10 de maio.

in https://www.fpf.pt/pt/News/Todas-as-not%C3%ADcias/Not%C3%ADcia/news/29192?smkid=1%3AU4UmqcSXqNc&utm_source=smarkio_email&utm_campaign=NLFPF_20210415_Racismo&utm_medium=email

 

 

espíritos lacrados

15.03.21

Todo o processo foi em seguida guardado num envelope e lacrado, significando que era confidencial e não poderia ser aberto sem autorização superior. 

Foram precisos 36 anos, mais a morte do ditador, uma revolução em 1974 e a queda do regime, até que, já em democracia, um ministro dos Negócios Estrangeiros, Melo Antunes, se tenha dignado mandar romper esse lacre, para que finalmente o país pudesse ter acesso a tal processo e os descendentes do cônsul de Bordéus pudessem começar a pensar que iria ser feita justiça [...]

Bessa Lopes resume o despacho ministerial contra Sousa Mendes como «hipócrita, ilegal e iníquo (por tudo isso, o processo conservava-se muito bem guardado em envelope lacrado) [...]

Aberto o envelope lacrado, verificou-se que dele não consta qualquer notificação ao "condenado" para o inteirar da decisão final, e que a pena aplicada, além da inatividade por um ano com apenas metade do vencimento da categoria, foi a aposentação compulsiva (e não a demissão), pena que não estava sequer prevista na lei (portanto, tudo isto era manifestamente ilegal).

 

António Moncada S. Mendes – Aristides de Sousa Mendes, Memórias de Um Neto
Edições Saída de Emergência e António Moncada S. Mendes  (2017)

 

in https://knoow.net/arteseletras/literatura/banda-desenhada/

 

amor sem perdão

04.02.21

Ele não estava bem e não cantou bem, mas o produto final era muito melhor do que ouvíamos habitualmente. Aborreci-me por não poder aplaudir sem reservas. Mas se se mente a um homem sobre o seu talento só porque ele está sentado à nossa frente essa é a mais imperdoável das mentiras, porque isso encoraja-o a continuar, e para um homem sem talento é a pior maneira de lhe destruir a vida. Mas muita gente fazia isso, sobretudo amigos e parentes. 

 

Charles Bukowski – Mulheres (1978)
Coleção Mil Folhas PÚBLICO (2003)

 

 

a pão e vacinas (mas sem água...)

14.01.21

Quando os voluntários de Esposende se puseram a caminho, no domingo, 2 de julho, já sabiam que teriam à espera deles cinco jipes, que seriam os guias pela terra queimada do Centro. Tinham sido feitos mapas, e as carrinhas e carros particulares foram divididos em cinco grupos, cada um deles com um pouco de tudo o que levavam, para que nenhum dos bens faltasse em cada localidade por onde passavam. O grupo de Coimbra deu-lhes algumas instruções. Que se esforçassem para não chorar convulsivamente à frente das pessoas que iam encontrar, para tentarem controlar as emoções, porque aquelas populações estavam muito fragilizadas. E que tivessem cuidado, porque havia algumas falsas vítimas a tentar aproveitar-se da situação [...] Mas não tinham noção, diz Sílvia. Por muito que julgassem saber, não tinham noção do que os esperava. 

Primeiro, foi a paisagem. Agora, já não havia filtros do ecrã do televisor, a cor e o cheiro do queimado estavam em todo o lado [..] Depois, as pessoas. «Houve uma grande revolta, porque percebemos que, se confiássemos nas instituições, que nos diziam que já não era preciso nada, tínhamos ido de mãos a abanar. Teríamos ido dar um abraço às pessoas, um bocadinho de colo, mas não levaríamos nada. E a realidade que encontrámos foi completamente diferente. As pessoas pediam-nos água, água, que não tinham de beber. Na primeira casa pediram-nos água e eu pensei: é só aqui. Mas o pedido repetiu-se, e massacrei-me aquele dia todo, porque não me ocorreu, em pleno século XXI, que, num país desenvolvido da Europa comunitária, houvesse velhinhos sem água. 

 

Patrícia Carvalho – Ainda aqui estou (2018)

Fundação Francisco Manuel dos Santos e Patrícia Carvalho (2018)

 

 

 

à volta de um homem

11.01.21

«A primeira coisa que eu gostei em ti», disse Lydia, «foi não teres uma televisão em tua casa. O meu ex-marido via televisão todas as noites e durante todo o fim-de-semana. Tínhamos até que fazer amor em função dos horários dos programas.»

«Hum...»

«Outra coisa que me agradou em tua casa foi a imundície.[...] 

« Tu julgas um homem pelo que está à sua volta, não é?»

«Claro. Quando vejo um homem com uma casa limpa, sei que há qualquer coisa que está mal. E se for demasiado limpa, é porque é bicha.» 

 

Charles Bukowski – Mulheres (1978)
Coleção Mil Folhas PÚBLICO (2003)