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Nariz de cera

anotações e apontamentos que dizem tudo - de, por e para mim - por si mesmos.

Nariz de cera

anotações e apontamentos que dizem tudo - de, por e para mim - por si mesmos.

Agosto 08, 2018

Cecília

Na mesa junto à janela virada para Poente, ensaia-se uma Última Ceia: a companhia de teatro arranjou doze apóstolos e um Cristo (...) De repente, a meio de uma dança, Borja caminha para a mesa onde se desenrola a Última Ceia e manda retirar o vinho, pois é um erro histórico. O Cristo está impávido, mas São João acha que não faz sentido e afasta o seu copo do alcance do professor, que começa a discursar:

- Ninguém sabe, caros Jesus Cristo e seus apóstolos, por que razão o homem se sedentarizou, já que está provado que ser nómada dá muito menos trabalho. Então porque sucedeu essa mudança radical? Muito simples, vou explicar-vos, queridos apóstolos e Nosso Senhor: foi a cerveja. Para ter cerveja era preciso cultivar. E assim nasceu a sociedade como a conhecemos. Graças à cerveja, temos hospitais e bibliotecas. Não existiriam livros se não fosse a cerveja. Não existiriam escritores nem ciência. Os nómadas não têm prisões nem conhecem o castigo, mas por outros lado não têm bibliotecas. Os nómadas não têm nada disto, porque andam de um lado para o outro e as prisões não podem ser transportadas, tal como as tipografias e os hospitais e as livrarias. E tudo isso se deve ao facto de alguns povos terem querido beber cerveja e, para isso, precisarem de se sedentarizar. No tempo de Cristo, no vosso tempo, andavam todos a beber cerveja. Na verdade, as bebidas alcoólicas confundiam-se entre si, pois era normal juntar frutos a bebidas de cereais e cereais a bebidas de frutos. Mas o que é certo é que o Egipto tinha inúmeras cervejeiras e exportava grandes quantidades para a Palestina. O que se bebia no espaço geográfico em que Cristo habitava era cerveja. O vinho era uma bebida de romanos, dos invasores. Cristo não iria beber a bebida dos ricos, dos opressores (...) mas a dos pobres, das putas e dos pecadores. Isso é que era a cerveja, um símbolo do povo. Jesus Cristo bebia cerveja, que sempre foi chamada de pão líquido, pois é verdadeiramente pão com água. 

 

 

Afonso Cruz - Jesus Cristo Bebia Cerveja (2012)

Penguin Random House (2016)

 

 

 

 

Setembro 05, 2017

Cecília

Na história do Porto, Março aparece como um mês marcado por várias tragédias que, ao longo dos tempos, enlutaram profundamente a cidade. Uma das maiores foi o naufrágio do vapor Porto, a 29 daquele mês de 1852. Quarenta e três anos antes, a 29 de Março de 1809, havia ocorrido a horrível tragédia da Ponte das Barcas, que provocou cerca de cinco mil mortos. Deu-se quando o general Soult entrou no Porto, à frente dos invasores franceses. Outra grande catástrofe que teve o mês de Março como referência foi a do Teatro Baquet, que se verificou no dia 21 daquele mês, no ano de 1888 (...) o Teatro Baquet ardeu na noite de 20 para 21 de Março de 1888 (...) Representava-se a peça Os Dragões de Villares, que foi um dos maiores sucessos teatrais de que há memória em Portugal. Além daquela peça, estava anunciada também a representação de uma revista espanhola em que se parodiava a Gran Via. Foi quando decorria esta representação que o pano da boca do palco desceu abruptamente. O público não percebeu o que se estava a passar. De repente alguém gritou: «Fogo! Fogo!» (...) o fumo começava já a sair do palco em espessos e negros rolos. Uma mole de gente aos baldões e atropelando-se buscou saída pela Rua de Santo António (...) Alguém ainda teve o sangue-frio suficiente para ir fechar o gás. Mas era tarde de mais. Em breves minutos, que pareceram anos, o fogo apossou-se de todo o edifício. O fumo asfixiava e as chamas, avançando, empolgavam a cena macabra. Quando se ia tocar a fogo na torre da Igreja de Santo Ildefonso, a corda do sino quebrou. Aconteceu o mesmo na Igreja dos Congregados (...) O balanço final foi de oitenta e oito mortos e muitos feridos (...) As vítimas da tragédia do Baquet repousam no cemitério de Agramonte, num mausoléu que tem como característica especial ter sido «decorado» com pedras e ferros calcinados retirados dos escombros do teatro. 

 

Germano Silva e Lucília Monteiro – Porto, a Revolta dos Taberneiros e Outras Histórias (2004)

Editorial Notícias (maio 2004)

 

 

 

 

 

 

Junho 30, 2017

Cecília

 

Foste de verdade, não de feito, a voz de Portugal. 

(...)

A Portugal, a voz vem-lhe sempre depois da idade 

e tu quiseste acertar-lhe a voz com a idade

e aqui erraste tu,

não a tua voz de Portugal

não a idade que já era hoje. 

(...)

Tu levaste empunhada no teu sonho a bandeira de Portugal

vertical

sem pender pra nenhum lado 

o que não é dado pra portugueses.

Ninguém viu em ti, Fernando,

senão a pessoa que leva uma bandeira

e sem a justificação de ter havido festa. 

Nesta nossa querida terra onde ninguém a ninguém admira

e todos a determinados idolatram.

Foi substituído Portugal pelo nacionalismo 

que é maneira de acabar com partidos 

e de ficar talvez o partido de Portugal

mas não ainda apenas Portugal!

Portugal fica para depois

e os portugueses também 

como tu. 

 

José de Almada Negreiros, ODE A FERNANDO PESSOA
Poemas Escolhidos José de Almada Negreiros - Assírio & Alvim | Porto Editora 2016

 

 

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