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Nariz de cera

anotações e apontamentos que dizem tudo - de, por e para mim - por si mesmos.

Nariz de cera

anotações e apontamentos que dizem tudo - de, por e para mim - por si mesmos.

prisão

Para encherem a noite, os grilos não precisam mais que de uma lura. 

Mesmo no cativeiro continuam a cantar...

 

Para o homem, momentos há -- e é doloroso reconhecê-lo -- em que até o universo é uma prisão.

 

Jorge Sousa Braga - Ao Relento

 

 

in O Poeta Nu [poesia reunida]

Assírio & Alvim (abril 2014)

 

 

 

 

resta ressuscitar

O teu avô pisava as uvas para fazer vinho, não era? Quando se chega a esta idade somos umas uvas, pisadas a vida inteira. Um dia, Nosso Senhor transformar-nos-á em vinho. Sofremos tanto que já só podemos ressuscitar, já não nos sobra mais nada. 

 

Afonso Cruz - Jesus Cristo Bebia Cerveja (2012)

Penguin Random House (2016)

 

 

 

 

 

 

estradas e janelas da memória

Os correios acabam de abrir e Manuel Moita dirige-se para lá. Tem oitenta e três anos, Alzheimer, e vai aos correios várias vezes por dia para saber se tem correspondência. As pessoas têm paciência e lamentam aquela insistência que nasce da solidão e da doença.

     Os guardas sorriem quando o vêem. O cabo buzina enquanto o sargento Oliveira acena para o velho, que se assusta, encostando-se à parede. Então, no meio da confusão da sua cabeça, parece reconhecer aquelas caras e também acena, retomando a caminhada, mas em sentido contrário. Já  não se lembra de que ia aos correios e volta para casa. 

 

 

Afonso Cruz - Jesus Cristo Bebia Cerveja (2012)

Penguin Random House (2016)

 

 

 

 

cada um é beautifully broken

Cada um é feito daquilo que viveu e do modo como o viveu, e isto ninguém lho pode tirar. 

 

 

Italo Calvino  - Palomar (1983)

Planeta DeAgostini (2001)

 

 

 

 

27.11.4

 Sem olhar para trás. Sem ver o céu azul, o calor a bater. O sol a brilhar, a faiscar nos frisos dos carros que passam. O vento suave, a música no rádio. Nada disso, nada dessa beleza quotidiana se manifestou. Porque a decisão já estava tomada. Ponderada. Aceite.

Quando isso acontece, um véu de cegueira cobre a cara do morto anunciado. Como uma droga, uma embriaguez que omite a verdade. Que omite o mundo real, aquele que passa ao lado do universo que nasceu na mente do suicida.

As razões por que a decisão foi tomada, são desconhecidas. Podíamos consultar todos os psicólogos de Portugal; todos os psiquiatras. Todos os médicos de todas as maleitas do homem podiam olhar para este relato. E nenhum deles podia dizer com ciência a razão por que (...) escolheu morrer (...)

A verdade é que a cada quarenta segundos uma pessoa morre no mundo. Em Portugal, há, oficialmente, três suicídios por dia. São 1.200 por ano.

 

in https://24.sapo.pt/atualidade/artigos/na-ponte-que-liga-as-duas-margens-de-um-pais-ha-quem-escolha-desligar-se-da-vida