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Nariz de cera

anotações e apontamentos que dizem tudo - de, por e para mim - por si mesmos.

Nariz de cera

anotações e apontamentos que dizem tudo - de, por e para mim - por si mesmos.

bien que debe consumarse

Cecília, 22.09.20

A quienes leyendo este libro sepan sacar la consecuencia recta.

 

El matar no es legado de ninguna bandería. La vida es bien que debe consumarse. 

 

 

Antonio Portero Soro – Signo de vida (1999)

J.A. Ferrer-Sama y J. Ramírez, Editores Asociados (1999)

 

 

não à ventura (II)

Cecília, 11.09.20

Há um país na terra

que a mão tranquila alcança

 

Há um país onde o corpo

se veste com o corpo

da terra 

 

António Ramos Rosa in HÁ UM PAÍS NA TERRA QUE A MÃO TRANQUILA ALCANÇA  - Obra Poética I

Assírio & Alvim (2018)

 

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não à ventura (I)

Cecília, 11.09.20

à ventura
• Sem a reflexão necessária. = AO ACASOÀ SORTE

in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha]

 

Que a palavra tenha

dureza de quina,

firmeza de punho.

Que a palavra seja. 

 

António Ramos Rosa in CAMINHAR HABITAR - Obra Poética I

Assírio & Alvim (2018)

 

 

fazer o mal com o bem

Cecília, 01.09.20

Ao ir embora, o padre disse que a mãe estava agarrada ao tio Carlos. Era ela quem o mantinha vivo. Era por estar sempre a pensar nele que o tio não partia. Mesmo enquanto não estava à cabeceira da cama, a mãe não parava de rezar [...] E durante todo aquele tempo em que se esgotara a fim de ajudar o tio, a minha mãe não tinha feito mais do que prejudicá-lo. 

«Não pode ser», pensava. «A mãe é boa. Era ela quem se levantava a meio da noite para ver se ele precisava de alguma coisa.»

A mãe estava do lado do bem. Mas era por ser tão boa que o sofrimento do tio não tinha acabado mais cedo. Tinha acabado de ser convertida numa pessoa desprezível por se ter esforçado tanto a fim de manter alguém vivo. 

 

Hugo Mezena – Gente Séria (2017)

Planeta Manuscrito (2018)

 

 

baterias puras

Cecília, 31.08.20

António recarregava baterias nessas visitas a Fiscal (...) Artista consagrado, cabeça de cartaz, ídolo de multidões, continuava a chegar de camioneta e a subir a serra a pé até ao lugar do Monte, sem a ostentação de carros de luxo ou buzinas estridentes, bastando, para causar alarido, a sua figura singular. Um alarido que ele tenta atenuar ao entrar na aldeia de forma não muito exótica, privilegiando, por exemplo, as antigas camisas minhotas, sem colarinho, que usou muito tempo, mas... que já ninguém usava. E as calças em tons sóbrios, mas... muito largas e apertadas no tornozelo. 

 

Manuela Gonzaga – António Variações, Entre Braga e Nova Iorque (2018)

Manuela Gonzaga e Bertrand Editora (2018)

 

 

sonho e memória

Cecília, 26.08.20

Acabada a escola, tinham à sua espera o complemento do trabalho familiar. Dar de comer ao gado, ajudar no campo, e mais e mais. Todos os dias. Os relatos sobrepõem-se e não chegam do fundo dos tempos. São frescos de uma arrepiante contemporaneidade:

- Lá em casa dividíamos uma sardinha por quatro. 

- Nós dividíamos uma sardinha por sete.

- Eu passei muita fome.

[...]

- Mas quando tocava a brincar, era uma alegria! Era tudo da nossa imaginação e do nosso engenho. Dançávamos, cantávamos, bailávamos. Foram tempos que ninguém sonha como eram. E, contudo, éramos alegres, divertíamo-nos com nada, construíamos os nossos brinquedos. Tristes das crianças de hoje a quem entregam tudo feito e não aprendem a sonhar. 

 

Manuela Gonzaga – António Variações, Entre Braga e Nova Iorque (2018)

Manuela Gonzaga e Bertrand Editora (2018)

 

 

 

amarras à portuguesa

Cecília, 22.08.20

Rui Monteiro volta a evocá-lo desta maneira: «Foi o mais criativo e original artista popular português. Morreu cedo demais, mas também viveu sem as amarras do preconceito e da inferioridade portuguesas.

 

Manuela Gonzaga – António Variações, Entre Braga e Nova Iorque (2018)

Manuela Gonzaga e Bertrand Editora (2018)

 

 

silêncio que se vai contar um fado (II)

Cecília, 23.07.20

- São rosas, senhor! - grunhia a dona Maria da Conceição.

Quem ouvia a história sem ter tomado o pequeno-almoço pensava no desperdício de transformar pão em flores, que enchem os olhos mas deixam a barriga a dar horas. Na fila dos muito bons, a coisa ainda se arranjava com leite ao pequeno-almoço. Na dos bons, havia pão sem nada. Mas à medida que se avançava para a dos mais ou menos, piorava bastante. E na outra ponta, no canto dos burros, a fome grassava a olhos vistos. Esse antro era povoado por quatro ou cinco criaturas que aproveitavam o tempo de aula para descansar.

- Deixem-no estar na paz do Senhor - dizia a professora quando alguém apontava para o João Pedro. 

Com a cabeça pousada nos braços, repousava no sono dos justos, pouco importado com reis, rainhas e outras peripécias que não dão de comer a ninguém. E os braços dele eram um mistério. Não trazia lanche, mas não emagrecia. Enquanto o meu pai gastava o salário na mercearia do senhor Júlio, o Zé Tractorista, pai dele, gastava-o lá também, mas em vinho. 

 

Hugo Mezena – Gente Séria (2017)

Planeta Manuscrito (2018)