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Nariz de cera

anotações e apontamentos que dizem tudo - de, por e para mim - por si mesmos.

Nariz de cera

anotações e apontamentos que dizem tudo - de, por e para mim - por si mesmos.

matéria de religião

É óbvio que nem as grilhetas, os palavrões, os maus tratos e as sevícias os incomodaram grandemente pois, como sabeis, o povo do Senhor está-se marimbando para essas coisas e só refila em matéria de religião, não podendo suportar as nefandas práticas e cultos dos povos infiéis... que são todos os outros evidentemente. 

 

 

Vilhena – História Universal da Pulhice Humana (1960/1961/1965)
Edição Completa, Integral e Nunca Censurada dos Três Volumes Originais Pré-História / O Egipto / Os Judeus

Herdeiros de José Vilhena / SPA 2015, E-Primatur (2016)

 

 

 

 

puta a um canto

V

 

(À infalível prostituta, a um canto)

 

Se eu quisesse, tornava-te humana.

Fazia-te chorar

as lágrimas que trago em mim. 

 

E beijava-te a boca

a menina que ainda existe 

no fundo dos teus olhos. 

 

Mas não quero. 

 

Prefiro ver no teu corpo 

o desenho da minha indiferença.

E sentir-te na pele

tudo o que há de vil na minh'alma

- e já não cabe em mim. 

 

José Gomes Ferreira in Cabaré 

 

 

José Gomes Ferreira – Poeta Militante I

Círculo de Leitores (2003)

 

 

 

 

margens tantas

- Mi libro, ¿crees que vas a leerlo?

- Supongo que no. A menos que tú quieras. Nunca abro los livros que traen. Reconozcámoslo, la mayoría son malos. Ahora todo el mundo se piensa que sabe escribir (...) Por lo que cuentan, todos son unos genios incomprendidos. Eso es lo que me dicen. Estoy hasta la coronilla de marginados sociales. 

 

 

David Foenkinos - La biblioteca de los libros rechazados (2016)
Titulo original: Le Mystère Henri Pick
Traducción de María Teresa Gallego Urrutia y Amaya García Gallego
Penguin Random House Grupo Editorial S.A.U. (febrero, 2017)

 

 

 

eu sou só mais um gênio
perdido entre os livros da biblioteca pública
que você gosta de ter ao lado
pra se sentir madura
pra se sentir segura
na confusão

pena que nada disso importa
é pena que nada disso importa
porque eu quero ser o homem que você deseja
quando toma banho
ou quando se masturba
eu quero ser o corpo que você almeja
quando está com fome
ou quando está insone
foda-se o que eu sei
e o que eu te ensinei

eu sou só mais um homem culto e divertido
que você sempre vai levar pros bares pra impressionar amigos
pra se sentir madura
eu sou somente a armadura
na escuridão


é pena que nada disso importa
é pena que nada disso importa
porque eu quero ser o homem que você deseja
quando toma banho
ou quando se masturba
eu quero ser o corpo que você almeja
quando está com fome
ou quando está insone
foda-se o que eu sei
e o que eu te ensinei

eu sou só mais um
(gênio perdido entre os livros da biblioteca pública
que você gosta de ter ao lado)
eu sou só mais um
(gênio perdido entre os livros da biblioteca pública
que você gosta de ter ao lado)
eu sou só mais um
(por que você vem me chamar?)
por que você vem me chamar?
eu sou só mais um
e você vem me chamar

 

 

Time's Up (and/or down)

O profe apresentou a brasa. Era editora numa das grandes casas editoriais de Nova Iorque. 

- Oh, que coisinha doce - disse ele, aproximou-se e apertou-lhe a coxa direita. - Amo-te. 

- És rápido - disse ela. 

- Bem, sabes que os escritores têm sempre de beijar o cu dos editores. 

- Pensava que era o contrário-

- Não é. Quem passa fome é o escritor. 

 

Charles Bukowski in Grita Quando Te Queimares - Música para Água Ardente (1983)

Antígona (2015)

#principiovasoscomunicantes

Foi, realmente, em contacto com senhores da maior respeitabilidade (daqueles que vêm no jornal sem precisar de bater na mulher ou roubar uma gabardina), que Branca de Neve apurou os reflexos e fez a sua performance técnica. 

Embora política, religiosa e socialmente eles professassem opiniões idênticas e inapelavelmente conservadoras, divergiam de maneira profunda, quando, na intimidade do apartamento lilás, davam largas aos seus recônditos anseios. Com efeito, se, quanto ao direito de propriedade privada, fé em Deus, confiança nos chefes e bordoada em grevistas, eram de uma unanimidade total, cada um deles fazia de Branca de Neve um uso muito pessoal, quando dela se ocupava para descansar de uma vida inteiramente sacrificada ao bem da sociedade e da grei. 

Então, no elegante apartamento onde ela encontrara o conforto que fora obrigada a procurar longe da casa paterna, davam livre curso à imaginação, deixando correr, infatigavel e indisciplinada, a fantasia. Vinham ali à superfície os mais íntimos desejos; por vezes recalcadas tendências e inconfessadas aberrações (...) Branca de Neve tinha para com essas inclinações dos seus protectores, para com essas pequenas loucuras que os traziam tão felizes, uma paciência toda evangélica. Calculando que da sua hábil colaboração, dependia a felicidade de tão altas personagens, o bem-estar dos seus lares cristãos e o pão de alguns milhares de operários, servos e funcionários, prestava-se às fantasias com paciência de aluna, resignação de mártir e uma imaginação toda fatalista, à mistura, é certo, com um profundo sentido prático da vida. É que, se por um lado ela acreditava estar a fazer alguma coisa pela paz social e pela perenidade das instituições, por outro lado via subir a sua conta na Caixa Geral de Depósitos, à medida que as suas inibições baixavam, o que mais uma vez confirma o velho príncipio físico dos vasos comunicantes. 

 

Vilhena – Branca de Neve e os 700 anões (1962)
Edição fac-símile, A Bela e o Monstro Edições / Rapsódia Final, Unipessoal lda (2014)

 

 

 

 

estimulantes

O rádio do carro tocava canções próprias para «play-boys» que têm pouca conversa e precisam de um estimulante dirigido à imaginação das suas companheiras. 

 

 

 

Vilhena – Branca de Neve e os 700 anões (1962)
Edição fac-símile, A Bela e o Monstro Edições / Rapsódia Final, Unipessoal lda (2014)

 

 

 

 

(alguns) padres vossos

Na sua tocante alocução aos noivos, o sacerdote recomendou-lhe que usassem com moderação os gozos do matrimónio, ameaçando-os com os tormentos do inferno e salientando que viemos a este mundo para sofrer e não para fazer dele uma pocilga de prazeres e de vícios. Com isto, ao que supomos, tentava sufocar a inveja que lhe fazia aquele pedaço de noiva e vingar-se um pouco da sua condição de celibatário.

 

 

 Vilhena – Branca de Neve e os 700 anões (1962)
Edição fac-símile, A Bela e o Monstro Edições / Rapsódia Final, Unipessoal lda (2014)

 

 

 

 

 

 

Deus, sexo e as sociedades disfarçadas

O jornalista diz que é assim mesmo, que nas sociedades disfarçadas todo o entendimento é um crime, se possível um crime sexual. Ele diz que não tenho de me admirar, ele acha que eu devo saber que o sexo é como Deus - o sítio secreto da expressão secreta a que se atribui tudo o que não tem explicação.    

 

 

Lídia Jorge – A Costa dos Murmúrios (1988)
Coleção Mil Folhas PÚBLICO (2002)