Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Nariz de cera

anotações e apontamentos que dizem tudo - de, por e para mim - por si mesmos.

Nariz de cera

anotações e apontamentos que dizem tudo - de, por e para mim - por si mesmos.

15.03.19

até que


Cecília

... até que um dia 

já não terá sentido o amanhã.

 

 

Primo Levi – Se Isto É Um Homem (1947)
Coleção Mil Folhas PÚBLICO (2002)

 

 

 

 

01.08.18

troca fachadas


Cecília

Não, ele vivia num bairro que parecia um bairro social, mas na verdade não o era, porque ali não aconteciam as coisas que era suposto acontecerem nos bairros sociais. Aquele bairro tinha sido fruto de uma excelente ideia do antigo presidente da Câmara, agora preso por corrupção, o que em termos práticos significava uma meia dúzia de milhares de euros a mais numa conta em nome de uma sobrinha, uma vivenda com mais pisos do que a maioria, um apartamentozito para a filha mais velha, algumas viagens a destinos turísticos muito parecidos e obviamente uma série de jantaradas e garrafas de whisky impossíveis de contabilizar. Mas, por injustiça, os partidos da oposição, os jornais locais, um ou outro nacional e o pessoal da vila já não mencionavam essa excelente forma que o antigo presidente tinha arranjado para resolver o problema das barracas. Talvez porque a ideia tivesse sido tão simples e tão boa, mas dava menos àqueles que também queriam algum extra para fazer aquela vida que era suposto fazer-se, quando se era mais ou menos político, mas o ordenado não deixava. 

 

 

 

Ricardo Adolfo,  Mizé - Antes gálderia do que normal e remediada 

Alfaguara (2011)

 

 

 

 

 

17.07.18

literatura jornalística


Cecília

Nada escapava à sua actividade escrevinhadora. Mas o certo é que tamanha quantidade de escrita não continha muitas ideias nem muita verdade: os textos egípcios eram, enfim, como a literatura dos nossos jornais. 

 

 

 

Vilhena – História Universal da Pulhice Humana (1960/1961/1965)
Edição Completa, Integral e Nunca Censurada dos Três Volumes Originais Pré-História / O Egipto / Os Judeus

Herdeiros de José Vilhena / SPA 2015, E-Primatur (2016)

 

 

 

 

23.01.18

#principiovasoscomunicantes


Cecília

Foi, realmente, em contacto com senhores da maior respeitabilidade (daqueles que vêm no jornal sem precisar de bater na mulher ou roubar uma gabardina), que Branca de Neve apurou os reflexos e fez a sua performance técnica. 

Embora política, religiosa e socialmente eles professassem opiniões idênticas e inapelavelmente conservadoras, divergiam de maneira profunda, quando, na intimidade do apartamento lilás, davam largas aos seus recônditos anseios. Com efeito, se, quanto ao direito de propriedade privada, fé em Deus, confiança nos chefes e bordoada em grevistas, eram de uma unanimidade total, cada um deles fazia de Branca de Neve um uso muito pessoal, quando dela se ocupava para descansar de uma vida inteiramente sacrificada ao bem da sociedade e da grei. 

Então, no elegante apartamento onde ela encontrara o conforto que fora obrigada a procurar longe da casa paterna, davam livre curso à imaginação, deixando correr, infatigavel e indisciplinada, a fantasia. Vinham ali à superfície os mais íntimos desejos; por vezes recalcadas tendências e inconfessadas aberrações (...) Branca de Neve tinha para com essas inclinações dos seus protectores, para com essas pequenas loucuras que os traziam tão felizes, uma paciência toda evangélica. Calculando que da sua hábil colaboração, dependia a felicidade de tão altas personagens, o bem-estar dos seus lares cristãos e o pão de alguns milhares de operários, servos e funcionários, prestava-se às fantasias com paciência de aluna, resignação de mártir e uma imaginação toda fatalista, à mistura, é certo, com um profundo sentido prático da vida. É que, se por um lado ela acreditava estar a fazer alguma coisa pela paz social e pela perenidade das instituições, por outro lado via subir a sua conta na Caixa Geral de Depósitos, à medida que as suas inibições baixavam, o que mais uma vez confirma o velho príncipio físico dos vasos comunicantes. 

 

Vilhena – Branca de Neve e os 700 anões (1962)
Edição fac-símile, A Bela e o Monstro Edições / Rapsódia Final, Unipessoal lda (2014)

 

 

 

 

17.07.17

sensacionalismos de ontem e curiosidades eternas


Cecília

Foi no dia 29 de Março de 1852 que se verificou o naufrágio do vapor Porto, à entrada da barra do Douro e à vista de centenas de pessoas que nada puderam fazer para socorrer os náufragos (...) O barco, que levava aos comandos o experiente piloto António Pinto, saíra do rio Douro, na véspera, ou seja a 28 de Março de 1852, que era um domingo, com destino a Lisboa (...).

O Porto era um vapor já cansado, já com alguns anos de uso. Evidenciava a necessidade urgente de alguns reparos, mas era geralmente considerado um navio seguro, e por isso ninguém, naquele dia, se atemorizou com os perigos que pudessem advir da viagem, apesar do mau tempo que se fazia sentir ao longo de toda a costa. Mas ao sair da barra, o barco começou a gingar perigosamente. O já aqui citado cronista, ao descrever a saída da embarcação do rio para o mar, diz que «naquele espaço que medeia entre as águas do Douro e o mar, o Porto começou a oscilar, ora para bombordo, ora para estibordo, enquanto o vento rugia no velame desfraldado em brutais sopros prenunciantes de tempestade, a varrer as primeiras lufadas da Primavera». (...) A viagem durou até alturas da Figueira da Foz. Dando-se conta de que em vez de amainar a tempestade se tornava cada vez mais violenta e ameaçadora, o piloto António Pinto resolveu retroceder para regressar ao ponto de partida. Não conseguiu, porém, entrar na barra e deu-se a tragédia.  

Voltamos a citar o colega que em 1852 fez a reportagem do acontecimento para um dos jornais do Porto: « A escassas dezenas de metros de terra firme, a embarcação empinava-se constantemente, desobediente ao leme (...) a corrente brincava com ela, encavalgava-a nas cordilheiras formidáveis ou mergulhava-a nos aquáticos vales espadanantes em tormentosos balanços rugidores». 

O estilo é, no mínimo, medonho. Mas noutros parágrafos as descrições são aterradoras (...) « o Porto agitava-se cavernosamente e, sob o céu empardecido, as gaivotas fugiam céleres para as bandas da terra, adejando, empurradas pela ventania que detinha a distância as barcaças dos pilotos. As vozes pretendiam dominar os estalos sinistros dos entrechoques das ondas, lançavam-se cabos ao desarvorado vapor, ouviam-se os desesperados gritos dos passageiros, acorridos à tolda, erguendo os braços, pedindo socorro e chorando ao verem os botes dos práticos fazendo-se à terra numa confissão de impotência». (...)  «Mas lá nos seus mistérios de negrume, o Porto acabara quebrado pelo meio. Como uma palha atirada de empuxão em empuxão, batera em lagedos, roçara em línguas de areia, morrera na fúria da porcela».

Na manhã seguinte, ao descerrar do nevoeiro, lobrigavam-se a boiar à tona das águas os restos do vapor. Das cinquenta e duas pessoas que havia a bordo, salvaram-se nove. Os sinos de todas as igrejas do Porto dobraram a finados (...) Entretanto, o mar começava a devolver os cadáveres à terra. Junto ao Castelo do Queijo apareceu a primogénita de José Alen, «descomposta», dizia um jornal; em Carreiros apareceram os corpos de James Elmsley, sobrinhos dos Andersens; o de um clérigo, o padre Bernardo António Pereira Leite de Carvalho; e o do juiz Silveira Pinto. O cadáver de José Plácido Braga, « inchado, ferido de rasgões fundos na carne pelos embates nos penedos», apareceu encravado nas rochas do Cabedelo. A sua mala, com uma moeda de ouro incrustrada no fundo, foi dar às praias de Lavra (...).

Uma curiosidade: em 19 de Julho de 1958, na barra do Douro, foram lançadas à agua as cinzas de um bravo marinheiro. Chamava-se John Cowie e era capitão do barco Seanew que vinha com muita frequência ao rio Douro, onde descarregava automóveis e sal e carregava vinho do Porto e têxteis. Quando morreu fez questão de que as suas cinzas fossem lançadas na barra do Douro, em homenagem ao sítio mais perigoso que conhecera, em toda a sua vida (e foi longa) de marinheiro. 

 

 

Germano Silva e Lucília Monteiro – Porto, a Revolta dos Taberneiros e Outras Histórias (2004)

Editorial Notícias (maio 2004)

 

  

 

Mais sobre mim

foto do autor

Sigam-me

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2019
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2018
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2017
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2016
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D