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Nariz de cera

anotações e apontamentos que dizem tudo - de, por e para mim - por si mesmos.

Nariz de cera

anotações e apontamentos que dizem tudo - de, por e para mim - por si mesmos.

não à ventura (II)

Cecília, 11.09.20

Há um país na terra

que a mão tranquila alcança

 

Há um país onde o corpo

se veste com o corpo

da terra 

 

António Ramos Rosa in HÁ UM PAÍS NA TERRA QUE A MÃO TRANQUILA ALCANÇA  - Obra Poética I

Assírio & Alvim (2018)

 

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sonho e memória

Cecília, 26.08.20

Acabada a escola, tinham à sua espera o complemento do trabalho familiar. Dar de comer ao gado, ajudar no campo, e mais e mais. Todos os dias. Os relatos sobrepõem-se e não chegam do fundo dos tempos. São frescos de uma arrepiante contemporaneidade:

- Lá em casa dividíamos uma sardinha por quatro. 

- Nós dividíamos uma sardinha por sete.

- Eu passei muita fome.

[...]

- Mas quando tocava a brincar, era uma alegria! Era tudo da nossa imaginação e do nosso engenho. Dançávamos, cantávamos, bailávamos. Foram tempos que ninguém sonha como eram. E, contudo, éramos alegres, divertíamo-nos com nada, construíamos os nossos brinquedos. Tristes das crianças de hoje a quem entregam tudo feito e não aprendem a sonhar. 

 

Manuela Gonzaga – António Variações, Entre Braga e Nova Iorque (2018)

Manuela Gonzaga e Bertrand Editora (2018)

 

 

 

falar e dizer

Cecília, 27.07.20

amigos que falavam sem freio como o Nélson e por amigos como o Samuel, cujo silêncio dizia mais. 

 

Afonso Reis Cabral – Pão de Açúcar
Publicações Dom Quixote (2018)

 

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PAR Impar 1 2 1 (1915-16)

Amadeo de Souza Cardoso 

 

haja dó

Cecília, 16.07.20

A porta que se escancarava para os que se haviam portado de acordo com o que se sabia que estava correcto. Os antigos. De acordo com o que eles já diziam. 

Era o medo de não estar certo que se via nos olhos dele. 

Só que não era possível que se andasse há dois mil anos a ensinar uma doutrina errada. Esse era o argumento. 

 

Hugo Mezena – Gente Séria (2017)

Planeta Manuscrito (2018)

 

 

 

olhar para as coisas como elas são

Cecília, 15.04.20

Não havia volta a dar (...) Há coisas que não param depois de terem sido postas em movimento (...) 

Às vezes é preciso que os anos passem para que uma pessoa consiga olhar para as coisas como elas são. E assim de uma maneira geral as coisas não são o que queríamos.

Mas isso tu já sabes. 

 

Hugo Mezena – Gente Séria (2017)

Planeta Manuscrito (2018)

 

 

 

 

apostar na equipa certa

Cecília, 02.04.20

Mas em 1983 e em 1984, as autoridades responsáveis pela saúde dos portugueses não estavam informadas, logo, não sabiam como encarar o problema. Portanto, desmentem-no. A sida não existe. A exstir, é noutros países. Não há pragas nem epidemias. O director do Instituto Nacional do Sangue multiplica-se em entrevistas e vai à televisão desmentir a gravidade da situação e pedir às pessoas para não se preocuparem porque Portugal era um país de bons costumes. Só uma mulher, investigadora, estava atenta, e, pior do que isso, preocupadíssima. Odete Santos tinha ouvido falar da doença em 1983, num congresso em Lausanne, na Suíça, para onde foi a convite da maior especialista mundial em infeções hospitalares, que lhe diz: «Se for o que a gente pensa, vai ser uma desgraça!» Odete Santos, que trabalhava com o Instituto Pasteur, em Paris, pediu para ser apresentada ao professor Montagnier, o virologista francês que isolara o vírus... e contra tudo e contra todos iniciou uma batalha pelo conhecimento da doença, em Portugal... Numa enorme solidão, como ela própria admite, a cientista foi discriminada. As pessoas chegavam a mudar de passeio para não lhe falarem... Mas em 1985, com uma equipa diminuta na Faculdade de Farmácia, Odete Santos entra para a História da Medicina ao isolar o VIH-2... (...) A partir daí, a sida, em Portugal, não apenas existe como tem direito a bilhete de identidade. 

 

Manuela Gonzaga – António Variações, Entre Braga e Nova Iorque (2018)
Manuela Gonzaga e Bertrand Editora (2018)

 

 

 

frontes que persistem

Cecília, 18.03.20

 

Uma pequena ponte, uma lâmpada, um punho,

uma carta que segue, um bom dia que chega,

hoje, amanhã, ainda, a vida continua,

no silêncio, nas ruas, nos quartos, dia a dia,

nas mãos que se dão, nos punhos torturados,

nas frontes que persistem. 

 

António Ramos Rosa in NÓS SOMOS - Obra Poética I

Assírio & Alvim (2018)

 

 

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L'échappée belle

Brigitte Sanchez

 

tropeços

Cecília, 30.01.20

a tropeçar em si mesmo, não nos sapatos, a tropeçar no interior de si mesmo que é o género de tropeço que provoca as quedas mais graves 

 

António Lobo Antunes – A Última Porta Antes da Noite (2018)

Publicações Dom Quixote (2018)

 

 

ingenuidade matemática

Cecília, 21.01.20

Escrever sobre Lorde B provocou em mim grande melancolia. Lamento imenso nunca lhe ter dito que o amava, porque a minha ingenuidade me fazia pensar que o coração só pode amar uma vez. Percebo agora que amei três pessoas, que esses três amantes eram muito diferentes uns dos outros e que cada um ocupa um lugar diferente no meu coração. Mercy, Lorde B. E o maior e menos mobilado espaço do meu coração é o do amor que sinto por si. Tem nele pouco mais que uma cama. Como é estranho que lhe tenha oferecido a parte de leão do meu coração quando fez tão pouco para o merecer, e sabendo eu tão pouco de si. 

 

Wray Delaney - Memórias de Uma Cortesã  (2016)

Quinta Essência, Oficina do Livro (2017)

 

 

 

o maior tesouro

Cecília, 30.11.19

 

A juventude num velho é o seu maior tesouro. E o mais notável é que todos tivemos uma infância, todos podemos regressar a essa infância e criar a partir desse retorno um mundo melhor. 

 

 

Afonso Cruz_ O macaco bêbedo foi à ópera - Da embriaguez à civilização (2019)
Fundação Francisco Manuel dos Santos e Afonso Cruz (2019)