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Nariz de cera

anotações e apontamentos que dizem tudo - de, por e para mim - por si mesmos.

Nariz de cera

anotações e apontamentos que dizem tudo - de, por e para mim - por si mesmos.

tempo

Cecília, 22.10.19

 

Põe o tempo o cuidado

que ignora o ouvido

e que o livro não dá.

É dele este silêncio,

este saber,

este ouvir e calar.

(...)

É dele o pouco a pouco,

o aproximado,

o justo. 

(...)

É doce e grande 

o tempo.

(...)

Põe o tempo o cuidado.

Mas não põe as estrelas.

 

Perde o olhar o brilho.

Mas o mar não se perde. 

 

 

 

António Ramos Rosa in Antecipação à Velhice - Obra Poética I

Assírio & Alvim (2018)

 

 

 

 

estradas e janelas da memória

Cecília, 04.07.18

Os correios acabam de abrir e Manuel Moita dirige-se para lá. Tem oitenta e três anos, Alzheimer, e vai aos correios várias vezes por dia para saber se tem correspondência. As pessoas têm paciência e lamentam aquela insistência que nasce da solidão e da doença.

     Os guardas sorriem quando o vêem. O cabo buzina enquanto o sargento Oliveira acena para o velho, que se assusta, encostando-se à parede. Então, no meio da confusão da sua cabeça, parece reconhecer aquelas caras e também acena, retomando a caminhada, mas em sentido contrário. Já  não se lembra de que ia aos correios e volta para casa. 

 

 

Afonso Cruz - Jesus Cristo Bebia Cerveja (2012)

Penguin Random House (2016)

 

 

 

 

velhice

Cecília, 07.06.18

É errado pensar que a velhice é um declive por onde vamos caindo: muito pelo contrário, subimos, e a passos largos, surpreendentes. O trabalho intelectual faz-se tão rapidamente como nas crianças o trabalho físico. Não é que não nos aproximemos do fim da vida, mas fazemo-lo como se fosse um objectivo, e não o derradeiro e fatal baixio onde encalharemos para sempre. 

 

 

George Sand – Diário Íntimo

Antígona (2004)

 

 

 

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rugas (II)

Cecília, 19.05.17

Às crianças contamos histórias,

E limpeza, ordem e fala lhes pedimos. Aos adultos falamos

De afectos e vamos prevenindo que será uma desgraça.

Aos velhos apresentamos o resultado. 

 

 

Maria Gabriela Llansol - O Começo de Um Livro É Precioso
Assírio & Alvim (outubro 2003)

 

 

 

 

 

rugas (I)

Cecília, 19.05.17

 Arrugas

Rugas

 

 

  • ¿ Quieren tomar algo? – preguntó acto seguido Madeleine.
  • Con mucho gusto.
  • ¿ Qué quieren?
  • Lo que haya – contestó Delphine, que ya se había dado cuenta de que más valía no llevarle la contraria. La mujer se fue a la cocina y dejó a los invitados en el salón. La pareja se miró en un silencio apurado. No tardó en volver Madeleine con dos tazas de té al caramelo.

Frédéric se tomó el té por cortesía, aunque lo que más asco le daba en el mundo era el aroma a caramelo.

(…)

  • Muchas gracias por haber sacado tiempo para atendernos.
  • Nada de gracias. ¿ Les ha gustado el té al caramelo?
  • Sí, gracias – contestaron Delphine y Frédéric a dúo.
  • Me alegro, porque me lo regalaron y no me gusta nada. Así que intento darle salida cuando tengo invitados.

Al ver la casa de asombro de los parisinos, Madeleine añadió que lo decía en broma. Según iba envejeciendo, se percataba de que nadie pensaba ya que fuera capaz de tener sentido del humor. Claro, los viejos no pueden por menos de convertirse en unas personas lúgubres que no entienden nada ni son capaces del menor ingenio.  

 

 

David Foenkinos - La biblioteca de los libros rechazados (2016)
Titulo original: Le Mystère Henri Pick
Traducción de María Teresa Gallego Urrutia y Amaya García Gallego
Penguin Random House Grupo Editorial S.A.U. (febrero, 2017)