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Nariz de cera

anotações e apontamentos que dizem tudo - de, por e para mim - por si mesmos.

Nariz de cera

anotações e apontamentos que dizem tudo - de, por e para mim - por si mesmos.

19.08.19

a única rebelião autêntica


Cecília

A única rebelião autêntica da Igreja foi a de Cristo contra os Césares, que daí para cá é tudo uma história de conluios com os Impérios. 

 

 

Álvaro Guerra – Razões de Coração (1991)
Coleção Mil Folhas PÚBLICO (2002)

 

 

Christ in Limbo 

follower of Hieronymus Bosch

 

29.07.19

arGOLAdaS


Cecília

Vai apreensivo com o destino do Lourenço (...) O homem tem cinco filhos e deve estar a esta hora a arrepelar-se para inventar com que lhes dar de comer. 

Põe-se Frei Pedro a arquitectar planos para tirar o Lourenço da encrenca e ocorre-lhe que a solução poderá passar pelo padre Sepúlveda (...) 

Santas tardes, senhor abade. E vá de lhe trinar a miséria do Lourenço, da mulher e dos cinco filhos, com acordes trágicos e tons patrióticos. Pois, que se há-de fazer... É a vida - conforma-se o cura. Frei Pedro simula espanto e indigna-se, que não se pode cruzar os braços e deixar à fome o mártir do despotismo jacobino! E, na embalagem, avança a sugestão. E se, este ano, o senhor padre Sepúlveda abdicasse do abadágio e, em seu lugar, se procedesse à recolha dos géneros pelas famílias, para acudir ao Lourenço, até se achar remédio mais duradouro? O cura empalidece, e estaca junto aos rebentos das tronchudas, fulminado. Ó Frei Pedro, o abadágio é uma tradição secular! Então quer que eu dê esse desgosto aos meus paroquianos?! Frei Pedro põe os olhos em alvo. Só este ano... O abade retoma o passeio, a fugir àquele raio que siderou o seu sossego, àquele apelo que o mói. Bom, bom, bom... Deixe lá isso comigo - diz, iluminado pela disposição de esfolar a paróquia. - Cá me arranjarei para que haja peditório para o Lourenço. E abadágio. 

 

 

Álvaro Guerra – Razões de Coração (1991)
Coleção Mil Folhas PÚBLICO (2002)

 

 

 

 

30.05.19

O Banqueiro Anarquista


Cecília

Nunca o português tem uma acção sua, quebrando com o meio, virando as costas aos vizinhos. Age sempre em grupo, pensa sempre em grupo. Está sempre à espera dos outros para tudo.

Somos incapazes de revolta e de agitação. Quando fizemos uma “revolução” foi para implantar uma coisa igual ao que já estava. Manchámos essa revolução com a brandura com que tratámos os vencidos. E não nos resultou uma guerra civil, que nos despertasse; não nos resultou uma anarquia, uma perturbação das consciências. Ficámos miseravelmente os mesmos disciplinados que éramos.

Trabalhemos ao menos – nós, os novos – por perturbar as almas, por desorientar os espíritos. Cultivemos, em nós próprios, a desintegração mental como uma flor de preço. Construamos uma anarquia portuguesa.

 

Fernando Pessoa

 

 

in https://antigona.pt/collections/5-euros/products/o-banqueiro-anarquista

18.04.19

a manha teimosa


Cecília

Nem os sessenta anos de domínio castelhano puderam domar a manha teimosa que tem aguentado Portugal como Estado de geografia absurda. O episódio francês será passageiro. Devemos, portanto - diz ela - vergar como vimes em vez de nos erguermos como robles. Dom António admite intimamente que tal imagem faz jus a nobres e pueris sentimentos e, na sua paciente sageza, acha que o puro patriotismo da mulher é, além de ingénuo, conveniente. Como ter um filho a preparar guerrilhas, outro no exército real e um terceiro na roda do partido francês. O balanço dos interesses parece-lhe equilibrado, confortável. 

 

 

Álvaro Guerra – Razões de Coração (1991)
Coleção Mil Folhas PÚBLICO (2002)

 

 

 

 

04.04.19

o último


Cecília

Todo este aparato, este cerimonial meticuloso não são novos para nós. Desde que estou no campo, já tive de assistir a treze enforcamentos públicos; mas das outras vezes tratava-se de crimes comuns (...)

Hoje trata-se de outra coisa. 

No mês passado, um dos fornos crematórios de Birkenau foi mandado pelos ares. Nenhum de nós sabe (e talvez nunca ninguém venha a saber) exactamente como é que a iniciativa foi levada a cabo (...) 

O homem que irá morrer hoje diante de nós tomou parte de qualquer forma na revolta (...) todos ouvimos o grito do condenado; ele penetrou as espessas barreiras de inércia e de remissão, percutiu o centro vivo do homem dentro de cada um de nós:

- Kameraden, ich bin der Letzte! - (Camaradas, eu sou o último!)

Queria poder contar que entre nós, rebanho abjecto, uma voz se levantou, um murmúrio, um sinal de concordância. Mas nada aconteceu. Ficámos de pé, curvados e cinzentos, de cabeça baixa, e só descobrimos a cabeça quando o alemão o ordenou. O alçapão abriu-se, o corpo contorceu-se atrozmente; a banda recomeçou a tocar, e nós, de novo formados em coluna, desfilámos diante dos últimos estremecimentos do justiçado. 

Ao pé da forca, os SS olham com indiferença para nós que desfilamos: a sua obra está cumprida, e bem cumprida. Os russos podem chegar; agora, já não há homens fortes entre nós, o último pende por cima das nossas cabeças, e, para os outros, poucas forcas foram suficientes. Os russos podem chegar : apenas nos encontrarão a nós, os vergados, os apagados, dignos da morte inerme que nos espera. 

Destruir o homem é difícil, quase tanto quanto criá-lo; não foi fácil, não foi rápido, mas os Alemães conseguiram-no. Desfilamos dóceis, debaixo dos seus olhares: da nossa parte nada mais têm a recear: nem actos de revolta, nem palavras de desafio, nem sequer um olhar de condenação. 

 

Primo Levi – Se Isto É Um Homem (1947)
Coleção Mil Folhas PÚBLICO (2002)

 

 

 

 

19.07.18

intelectual com bolsos


Cecília

isso é bom para burgueses decadentes. Eu sou um intelectual do povo, estás a ver? A minha única parte capitalista são os bolsos. O resto é completamente de esquerda. 

 

 

Afonso Cruz - Jesus Cristo Bebia Cerveja (2012)

Penguin Random House (2016)

 

 

 

 

25.04.18

revolução e flores


Cecília

O que os homens e as mulheres fazem uns aos outros está para além da compreensão. 

 

Charles Bukowski in Bebedeira De Longa Distância - Música para Água Ardente (1983)

Antígona (2015)

 

 

 

 

 

 

10.04.18

zapata


Cecília

Quiero morir siendo esclavo de los principios, no de los hombres.

 

Emiliano Zapata Salazar

(San Miguel Anenecuilco, 8 de agosto, 1879 — Chinameca, 10 de abril, 1919)

 

 

 

Welcome to Tijuana
Tekila, sexo y marihuana
Welcome to Tijuana
Con el coyote no hay aduana

 

 

 

16.10.17

maciça inconveniência


Cecília

Este livro cínico e despudorado revela uma ousadia que bem se pode qualificar de desafio às Autoridades, pois que abertamente as ataca, e apresenta textos em que todos os assuntos indesejáveis são largamente exibidos.

Assim, faz abertamente propaganda comunista, achincalha com diatribes dissolventes a Família, a ordem social e a religião católica, é escrito com linguagem desbragada, tem passagens da mais baixa obscenidade, ilustrações imorais, e, tão maciça é a sua inconveniência, que ocioso se torna fazer citações.

Acresce que anuncia as obras já proibidas do mesmo autor e a próxima continuação de uma delas.

Julgo portanto que este livro não pode deixar de ser proibido de circular no País.

 

O leitor:

José de Sousa Chaves

Maj.

 

 

 

Vilhena – Branca de Neve e os 700 anões  (1962)

Edição fac-símile, A Bela e o Monstro Edições / Rapsódia Final, Unipessoal lda (2014)

 

 

 

 

 

23.09.17

Porto - Aveiro


Cecília

Na manhã do dia 7 de Maio de 1829, na então chamada Praça Nova, actual Praça da Liberdade, dez cidadãos portugueses subiram ao patíbulo, para cumprirem uma cruel sentença que os condenara a morrer na forca. Alguns meses depois, em Outubro daquele mesmo ano, mais dois patriotas morreriam, pelo mesmo processo e no mesmo local. São os mártires da liberdade cuja memória o Porto venera, num sarcófago, onde se guardam os seus restos mortais, e recorda, perpetuamente, nas placas de duas artérias que se situam em locais diferentes da cidade, mas não muito distantes uma da outra: o Campo dos Mártires da Pátria, mais vulgarmente conhecido pela Cordoaria, e a Rua dos Mártires da Liberdade (...) Depois de ter jurado, em 1826, a Carta Constitucional que D. Pedro, então imperador do Brasil, outorgara naquele mesmo ano à Nação, D. Miguel, um mês depois desse juramento, dissolveu as Cortes e fez-se aclamar rei absoluto. Logo a seguir mandou publicar um decreto convocatório das cortes tradicionais de que saiu aclamação oficial. No Porto, a aclamação de D. Miguel como rei absoluto ocorreu no dia 29 de Abril de 1828, na Casa da Câmara. Claro que os liberais não gostaram, e a 16 de Maio seguinte revoltaram-se para defender a Carta Constitucional e os legítimos direitos de D. Maria II, em quem o pai, D. Pedro, abdicara do direito ao trono de Portugal. Costuma chamar-se a este movimento a « Revolução do Porto ». Mas o seu a seu dono: a Revolução Liberal de 16 de Maio de 1828 eclodiu, de facto, no Porto, mas começou em Aveiro, tendo por principal mentor e impulsionador o desembargador Joaquim José de Queirós, que era avô do escritor Eça de Queirós.

 

 

Germano Silva e Lucília Monteiro – Porto, a Revolta dos Taberneiros e Outras Histórias (2004)

Editorial Notícias (maio 2004)

 

 

 créditos imagem: https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/5/59/Dom_Pedro_IV_P%C3%A7_Liberdade_Porto.jpg

 

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