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Nariz de cera

anotações e apontamentos que dizem tudo - de, por e para mim - por si mesmos.

Nariz de cera

anotações e apontamentos que dizem tudo - de, por e para mim - por si mesmos.

30.08.19

gente de pau


Cecília

O capitão de Intendência Octave Rigault tem uma verruga avantajada, na asa da narina direita. Esta contrariedade remedeia-a o artista facilmente, postando-se de forma a fixar o modelo a três quartos (...) 

O génio matemático que Raimundo tem diante de si e do cavalete está enroupado de gala, com muitas condecorações no lado esquerdo da casaca azul do uniforme. No rosto esquinado e magro, abundam os ângulos e, para além da verruga no nariz oculta pela posição de três quartos, não se lhe vislumbra nada de interessante (...) Aguenta quase três horas completamente imóvel e calado, inexpressivo, e nem uma ruga se divisa na roupa impecável. Raimundo experimenta a sensação estranha de estar a pintar um pau fardado. 

 

Álvaro Guerra – Razões de Coração (1991)
Coleção Mil Folhas PÚBLICO (2002)

 

 

 

04.07.19

L'alma dell'alma mia


Cecília

o único meio de sacudir tragédias e enfrentar desgraças é encará-las de frente e de coração ao alto. E, virando-se para o defunto no retrato, arranca a confirmação: Sabes bem, ó Sarmento, que sempre fui mulher de honra e de coragem! Se Deus te tragou nas ondas do mar, foi porque achou ser eu capaz de governar-me sozinha! 

 

Álvaro Guerra – Razões de Coração (1991)
Coleção Mil Folhas PÚBLICO (2002)

 

 

 

 

11.04.17

qual é melhor


Cecília

Se escrevo ou leio ou desenho ou pinto,
logo me sinto tão atrasado 
no que devo à eternidade,
que começo a empurrar pra diante o tempo 
e empurro-o, empurro-o à bruta
como empurra um atrasado,
até que cansado me julgo satisfeito. 
(Tão gémeos são
a fadiga e a satisfação!)
Em troca, se vou por aí
sou tão inteligente a ver tudo o que não é comigo,
compreendo tão bem o que não me diz respeito,
sinto-me tão chefe do que está fora de mim,
dou conselhos tão bíblicos aos aflitos de uma aflição que não 
        é minha,
que, sinceramente, não sei qual é melhor:
se estar sozinho em casa a dar à manivela da vida,
se ir por aí e ser Rei de tudo o que não é meu. 


José de Almada Negreiros, Momento de Poesia (Lisboa, novembro 1939)



Poemas Escolhidos José de Almada Negreiros - Assírio & Alvim | Porto Editora 2016

 

 

Almada Negreiros

 Retrato Clássico de Arlequim (1941)

 

 

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