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Nariz de cera

anotações e apontamentos que dizem tudo - de, por e para mim - por si mesmos.

anotações e apontamentos que dizem tudo - de, por e para mim - por si mesmos.

Nariz de cera

21
Abr22

saudades das vibes

Cecília

Imagine que é convidado a responder à seguinte pergunta: «Em que medida considera que as pessoas negras e as pessoas brancas em Portugal são muito diferentes, diferentes, semelhantes ou muito semelhantes no que se refere aos valores que ensinam aos filhos?» Imagine que seguidamente teria de responder à mesma questão, agora relativamente ao grau de preocupação que brancos e negros têm com o bem-estar das famílias, a religião, a educação das crianças, os comportamentos sexuais, etc. Esta questão foi objeto de estudo numa pesquisa, já citada, realizada nos anos 90, no quadro do Eurobarómetro. Os resultados mostraram que, quanto mais os respondentes acentuavam as diferenças culturais entre os cidadãos dos países inquiridos e os imigrantes de países não-europeus, considerando-os culturalmente muito diferentes, mais manifestavam racismo biológico e mais consideravam que os imigrantes - por exemplo, pessoas negras no caso de Portugal - eram incapazes de se adaptar à sociedade de acolhimento [...] à primeira vista acentuar ou exagerar as diferenças culturais não pareceria estar relacionado com racismo tradicional e discriminação. Contudo, os resultados são claros e têm mostrado consistência ao longo de 30 anos de pesquisa. A preocupação de Lévi-Strauss tinha razão de ser: a associação subtil entre diferença e inferioridade é prova disso.

 

Jorge Vala  – Racismo, Hoje, Portugal em Contexto Europeu (2021)

Fundação Francisco Manuel dos Santos, Jorge Vala (2021)

 

 

27
Mar22

não mexe, não respira

Cecília

«Terei sido denunciado», pensou, «apanhado em flagrante delito de ideias?», assim que ouviu a notícia da sua expulsão.

 

João de Melo – Gente Feliz Com Lágrimas (1988)

Colecção Mil Folhas / M.E.D.I.A.S.A.T. e Promoway Portugal Ltda (2002)

 

 

24
Mar22

vírus imortais

Cecília

Pertencente a uma faixa etária muito mais baixa, Marcelo sentiu directamente os efeitos da pandemia no campo profissional, ficando com esse lado virado do avesso. Estando a trabalhar sem contrato na área de restauração, hotelaria e turismo, era de esperar que à calamidade de saúde pública se juntasse a calamidade laboral, carregada de dificuldades. «Perdi o meu emprego no restaurante, nunca mais tive clientes na minha experiência da Airbnb... fiquei sem rendimentos e fui forçado a fazer uns extras na construção civil.» Um mundo novo e desconhecido, no qual entrou por necessidade [...] Passados estes meses, Marcelo dá voz a uma frustração que vai um pouco mais além das contrariedades ao nível do trabalho e do ganhar a vida de todos os dias. «O que me magoa mais neste processo é o agravar da desigualdade social que já existia antes desta covid-19.» Sem grandes perspectivas no futuro imediato, de uma coisa Marcelo está convicto: «A incerteza e o medo são os piores vírus da nossa sociedade.»

 

Pedro Vieira – Em que posso ser útil? (2021)

Fundação Francisco Manuel dos Santos e Pedro Vieira (2021)

 

 

22
Mar22

cassetes [que funcionavam]

Cecília

Em meados dos anos de 1990, quando era estudante e frequentava en passant as já referidas cadeiras de Marketing, costumava arriscar uma imitação tosca das intervenções sibilantes de Carlos Carvalhas, então secretário-geral do Partido Comunista Português, martelando as mesmas teclas que o Comité Central gostava de tocar à época: «O Governo destruiu o aparelho produtivo nacional, sacrificou a nossa agricultura, as nossas pescas e os mais importantes sectores industriais, tudo isto num cenário de dificuldades para os portugueses; eis-nos então perante um ministro das Finanças feito mestre-escola comunitário, a quem cabe distribuir o cacete, reservando a cenoura para o primeiro-ministro». Em suma, os critérios de Maastricht e as decisões políticas condenaram-nos a ser um país servil, de empregados de mesa, com um paninho de loiça pendurado no braço [...] (já a referência explícita ao cacete está documentada nas actas da Assembleia da República de 13 de Fevereiro de 1992), mas, enfim, percebe-se a ideia. Nessa altura, o país dava mesmo os primeiros passos em direcção a uma terciarização acelerada. 

 

Pedro Vieira – Em que posso ser útil? (2021)

Fundação Francisco Manuel dos Santos e Pedro Vieira (2021)

 

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in https://m.facebook.com/umempregadodemesatambemchora/

 

09
Mar22

free

Cecília

Foi aí que me apercebi da presença daqueles inimigos que mudam, mas que estão sempre ali; as forças contra as quais lutamos. É impensável deixarmo- -nos levar de forma passiva. 

 

Virginia Woolf – As Ondas (1931)

Colecção Mil Folhas / Bibliotex SL / M.E.D.I.A.S.A.T. e Promoway Portugal Ltda (2002)

 

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The Sin of Blindness

Caroline Jamhour

 

08
Mar22

8 de março x 365

Cecília

Na Nike, viveu um incidente com um cliente habitual, que numa ocasião apareceu transfigurado. «Era uma pessoa com dinheiro, que já tinha atingido vários talões GT [compras superiores a 500 euros], mas naquele dia apareceu com outra pessoa. Entrou com um gelado na loja e, como eu lhe disse que não podia comer lá dentro, começou a ser porco comigo. Mesmo. A dizer coisas obscenas, a chamar-me nomes, a convidar-me para sair com ele. Eu fui falar com o responsável de loja e disse que ia para o armazém. É por estas coisas que há sempre homens de serviço na loja, eles nunca querem que haja só turnos de raparigas à noite.» Mais uma vez houve recurso à equipa de vigilantes do centro comercial, e os clientes GT acabaram por sair. Mas passaram o resto da noite a passear-se em frente à loja, para a frente e para trás, numa atitude de desafio. «Até que, passado um pouco, passaram à nossa porta com uma prostituta. Claramente, era uma prostituta. Não sei que sentido é que aquilo fez. Acho que foi só para mostrar.» Nesse dia, à conta do nervosismo, o responsável de loja acabou por levar Vanessa a casa de automóvel, contornando uma hipotética espera a saída do turno.

 

Pedro Vieira – Em que posso ser útil? (2021)

Fundação Francisco Manuel dos Santos e Pedro Vieira (2021)

 

in https://casadeimagem.com/dia-internacional-da-mulher/

 

04
Mar22

futuro[s] assassinado[s]

Cecília

Talvez que a vida não responda ao tratamento que lhe damos quando a seu respeito falamos.

 

Virginia Woolf – As Ondas (1931)

Colecção Mil Folhas / Bibliotex SL / M.E.D.I.A.S.A.T. e Promoway Portugal Ltda (2002)

 

 

in https://www.youtube.com/channel/UC7fWeaHhqgM4Ry-RMpM2YYw/community?lb=Ugkx-hJH2LtxRA_XG9RiezzS4qBFsLeoM7Fo

 

17
Fev22

estado da n[eg]ação

Cecília

Um bom exemplo de que esta crença na superioridade natural de uns grupos relativamente a outros está viva e é partilhada por um número significativo de europeus encontra expressão no facto de cerca de 30% desta população acreditar que «algumas raças ou grupos étnicos nascem menos inteligentes do que outros» e também que «nascem mais trabalhadores do que outros», segundo dados do Inquérito Social Europeu (European Social Survey 7, 2014-2015) [...] Portugal, a Estónia e a República Checa são os países onde um maior número de pessoas expressou adesão à crença de que há, por natureza, grupos inferiores e grupos superiores quanto às características que definem os humanos. Ou seja, Portugal encontra-se entre os países que manifestaram um índice de racismo mais elevado. Por sua vez, a Suécia, a Holanda e a Noruega são os países onde menos pessoas manifestam de forma aberta adesão a essas mesmas crenças [...] Todavia, estes dados mostram também que o racismo está longe de ser hoje uma ideologia consensual na Europa, como o foi antes da II Guerra Mundial. Hoje, estas crenças não são partilhadas pela maioria dos Europeus e são objeto de debate público e político.

No que respeita a Portugal, os resultados apresentados podem parecer surpreendentes e são difíceis de aceitar pelas elites políticas, por comentadores ou redes intelectuais, mas são dados que já haviam sido anunciados num inquérito publicado em 1999 e num outro de 2011. Neste último estudo, comparou-se Portugal com outros oito países europeus. De novo com base em amostras representativas, perguntávamos, entre outros indicadores, qual o grau de concordância com a seguinte frase: «Algumas raças são mais dotadas do que outras.» Os resultados obtidos evidenciam que na Alemanha, em França, no Reino Unido, na Holanda e em Itália menos de 50% dos inquiridos expressaram concordância com aquele indicador de racismo. Em Portugal, na Polónia e na Hungria essas percentagens crescem para valores iguais ou superiores a 50% [...] Muito importante, os inquiridos [...] também mostram disponibilidade para discriminar ou aceitar a discriminação racial em diversos planos da vida social e política, como a oposição à entrada de imigrantes percebidos como tendo outra raça, na oposição a leis antirracistas ou a opção por critérios etnicistas na seleção de imigrantes.

Mais recentemente, já em 2019/2020, o European Social Survey - Portugal voltou a diagnosticar a crença dos Portugueses na «superioridade natural de umas raças ou grupos étnicos relativamente a outros». Usando as  mesmas proposições do European Social Survey 7, recorreu-se agora não a uma escala de resposta dicotómica (sim/não), que poderia ter produzido enviesamentos nas respostas anteriores, mas a uma escala que ia de «totalmente de acordo» a «totalmente em desacordo», permitindo uma gradação dos graus de acordo e desacordo. Os resultados obtidos, agora apenas em Portugal, confirmam os estudos precedentes: mais de 40% dos inquiridos partilha a crença na superioridade natural de «umas raças relativamente a outras», ou seja, expressam racismo biológico.

 

Jorge Vala  – Racismo, Hoje, Portugal em Contexto Europeu (2021)

Fundação Francisco Manuel dos Santos, Jorge Vala (2021)

 

 

25
Jan22

(da importância de ouvir boa música)

Cecília

Em vários dos seus estudos, um entrevistador apresentava a crianças negras, entre os 3 e os 7 anos, duas bonecas, uma branca e outra negra. Depois, o entrevistador pedia à criança que escolhesse e lhe entregasse «a boneca com que gostaria de brincar»; a seguir, «a boneca que é bonita»; «a boneca que tem uma cor bonita»; «a boneca que é feia»; «a boneca que se parece contigo», etc. As crianças manifestavam ser sensíveis à cor e saber nomear a sua cor. Cerca de dois terços das crianças indicaram que a boneca que se parecia com elas era a boneca negra, embora um terço tenham declarado que a boneca branca era a que se parecia com elas. Mais de metade das crianças negras disseram que a boneca com que preferiam brincar era a boneca branca, que esta era a boneca bonita e que tinha uma cor bonita. Em consonância, mais de metade disseram que a boneca feia era a boneca negra. Uma análise dos resultados por idades permitiu aos autores proporem que a idade crucial para a interiorização da inferiorização racial ocorria entre os 4 e os 5 anos de idade. Estes resultados assumem um significado muito importante, pois revelam que as crianças interiorizam desde cedo as mensagens de inferiorização veiculadas pelo contexto social.

Os estudos dos Clark não tiveram grande impacto científico na altura, mas os resultados obtidos foram fundamentais para o testemunho que os Clark elaboraram para o Supremo Tribunal dos EUA sobre os efeitos da segregação racial nas escolas americanas e, subsequentemente, para a argumentação e decisão deste Tribunal, que aboliu a segregação em 1954 [...] Aqueles estudos constituíram o principal fundamento para o Supremo Tribunal concluir que a segregação racial na escola era prejudicial ao desenvolvimento harmonioso e ao bem-estar das crianças negras e que os contactos entre crianças de cor diferente no contexto escolar poderiam conduzir a relações sociais mais igualitárias e a um melhor desenvolvimento pessoal.

 

Jorge Vala – Racismo, Hoje, Portugal em Contexto Europeu (2021)

Fundação Francisco Manuel dos Santos, Jorge Vala (2021)

 

 

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