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Nariz de cera

anotações e apontamentos que dizem tudo - de, por e para mim - por si mesmos.

Nariz de cera

anotações e apontamentos que dizem tudo - de, por e para mim - por si mesmos.

a barreira que une

Cecília, 21.08.20

Se o Raimundo, o pai dele, não lhe tivesse dado biberões de vinho, talvez fosse um homem como outro qualquer (...) 

Tudo isso podia ter acontecido se o pai não se tivesse intrometido entre ele e os seus objectivos. Era a sua ideia de que a beber leite o filho não se fazia um homem que o tinha condenado a viver daquela forma. Mas esse ódio não era de agora. Já em pequeno sentia que ele era o empecilho que não o deixava ter uma vida melhor. Desejava que ele não existisse, mas logo a seguir fechava as mãos e fazia força para contrariar esses sentimentos.

«O pai merece perdão». pensava. «O pai merece perdão.»

Era uma coisa má, aquilo que sentia. E ele sabia disso. Tinham-lhe ensinado que era preciso amar o próximo porque os homens eram todos irmãos. Percebia que isso criava uma barreira entre o bem e o mal, entre o que se podia e o que não se podia fazer em benefício de todos. 

 

Hugo Mezena – Gente Séria (2017)

Planeta Manuscrito (2018)

 

 

 

sóbria fusão

Cecília, 16.07.20

Sóbrio o teu corpo me pede 

penetração: nomes puros:

os de boca, braços, mãos

sobre a terra e sobre os muros.

 

Sóbrio o teu corpo me pede

nomes justos, nomes duros:

os de terra, fogo e punhos,

claros, acres, escuros. 

 

António Ramos Rosa in ANIMAL OLHAR - Obra Poética I

Assírio & Alvim (2018)

 

 

living poem

Cecília, 05.06.20

(...)

porque queres viver

o sol que desejas 

(...)

é ele que te conduz

a si mesmo

*

Espero que ele me invente

onde e aqui eu estou

de novo a respirar

a folha imaginada

(...)

Esta aventura vale?

Não podes desistir

dizer que nada vale

se o nada mesmo enfrentas

 

António Ramos Rosa in O NASCIMENTO DO POEMA - Obra Poética I

Assírio & Alvim (2018)

 

 

ovos mexidos

Cecília, 24.04.20

a luz da cozinha, os tubos fluorescentes de fabricar cegos quase a chegarem aqui juntamente com ruídos de gavetas, talheres, a porta do frigorífico numa espécie de sucção, um prato a bater nos outros ao ser tirado da pilha, uma voz nos antípodas

- Queres ovos mexidos?

os cliques do forno que não acende, acende, se apaga, acende de novo e o assobiozinho do gás, uma torneira aberta, uma torneira fechada, qualquer coisa que se parte

(acho que um pires)

o som de porta de armário e de objectos remexidos à procura do vasculho e da pá, do sapato a carregar na patilha do balde cromado onde se despejam cacos,

 

 

António Lobo Antunes – A Última Porta Antes da Noite (2018)

Publicações Dom Quixote (2018)

 

 

 

 

impaciente, cega

Cecília, 09.03.20

 

Alguém a viu sair, essa mulher descalça

que marcha ao longo do muro impaciente e cega? 

 

 

António Ramos Rosa in CICLO DO CAVALO - Obra Poética I

Assírio & Alvim (2018)

 

 

(tão bem) acordada

Cecília, 04.03.20

o que as mulheres engelham enquanto dormem senhores, se as mantivermos acordadas vinte anos sempre 

 

 

António Lobo Antunes – A Última Porta Antes da Noite (2018)

Publicações Dom Quixote (2018)

 

 

 

não parar

Cecília, 06.02.20

- Não pares não pares

a pedirmos um ao outro

- Não pares

e prometo que não paramos 

- Não paro

não iremos parar, nunca iremos parar porque é agora, palavra, é agora, não sentes que é agora e nós juntos, nós unidos, nós presos um ao outro, que bom, até ao fim do mundo. 

 

 

António Lobo Antunes – A Última Porta Antes da Noite (2018)

Publicações Dom Quixote (2018)

 

 

 

ingenuidade matemática

Cecília, 21.01.20

Escrever sobre Lorde B provocou em mim grande melancolia. Lamento imenso nunca lhe ter dito que o amava, porque a minha ingenuidade me fazia pensar que o coração só pode amar uma vez. Percebo agora que amei três pessoas, que esses três amantes eram muito diferentes uns dos outros e que cada um ocupa um lugar diferente no meu coração. Mercy, Lorde B. E o maior e menos mobilado espaço do meu coração é o do amor que sinto por si. Tem nele pouco mais que uma cama. Como é estranho que lhe tenha oferecido a parte de leão do meu coração quando fez tão pouco para o merecer, e sabendo eu tão pouco de si. 

 

Wray Delaney - Memórias de Uma Cortesã  (2016)

Quinta Essência, Oficina do Livro (2017)