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Nariz de cera

anotações e apontamentos que dizem tudo - de, por e para mim - por si mesmos.

Nariz de cera

rolou, rolará


Cecília

21.02.19

unânime sabor enorme das folhas que nas mãos

se enrolam frescas

somos quase a água de um segredo

 

como se nascêssemos

com os punhos rolados no mar

o solo até à boca

os ossos vivos no abraço 

 

In Perto do Mar

 

 

António Ramos Rosa - Obra Poética I 

Assírio & Alvim (2018)

 

 

 

 

na distância


Cecília

18.02.19

Todos te viram ninguém te viu e foi então que vi

eras tu não eras tu jamais e eras tu

e sem nome na tua boca sem tua boca

eu vivi na distância inerte e nu 

 

António Ramos Rosa - Obra Poética I 

Assírio & Alvim (2018)

 

 

 

la verdad no se esconde


Cecília

15.02.19

Ninguém ama outra pessoa pelas qualidades que ela tem, caso contrário os honestos, simpáticos e não fumantes teriam uma fila de pretendentes batendo a porta.

O amor não é chegado a fazer contas, não obedece à razão. O verdadeiro amor acontece por empatia, por magnetismo, por conjunção estelar.

Ninguém ama outra pessoa porque ela é educada, veste-se bem e é fã do Caetano. Isso são só referenciais.

Ama-se pelo cheiro, pelo mistério, pela paz que o outro lhe dá, ou pelo tormento que provoca.

Ama-se pelo tom de voz, pela maneira que os olhos piscam, pela fragilidade que se revela quando menos se espera.

 

Martha Medeiros

 

 

 

 

onde cabe a vida inteira


Cecília

13.02.19

Antes de apagar o candeeiro de cabeceira e se meter entre lençóis, com dois cobertores de lã a cobrirem-na, Mariana adivinhou os passos de Philipe a fazerem ranger o sobrado à beira do seu quarto, viu rodar a maçaneta da porta e arrependeu-se de a ter fechado à chave.

Todo o serão se esgotara em hesitações, instantes de abandono cortados por furtas receosas, decisões impulsivas refreadas por uma estúpida e sensata reflexão, pensamentos escondidos, sentimentos expostos. Nesse jogo da paixão, Philipe foi a claridade e Mariana a treva [...] Porque ela não se libertava do passado e do futuro e ele queria conquistar o presente onde cabia a vida inteira. 

 

Álvaro Guerra – Razões de Coração (1991)
Coleção Mil Folhas PÚBLICO (2002)

 

 

Man, I can understand how it might be
Kind of hard to love a girl like me
I don't blame you much for wanting to be free
I just wanted you to know
I loved you better than your own kin did
From the very start
It's my own fault for what happens to my heart
You see I've always known you'd go
But you just do what you gotta do
My wild sweet love
Though it may mean I'll never kiss your sweet lips again
Pay that no mind
Just find that dappled dream of yours
Come on back and see me when you can
Well, I know they make you sad
They make you feel so bad
They say you don't treat me like you should
Folks got ways to make you feel no good
I'd guess they've got no way to know
I've had my eyes wide open from the start
And boy, you never lied to me
And the part of you they'll never see
Is the part you've shown to me
So you just do what you gotta do
My wild sweet love
Though it may mean I'll never kiss those sweet lips again
Pay that no mind
Just find that dappled dream of yours
Come on back and see me
Come on back and see me when you can
 

 

invariavelmente


Cecília

07.02.19

disse a assistente, com um sorriso triste e cansado de quem trabalhava para pagar as propinas da faculdade, visto que os pais já não tinham posses para isso, de quem fazia turnos extra para conseguir mais algum para pôr numa conta poupança-habitação com o namorado, para se meterem numa casa assim que tivessem acabado os respectivos cursos e tivessem arranjado empregos que lhe dessem aquela segurança de que um casal em início de vida necessitava para se chegar ao balcão e pedir cem mil euros, a trinta e cinco anos, com taxa variável e indexada a uma coisa que eles não sabiam muito bem o que era, mas que era suficiente para lhes tirar muitas noites de sono. 

 

Ricardo Adolfo, Mizé - Antes galdéria do que normal e remediada

Alfaguara (2011)

 

 

 

Gold Digger


Cecília

28.01.19

- Ando a fazer escritórios e eles só querem que a gente vá limpar mais tarde.

- E vai de sacos e tudo?

- Não, isso não, apanho agora aqui o sete, desço lá ao pé de minha casa, ponho o comer no forno, deixo a mesa pronta para o marido e para os miúdos e depois vou, aquilo também é logo ali ao pé da estação.

- Deve custar, hã?

- Custa mais passar fome.

- Lá isso é verdade - disse a Mizé, que via ali mais um sinal de como aquelas não eram as pessoas com quem ela queria ter conversas de circunstância. Ela precisava de se rodear de quem a inspirasse, não de quem a deprimisse ainda mais. Ela precisava de desconhecidos com condutor particular, não de quem andava em transportes públicos. 

 

Ricardo Adolfo, Mizé - Antes galdéria do que normal e remediada

Alfaguara (2011)

 

 

 

 

 

 

 

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