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Nariz de cera

anotações e apontamentos que dizem tudo - de, por e para mim - por si mesmos.

Nariz de cera

anotações e apontamentos que dizem tudo - de, por e para mim - por si mesmos.

L'alma dell'alma mia


Cecília

04
Jul19

o único meio de sacudir tragédias e enfrentar desgraças é encará-las de frente e de coração ao alto. E, virando-se para o defunto no retrato, arranca a confirmação: Sabes bem, ó Sarmento, que sempre fui mulher de honra e de coragem! Se Deus te tragou nas ondas do mar, foi porque achou ser eu capaz de governar-me sozinha! 

 

Álvaro Guerra – Razões de Coração (1991)
Coleção Mil Folhas PÚBLICO (2002)

 

 

 

 

no tempo certo - fruto inteiro e maduro


Cecília

09
Mai19

Recomeça... se puderes, sem angústia e sem pressa e os passos que deres, nesse caminho duro do futuro, dá-os em liberdade, enquanto não alcances não descanses, de nenhum fruto queiras só metade.

 

Miguel Torga

 

 

frente a mis ojos estabas


Cecília

18
Mar19

Te amé sin que yo lo supiera, y busqué tu memoria. 

En las casas vacías entré con linterna a robar tu retrato. 

Pero yo ya sabía cómo era. De pronto 

mientras ibas conmigo te toqué y se detuvo mi vida: 

frente a mis ojos estabas, reinándome, y reinas. 

Como hoguera en los bosques el fuego es tu reino.

 

Pablo Neruda - Soneto

 

 

 

ver o espelho


Cecília

02
Mar19

Se sou amado,
quanto mais amado
mais correspondo ao amor.

Se sou esquecido,
devo esquecer também,
Pois amor é feito espelho:
-tem que ter reflexo.

 

Pablo Neruda

 

 

 

 

???


Cecília

01
Mar19

Não sei se isto é amor. Procuro o teu olhar,
Se alguma dor me fere, em busca de um abrigo;
E apesar disso, crê! nunca pensei num lar
Onde fosses feliz, e eu feliz contigo.

Por ti nunca chorei nenhum ideal desfeito.
E nunca te escrevi nenhuns versos românticos.
Nem depois de acordar te procurei no leito
Como a esposa sensual do Cântico dos Cânticos.

Se é amar-te não sei. Não sei se te idealizo
A tua cor sadia, o teu sorriso terno...
Mas sinto-me sorrir de ver esse sorriso
Que me penetra bem, como este sol de Inverno.

Passo contigo a tarde e sempre sem receio
Da luz crepuscular, que enerva, que provoca.
Eu não demoro o olhar na curva do teu seio
Nem me lembrei jamais de te beijar na boca.

Eu não sei se é amor. Será talvez começo...
Eu não sei que mudança a minha alma pressente...
Amor não sei se o é, mas sei que te estremeço,
Que adoecia talvez de te saber doente.

 

«Interrogação»

de

 

Camilo Pessanha

(7 de Setembro, 1867 — 1 de Março, 1926)

 

 

medição de tempos


Cecília

30
Jul18

Nas relações, o tempo comporta-se de maneira diferente. O único relógio que mede o passar destes tempos são os sentimentos. 

 

 

Afonso Cruz - Jesus Cristo Bebia Cerveja (2012)

Penguin Random House (2016)

 

 

 

 

inseguranças indiferentes


Cecília

13
Abr18

Apagaram-se as luzes. Ninguém conseguia dormir, mas todos tentaram. Eu nem me dei a esse trabalho. Eu estava sentado junto à janela e fiquei a olhar para a asa e para as luzes em baixo. Estava tudo organizado em belas linhas rectas. Ninhos de formigas. 

Deslizámos até ao aeroporto internacional de L.A. Ann, amo-te. Espero que o meu carro arranque. Espero que o lava-louça não esteja entupido. Estou contente por não ter fodido com uma groupie. Estou contente por não ser muito bom a meter-me na cama com mulheres estranhas. Estou contente por ser um idiota. Estou contente por não saber nada. Estou contente por não ter sido assassinado. Quando olho para as minhas mãos e vejo que ainda estão agarradas aos meus pulsos, digo a mim próprio: Tenho sorte. 

Desço do avião arrastando o sobretudo do meu pai e a mala dos poemas. A Ann veio ter comigo. Vi a cara dela e pensei, merda, eu amo-a. O que é que vou fazer? O melhor que podia fazer era mostrar-me indiferente e depois seguir com ela para o parque de estacionamento. Nunca devemos deixar que saibam que gostamos delas, senão, matam-nos. 

 

Charles Bukowski in Para Dentro E Para Fora E Por Cima - Música para Água Ardente (1983)

Antígona (2015)

 

 

 

 

intervalo de conflito


Cecília

27
Mar18

Chega-se a um ponto na vida intelectual em que se aprende enfim a distinguir o verdadeiro do falso, o possível do impossível, a ilusão da realidade. Contudo, entre essa época de iluminação e de discernimento, e a época da razão e da força, quando impiedosamente se subtrai à vida tudo o que seja sedutor e nocivo, dá-se um intervalo de conflito entre o saber e o poder; trata-se do período mais difícil e perigoso da existência humana. A experiência conduz ao conhecimento. A vontade conduz ao desprendimento. 

 

George Sand – Diário Íntimo

Antígona (2004)

 

 

 

 

objetos, acessórios, pretextos


Cecília

11
Mai17

A conclusão a que cheguei é de que a leitura é uma operação sem objecto; ou que o seu verdadeiro objecto é ela própria. O livro é um suporte acessório ou inclusivamente um pretexto.

 

 

Italo Calvino – Se Numa Noite de Inverno Um Viajante (1979)
Coleção Mil Folhas PÚBLICO (2002)

 

 

cecilia_a.jpg 

cecilia_b.jpgUm livro nunca deve ser deitado fora – há sempre que o possa ler pela primeira vez – mas, mesmo que esteja em mau estado e ilegível, há quem o consiga transformar noutro objecto. É o caso de Cecilia Levy, uma artesã sueca que pega nos livros e cadernos de banda desenhada em mau estado e

transforma-os em chávenas, copos, pires, pratos e tigelas.

Cecilia, que curiosamente já foi encadernadora, tem agora uma abordagem inversa à literatura. Ela arranca as páginas e une-as noutra forma. Para os amantes de livros este projecto pode ser um sacrilégio, mas mesmo esses não deixarão de admitir que o resultado final deste processo é interessante – mesmo que não seja especialmente prático.

 

in http://greensavers.sapo.pt/2017/05/07/como-transformar-livros-antigos-em-chavenas-copos-pires-pratos-e-tigelas/

 

 

  

cicatriz


Cecília

08
Fev17

Sim, cheguei a vê-la. Já a tinha avistado sob as camisas que ele usava mais transparentes do que ninguém, e obviamente que essa costura não me era indiferente - disse Eva Lopo. Claro que me seduzia o seu significado embora não me deixasse de seduzir o exagero da sua forma. Quanto ao significado, porém, eu e o noivo divergíamos como duas margens (...). O significado que eu lhe dava condensava-se num curto pensamento - quando  o capitão passava com a camisa transparente, eu imaginava estar a ver o último homem do século que se revisse na sua cicatriz. Hoje, como sabe, ou pela cirurgia plástica que recose e refaz, ou pela ameaça das coisas nucleares espalhadas por esse mundo, que descosem e desfazem logo tudo duma vez por todas, transportar uma cicatriz não constitui nenhum distintivo precioso. A cicatriz foi uma bela marca enquanto se lutou com uma arma de lâmina, de que as balas acabaram por ser o sucedâneo projéctil, e esteve por isso na base de grandes duelos, profundas admirações, redundantes amores. Depois, a meio do século, caiu. Até sem explicação, caiu. Como caiu o chapéu, o suspensório, o cinto-ligas. Assim desapareceu o significado das cicatrizes de guerra que se confundem completamente com os sinistros da estrada. 

 

 

Lídia Jorge – A Costa dos Murmúrios (1988)

Coleção Mil Folhas PÚBLICO (2002)