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Nariz de cera

anotações e apontamentos que dizem tudo - de, por e para mim - por si mesmos.

anotações e apontamentos que dizem tudo - de, por e para mim - por si mesmos.

inseguranças indiferentes

Apagaram-se as luzes. Ninguém conseguia dormir, mas todos tentaram. Eu nem me dei a esse trabalho. Eu estava sentado junto à janela e fiquei a olhar para a asa e para as luzes em baixo. Estava tudo organizado em belas linhas rectas. Ninhos de formigas. 

Deslizámos até ao aeroporto internacional de L.A. Ann, amo-te. Espero que o meu carro arranque. Espero que o lava-louça não esteja entupido. Estou contente por não ter fodido com uma groupie. Estou contente por não ser muito bom a meter-me na cama com mulheres estranhas. Estou contente por ser um idiota. Estou contente por não saber nada. Estou contente por não ter sido assassinado. Quando olho para as minhas mãos e vejo que ainda estão agarradas aos meus pulsos, digo a mim próprio: Tenho sorte. 

Desço do avião arrastando o sobretudo do meu pai e a mala dos poemas. A Ann veio ter comigo. Vi a cara dela e pensei, merda, eu amo-a. O que é que vou fazer? O melhor que podia fazer era mostrar-me indiferente e depois seguir com ela para o parque de estacionamento. Nunca devemos deixar que saibam que gostamos delas, senão, matam-nos. 

 

Charles Bukowski in Para Dentro E Para Fora E Por Cima - Música para Água Ardente (1983)

Antígona (2015)

 

 

 

 

intervalo de conflito

Chega-se a um ponto na vida intelectual em que se aprende enfim a distinguir o verdadeiro do falso, o possível do impossível, a ilusão da realidade. Contudo, entre essa época de iluminação e de discernimento, e a época da razão e da força, quando impiedosamente se subtrai à vida tudo o que seja sedutor e nocivo, dá-se um intervalo de conflito entre o saber e o poder; trata-se do período mais difícil e perigoso da existência humana. A experiência conduz ao conhecimento. A vontade conduz ao desprendimento. 

 

George Sand – Diário Íntimo

Antígona (2004)

 

 

 

 

objetos, acessórios, pretextos

A conclusão a que cheguei é de que a leitura é uma operação sem objecto; ou que o seu verdadeiro objecto é ela própria. O livro é um suporte acessório ou inclusivamente um pretexto.

 

 

Italo Calvino – Se Numa Noite de Inverno Um Viajante (1979)
Coleção Mil Folhas PÚBLICO (2002)

 

 

cecilia_a.jpg 

cecilia_b.jpgUm livro nunca deve ser deitado fora – há sempre que o possa ler pela primeira vez – mas, mesmo que esteja em mau estado e ilegível, há quem o consiga transformar noutro objecto. É o caso de Cecilia Levy, uma artesã sueca que pega nos livros e cadernos de banda desenhada em mau estado e

transforma-os em chávenas, copos, pires, pratos e tigelas.

Cecilia, que curiosamente já foi encadernadora, tem agora uma abordagem inversa à literatura. Ela arranca as páginas e une-as noutra forma. Para os amantes de livros este projecto pode ser um sacrilégio, mas mesmo esses não deixarão de admitir que o resultado final deste processo é interessante – mesmo que não seja especialmente prático.

 

in http://greensavers.sapo.pt/2017/05/07/como-transformar-livros-antigos-em-chavenas-copos-pires-pratos-e-tigelas/

 

 

  

cicatriz

Sim, cheguei a vê-la. Já a tinha avistado sob as camisas que ele usava mais transparentes do que ninguém, e obviamente que essa costura não me era indiferente - disse Eva Lopo. Claro que me seduzia o seu significado embora não me deixasse de seduzir o exagero da sua forma. Quanto ao significado, porém, eu e o noivo divergíamos como duas margens (...). O significado que eu lhe dava condensava-se num curto pensamento - quando  o capitão passava com a camisa transparente, eu imaginava estar a ver o último homem do século que se revisse na sua cicatriz. Hoje, como sabe, ou pela cirurgia plástica que recose e refaz, ou pela ameaça das coisas nucleares espalhadas por esse mundo, que descosem e desfazem logo tudo duma vez por todas, transportar uma cicatriz não constitui nenhum distintivo precioso. A cicatriz foi uma bela marca enquanto se lutou com uma arma de lâmina, de que as balas acabaram por ser o sucedâneo projéctil, e esteve por isso na base de grandes duelos, profundas admirações, redundantes amores. Depois, a meio do século, caiu. Até sem explicação, caiu. Como caiu o chapéu, o suspensório, o cinto-ligas. Assim desapareceu o significado das cicatrizes de guerra que se confundem completamente com os sinistros da estrada. 

 

 

Lídia Jorge – A Costa dos Murmúrios (1988)

Coleção Mil Folhas PÚBLICO (2002)

 

 

 

 

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