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Nariz de cera

anotações e apontamentos que dizem tudo - de, por e para mim - por si mesmos.

anotações e apontamentos que dizem tudo - de, por e para mim - por si mesmos.

Nariz de cera

11
Mai22

nunca nunca, não era?...

Cecília

Quando se sofre na idade de ser feliz, nunca mais se acredita na felicidade; nem como acaso, nem como recompensa.

 

Agustina Bessa-Luís – Fanny Owen (1979)

Colecção Mil Folhas / Bibliotex SL / M.E.D.I.A.S.A.T. e Promoway Portugal Ltda (2002)

 

 

21
Abr22

saudades das vibes

Cecília

Imagine que é convidado a responder à seguinte pergunta: «Em que medida considera que as pessoas negras e as pessoas brancas em Portugal são muito diferentes, diferentes, semelhantes ou muito semelhantes no que se refere aos valores que ensinam aos filhos?» Imagine que seguidamente teria de responder à mesma questão, agora relativamente ao grau de preocupação que brancos e negros têm com o bem-estar das famílias, a religião, a educação das crianças, os comportamentos sexuais, etc. Esta questão foi objeto de estudo numa pesquisa, já citada, realizada nos anos 90, no quadro do Eurobarómetro. Os resultados mostraram que, quanto mais os respondentes acentuavam as diferenças culturais entre os cidadãos dos países inquiridos e os imigrantes de países não-europeus, considerando-os culturalmente muito diferentes, mais manifestavam racismo biológico e mais consideravam que os imigrantes - por exemplo, pessoas negras no caso de Portugal - eram incapazes de se adaptar à sociedade de acolhimento [...] à primeira vista acentuar ou exagerar as diferenças culturais não pareceria estar relacionado com racismo tradicional e discriminação. Contudo, os resultados são claros e têm mostrado consistência ao longo de 30 anos de pesquisa. A preocupação de Lévi-Strauss tinha razão de ser: a associação subtil entre diferença e inferioridade é prova disso.

 

Jorge Vala  – Racismo, Hoje, Portugal em Contexto Europeu (2021)

Fundação Francisco Manuel dos Santos, Jorge Vala (2021)

 

 

11
Mar22

super bowl

Cecília

Ele diz: E havemos de nos recordar [...] Do desejo também. Ela diz: É verdade, do nosso desejo um do outro de que não fazemos nada.

 

Marguerite Duras – Olhos Azuis, Cabelo Preto (1986)

Colecção Mil Folhas / Bibliotex SL / M.E.D.I.A.S.A.T. e Promoway Portugal Ltda (2002)

 

 

20
Mai21

mute

Cecília

Silêncio do incontível, como

recusar a veemência

desta cegueira? [...]

Artérias vivas,

estrelas, relâmpagos,

jorrarão da obscuridade vermelha?

 

António Ramos Rosa in MEDIADORA DO MUTISMO - Obra Poética I

Assírio & Alvim (2018)

 

 

19
Mai21

Manuel (II)

Cecília

O resto são uns passeios, mas pouca conversa com os vizinhos, já que, diz o velho, com uma ponta de riso na voz: «Ainda gosto mais de estar sozinho. Há por aí muitas pessoas que se entretêm a ler o jornal da caserna, a falar da vida dos outros. Com essa gente, é bom dia, boa tarde, e mais nada.» Já quem vem de fora e quer ouvi-lo contar um pouco da sua história, é diferente. «Não é chatice nenhuma, para mim é um prazer. Ainda tenho pessoas que têm alguma consideração por mim e gostam de me vir ver.»

As visitas, entretanto, diminuíram de intensidade, bem como as ofertas. Mas Manuel teve a sua conta de donativos, levados até ali expressamente para ele, o que terá suscitado «a inveja» de outros moradores, ironiza [...] E, com o seu jeito descontraído, de quem conta histórias com facilidade, faz mais uma paragem no trajecto até casa, apoia-se no cajado e diz: «Eu de bola não percebo nada e já disse ao meu sobrinho: "Sabes o que dizia o meu avô? Todas as coisas que não me dessem lucro nem me dessem prejuízo não me deviam dar cuidado." Isso não te dá lucro nenhum e também não te dá prejuízo, estás com cuidado com a bola para quê? Não vale a pena preocupares-te com isso.»

 

Patrícia Carvalho – Ainda aqui estou (2018)

Fundação Francisco Manuel dos Santos e Patrícia Carvalho (2018)

 

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in https://www.publico.pt/2018/10/29/sociedade/noticia/ano-sr-francisco-1849174

 

09
Mai21

cinderelas arquivadas

Cecília

Sílvia descreve como encontrou a mulher sentada num banco gasto e com um monte de telhas novas, que os serviços da autarquia lá tinham deixado, à espera de serem colocadas no alpendre cuja cobertura fora consumida pelas chamas. Os homens trataram de pôr as telhas no sítio, mas não conseguiram satisfazer o pedido da mulher para que lhe arranjassem uns chinelos novos, porque ela calçava num pé o 35 e no outro o 37 [...]

«Nasci nesta casa velha e por aqui estou, até que venham os anos que Deus queira dar», diz Angelina, em jeito de introdução. Ouve muito mal, mas exprime-se bem e não gosta que a interrompam ou lhe cortem o raciocínio. A casa, em geral, não foi afectada pelas chamas - apenas um anexo ao lado, que está impecavelmente reconstruído, mas vazio, e o telhado do alpendre, que os homens de Esposende arranjaram. A habitação, escura, fria, sem chão acolhedor, com fios de electricidade à mostra e sem qualquer protecção do telhado abaixo da telha nua, ficou na mesma. Tão velha e necessitada de obras como estava antes do incêndio. Angelina pouco de lá sai, porque é preciso vencer uma escadaria em pedra que a velha mulher já quase não consegue descer ou subir.

Aos quatro anos, Angelina teve meningite e, depois disso, ficou com problemas numa perna. Melhorou ligeiramente aos 25 anos, depois de uma cirurgia - altura em que, segundo contara a Sílvia, calçou sapatos pela primeira vez -, mas nunca recuperou totalmente, e a idade e os problemas de circulação pioraram tudo. Nunca casou, facto que encara com naturalidade, replicando: «Então, aleijadinha, ia lá casar?»

 

Patrícia Carvalho – Ainda aqui estou (2018)

Fundação Francisco Manuel dos Santos e Patrícia Carvalho (2018)

 

 

15
Mar21

dar valor

Cecília

O que resta       recomeçar

com uma pedra 

 

O que eu movo 

 

      até

 

   onde não sei 

 

suspendo

e algo avança

                                         à minha frente 

 

 

A mão baixa 

 

                                       aranha de ar 

 

rápida   intranquila 

 

as armas que respiram 

 

o desejo      e a surpresa 

 

[...]

 

O brilho da palavra    igual ao brilho do silêncio 

 

[...]

 

 

O sol sobre os teus braços 

 

 

António Ramos Rosa in  DECLIVES  - Obra Poética I

Assírio & Alvim (2018)

 

 

18
Fev21

falta de ar

Cecília

O casamento de Clotilde estava marcado para 17 de dezembro de 1939, em Cabanas de Viriato, com receção e "copo-de-água" na Casa do Passal. Porque não antecipar para outubro o regresso a Portugal dos filhos, ficando apenas Aristides e Angelina em Bordéus, com José António para ajudar no consulado e Pedro Nuno para continuar as aulas na Faculdade de Direito de Bordéus? Decidido e feito. Fernanda Dias - a "petiza" ou Fernandita, a jovem criadinha - deixou um relato dessa viagem, numa entrevista publicada na revista do Expresso de 9 de novembro de 1996, assinada por Carlos Magno: «Fernanda viajava sentada entre o condutor e a sua esposa, Angelina, quando o carro, superlotado, capotou perto de Salamanca. Ao volante vinha Aristides de Sousa Mendes, nervoso, com o coração aos saltos e a alma no acelerador. Tinha de chegar rapidamente à fronteira portuguesa. Não queria que Salazar soubesse que ele se ausentara por três dias do seu posto consular / diplomático para pôr os filhos a salvo.» A "petiza" caracterizou o meu avô Aristides como «o mais justo e sofredor de todos os santos». Em contraste com esta admiração e amizade profunda de Fernandita a Aristides e Angelina, vem-me à ideia a senhora doutoranda da Universidade de Coimbra, já por mim citada, que se tivesse sabido deste episódio poderia muito bem ter dito: «Aristides, mais uma vez a prevaricar!»

Por um lado, temos um coração humano, simples e verdadeiro, por outro, temos um julgamento político e de carácter sob a capa de uma tese de doutoramento pela Universidade de Coimbra, com tese defendida em 2013, em que no último parágrafo se escreve a respeito de Aristides: «Estamos, portanto, diante de um funcionário prevaricador. Se bem que jamais se considerasse como tal.»

 

António Moncada S. Mendes – Aristides de Sousa Mendes, Memórias de Um Neto
Edições Saída de Emergência e António Moncada S. Mendes  (2017)

 

 

13
Out20

saber lembrar os méritos

Cecília

O editorial do TV Top diz: «Na nossa capa de hoje está a imagem de António Variações, que foi uma figura grande e popular da música portuguesa e morreu há poucos dias. Está a imagem de António Variações porque queremos prestar-lhe esta homenagem. [...] Mas não, note-se, porque queiramos participar na onda de especulações e mexericos que a morte de António Variações desencadeou. Não sabemos de que morreu António Variações, mas achamos que saber que doença tinha era importante enquanto o cantor vivia. Agora é mais altura de recordá-lo. De lembrar-lhe os méritos. 

 

Manuela Gonzaga – António Variações, Entre Braga e Nova Iorque (2018)
Manuela Gonzaga e Bertrand Editora (2018)

 

 

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