Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Nariz de cera

anotações e apontamentos que dizem tudo - de, por e para mim - por si mesmos.

Nariz de cera

anotações e apontamentos que dizem tudo - de, por e para mim - por si mesmos.

até que


Cecília

15
Mar19

... até que um dia 

já não terá sentido o amanhã.

 

 

Primo Levi – Se Isto É Um Homem (1947)
Coleção Mil Folhas PÚBLICO (2002)

 

 

 

 

foi a cerveja


Cecília

08
Ago18

Na mesa junto à janela virada para Poente, ensaia-se uma Última Ceia: a companhia de teatro arranjou doze apóstolos e um Cristo (...) De repente, a meio de uma dança, Borja caminha para a mesa onde se desenrola a Última Ceia e manda retirar o vinho, pois é um erro histórico. O Cristo está impávido, mas São João acha que não faz sentido e afasta o seu copo do alcance do professor, que começa a discursar:

- Ninguém sabe, caros Jesus Cristo e seus apóstolos, por que razão o homem se sedentarizou, já que está provado que ser nómada dá muito menos trabalho. Então porque sucedeu essa mudança radical? Muito simples, vou explicar-vos, queridos apóstolos e Nosso Senhor: foi a cerveja. Para ter cerveja era preciso cultivar. E assim nasceu a sociedade como a conhecemos. Graças à cerveja, temos hospitais e bibliotecas. Não existiriam livros se não fosse a cerveja. Não existiriam escritores nem ciência. Os nómadas não têm prisões nem conhecem o castigo, mas por outros lado não têm bibliotecas. Os nómadas não têm nada disto, porque andam de um lado para o outro e as prisões não podem ser transportadas, tal como as tipografias e os hospitais e as livrarias. E tudo isso se deve ao facto de alguns povos terem querido beber cerveja e, para isso, precisarem de se sedentarizar. No tempo de Cristo, no vosso tempo, andavam todos a beber cerveja. Na verdade, as bebidas alcoólicas confundiam-se entre si, pois era normal juntar frutos a bebidas de cereais e cereais a bebidas de frutos. Mas o que é certo é que o Egipto tinha inúmeras cervejeiras e exportava grandes quantidades para a Palestina. O que se bebia no espaço geográfico em que Cristo habitava era cerveja. O vinho era uma bebida de romanos, dos invasores. Cristo não iria beber a bebida dos ricos, dos opressores (...) mas a dos pobres, das putas e dos pecadores. Isso é que era a cerveja, um símbolo do povo. Jesus Cristo bebia cerveja, que sempre foi chamada de pão líquido, pois é verdadeiramente pão com água. 

 

 

Afonso Cruz - Jesus Cristo Bebia Cerveja (2012)

Penguin Random House (2016)

 

 

 

 

simpatia


Cecília

12
Abr18

Era Francine. Francine gostava de o impressionar. Francine gostava de pensar que o impressionava. Mas ela era um horror de tédio. Leslie pensava muitas vezes que era simpático da sua parte deixá-la aborrecê-lo como ela o aborrecia. Um tipo normal desligar-lhe-ia o telefone na cara como se fosse uma guilhotina. 

 

 

Charles Bukowski in Noite Fria - Música para Água Ardente (1983)

Antígona (2015)

 

 

 

arcas e caixas


Cecília

22
Mar18

Como os homens se mostrassem cada vez mais sórdidos, as mulheres mais desavergonhadas, e como aparecessem os primeiros sintomas de deliquência juvenil (É bem conhecido o caso de David, jovem «teddy-boy» que matou à fisga um venerável ancião chamado Golias) pensou-se, com exagerado optimismo, que a solução estava numa grande barrela.

Num longínquo dia de Outubro, à hora do almoço, (havendo o Serviço Meteorológico Nacional previsto tempo seco) abriram-se as celestes comportas e a água veio em tal abundância que os bombeiros registaram o maior número de chamadas de toda a sua história. Esta lavagem à escala universal destinava-se (como os leitores versados em textos sacros já perceberam) a fazer desaparecer da face da Terra a pouca vergonha, a podridão, os vícios e o genococos que então proliferavam à rédea solta. (Esquecia-se que, para lavar tais e tantas poucas vergonhas, a água, (mesmo com Tide) era insuficiente e o problema só podia ser resolvido a Napalm) [...] Só à custa da requintada imaginação dos redactores do Velho Testamento, foi possível conservar a seco, dentro de uma arca, um grande número de pessoas e animais própriamente ditos. Embora certos parágrafos bíblicos nos informem que eles foram escolhidos de entre o melhor comportados da Criação, estamos convencidos de que se tratava, sim, de indivíduos com muitas cunhas pois o ingresso na barcaça salvadora era pelo menos tão difícil como um lugar na Sacor ou na Fundação Gulbenkian. (Muitos leitores irão admirar-se como foi possível caber tanta espécie de animal dentro de uma arca. Lembrem-se, todavia, quantos hoje cabem numa caixa ainda mais pequena - de TV (...) Além disso nessa época o número de bestas era muito menos do que hoje em dia pois ainda não existia a publicidade comercial esse eficaz meio de animalização em massa). 

 

 

 

Vilhena – História Universal da Pulhice Humana (1960/1961/1965)
Edição Completa, Integral e Nunca Censurada dos Três Volumes Originais Pré-História / O Egipto / Os Judeus

Herdeiros de José Vilhena / SPA 2015, E-Primatur (2016)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

egoísmo bom


Cecília

27
Set17

Los lectores siempre se encuentran a sí mismos, de una forma o de otra, en un libro. Leer es un estímulo completamente egotista. Buscamos inconscientemente lo que nos dice algo.

 

 

David Foenkinos - La biblioteca de los libros rechazados (2016)
Titulo original: Le Mystère Henri Pick
Traducción de María Teresa Gallego Urrutia y Amaya García Gallego
Penguin Random House Grupo Editorial S.A.U. (febrero, 2017)

 

 

 

há uma linha que separa


Cecília

12
Abr17

Há uma linha de demarcação: de um lado estão os que fazem os livros, do outro os que os lêem. Eu quero continuar a ser das que os lêem, por isso tenho o cuidado de me manter sempre para cá dessa linha. Se não, o prazer desinteressado de ler acaba, ou pelo menos transforma-se noutra coisa, que não é o que eu quero. É uma demarcação imprecisa, com tendência para se desvanecer: o mundo dos profissionalmente ligados aos livros está cada vez mais povoado e tende a identificar-se com o mundo dos leitores. É certo que os leitores também são cada vez mais numerosos, mas dir-se-ia que os que usam os livros para produzirem outros livros crescem mais do que os que gostam de ler os livros e nada mais. Sei que se transpuser essa fronteira, mesmo ocasionalmente, por acaso, corro o risco de me confundir com esta maré que avança 

 

 

Italo Calvino – Se Numa Noite de Inverno Um Viajante (1979)
Coleção Mil Folhas PÚBLICO (2002)

 

 

 créditos imagem: http://indiqueumlivro.literatortura.com/wp-content/uploads/2014/12/great-place.jpg

 

 

 

enganos


Cecília

16
Fev17

Fui dar com ela no quarto a chorar, o telemóvel 

Atirado para um canto. Entre lágrimas, foi dizendo 

(E tem doze anos) que seu amigo decidira que deviam

Esperar. Sua mensagem: «Só o amor verdadeiro está

Por vir». É ténue a diferença (pensei) entre um galã 

E um filósofo. Mas ela, sobretudo, descobrira que os 

Novos instrumentos «mordem» tanto como os antigos, 

Salvo que muito mais depressa. A mentira vende. Para

A publicidade, na nova comunicação é impossível a má

Notícia. Por que não trocam com os jornais? 

 

 

Maria Gabriela Llansol - O Começo de Um Livro É Precioso
Assírio & Alvim (outubro 2003)

 

 

 

sonhei aos vinte anos durante três avé-marias
que eu tinha-me roubado a minha vida
depois de treler o monte dos vendavais
decidi ir contra a futilidade do romance

fui apanhado aos vinte e dois anos
em plena capicua inocente e rua
em amantíssima posse viral

a verdade apanha-se com enganos

aos vinte e três outonos apaixonei-me doze vezes
e nem sempre pelas mesmas almas
mas sobrevivi a um coração míope

 

A Verdade Apanha-se Com Enganos

A Naifa

(...)


Cecília

09
Fev17

A Cecília


as palavras tocam-nos como braços e dedos
murmuram como plátanos e choupos frondosos
Cecília, que tocou-me com sincera simpatia
sem ver-lhe o rosto, nunca

um calor embrulhado num pedaço de papel,
nas frases coloridas de silêncios e conversas
há arrepios que arrebatam e frases ditam
o sol em dias tristes

nunca um vício seja, antes seja prazer e gozo
como rosto colado à janela a ver se vem
assim mantive, hábito de criança que granjeara
infantil curiosidade.

vibraram em cada fibra, figura crepuscular
corri cortinas ao sol exterior, alheio a mim
devolvo a simpatia na imagem recíproca
de prazer imenso

 

edmund 

 

 

publicidade? sim, obrigada.


Cecília

07
Fev17

 

Vivemos num individualismo muito cru. As pessoas são levadas a acreditar que a promoção do conforto físico e das aparências é o que mais conta. Existe uma desvalorização do conforto afectivo e moral. Existe a ideia errada de que podemos ser felizes sozinhos ou, pior ainda, contra os outros.

 

José Luís Peixoto