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Nariz de cera

anotações e apontamentos que dizem tudo - de, por e para mim - por si mesmos.

Nariz de cera

anotações e apontamentos que dizem tudo - de, por e para mim - por si mesmos.

05.10.19

patriotismo de bancada


Cecília

Os patriotas são legião quando a pátria não pede que arrisquem o pêlo. 

 

 

Álvaro Guerra – Razões de Coração (1991)
Coleção Mil Folhas PÚBLICO (2002)

 

 

 

 

02.10.19

personalidade


Cecília

Em Lisboa António teve, pela primeira vez, a consciência pungente do abismo que separava as gentes da capital dos camponeses que aqui se apeavam atordoados. Tudo os denunciava, a começar pela própria ingenuidade, pelo espanto indisfarçável, sem falar na forma como se vestiam, andavam e falavam. Eram os alvos fáceis e recorrentes da troça citadina. «Ó patego, olha o balão.»

- O António quando cá chegou, foi trabalhar com uns primos (...) mas julgo que nunca abusaram dele, porque o António nunca se deixou enredar pelas pessoas. Sempre teve a personalidade bem vincada 

 

 

Manuela Gonzaga – António Variações, Entre Braga e Nova Iorque (2018)
Manuela Gonzaga e Bertrand Editora (2018) 

 

 

 

02.09.19

e aos costumes escreveu-se nada


Cecília

A escassez de estudos sobre a cultura e mentalidades na segunda metade do século XX, em Portugal (...)

 

 

Manuela Gonzaga – António Variações, Entre Braga e Nova Iorque (2018)
Manuela Gonzaga e Bertrand Editora (2018) 

 

 

 

30.05.19

O Banqueiro Anarquista


Cecília

Nunca o português tem uma acção sua, quebrando com o meio, virando as costas aos vizinhos. Age sempre em grupo, pensa sempre em grupo. Está sempre à espera dos outros para tudo.

Somos incapazes de revolta e de agitação. Quando fizemos uma “revolução” foi para implantar uma coisa igual ao que já estava. Manchámos essa revolução com a brandura com que tratámos os vencidos. E não nos resultou uma guerra civil, que nos despertasse; não nos resultou uma anarquia, uma perturbação das consciências. Ficámos miseravelmente os mesmos disciplinados que éramos.

Trabalhemos ao menos – nós, os novos – por perturbar as almas, por desorientar os espíritos. Cultivemos, em nós próprios, a desintegração mental como uma flor de preço. Construamos uma anarquia portuguesa.

 

Fernando Pessoa

 

 

in https://antigona.pt/collections/5-euros/products/o-banqueiro-anarquista

28.05.19

de perto


Cecília

Se vista de longe, Lisboa é uma bonita cidade, espalhada pelas colinas, iluminada pelo Sol que espreita em tímidas abertas pelos buracos das nuvens cinzentas, expondo os telhados avermelhados e os campanários das suas muitas igrejas, os picos dos Jerónimos apontados ao céu, os torreões da Sé, o zimbório da nova Basílica da Estrela, o vasto Terreiro do Paço aberto para o rio luminoso. Mas Philipe de Villepin considera que no encanto daquele casario empinado nas encostas que descem para o Tejo,  entre ruelas onde o sol não entra, mora uma gente heteróclita e encardida, roída por uma lepra medieval, em que abundam os pretos, os frades, os padres, os mendigos, os garotos descalços vagueando, as mulheres raras - diz-se que saem pouco com medo dos franceses encapotadas sob vestes escuras e embiocadas em lenços negros. Cães sarnentos farejam monturos, cabras à solta pastam nos lixos, catam-se piolhos na soleira das portas no caminho para o castelo, de onde a vista abrange finalmente uma grandeza de antiga metrópole dona de meio mundo que, vista de perto, mostra as chagas da decadência, da decrepitude, do atraso, da superstição. 

 

Álvaro Guerra – Razões de Coração (1991)
Coleção Mil Folhas PÚBLICO (2002)

 

 

 

 

13.05.19

convicções e baionetas


Cecília

Vai ao ponto de aconselhar prudência, ao menos esperar os pareceres da hierarquia, a palavra esclarecida do Bispo de Lisboa, do Inquisidor. A Santa Madre Igreja sempre soube conviver em paz com os governos, sempre colocou acima de tudo o sossego dos fiéis e o respeito das leis. Lérias - resmunga o abade de Ribamar. - Cá para mim, hereges que me invadam a casa estão a pedir é cachaporra nos lombos! É uma fanfarronada, mas sempre alivia. Teodósio cala-se, numa censura cautelosa, a depreciar a tendência trauliteira do pároco. Serão mais as vozes do que as nozes quando o abade vir uma baioneta apontada ao saco das tripas. 

 

Álvaro Guerra – Razões de Coração (1991)
Coleção Mil Folhas PÚBLICO (2002)

 

 

 

(...) durante a segunda invasão do Porto pelos franceses, no âmbito da Guerra Peninsular, o tenente-coronel Lameth, particularmente prestigiado entre as tropas de Napoleão, foi morto em Santiago de Riba-Ul numa emboscada liderada por Bernardo Barbosa Cunha, natural de Arrifana.

Foi em retaliação a esse ataque que o marechal Nicolas Soult - tio de Lameth - deu ordem às suas tropas para rumarem a Arrifana, onde, em 17 de abril de 1809, sob o comando do general Jean Guillaume Thomières, assassinaram 71 pessoas, entre as quais 62 arrifanenses que procuraram refúgio na igreja local (...)

"Dando cumprimento às ordens do marechal Soult, o general Thomières fez uma investida sobre Arrifana, exigindo que os assassinos fossem entregues para serem fuzilados e os respetivos cadáveres expostos" (...)

Perante o cerco do exército francês, acrescentou, "a população procurou refúgio no interior da igreja, que acabou por revelar-se uma ratoeira - os franceses obrigaram todos os homens válidos a saírem do templo, selecionando em seguida um em cada cinco para serem fuzilados no Campo da Buciqueira".

in https://www.dn.pt/lusa/interior/feira-recria-com-600-figurantes-o-massacre-de-arrifana-durante-as-invasoes-francesas-10828709.html

 

10.05.19

muita coisa vai e outra tanta que não fica


Cecília

O criado, de libré, calção de baeta e meia branca, vem anunciar que está lá fora o Raimundo, aprendiz do Convento. Dona Beatriz poisa o bastidor. Que o mande entrar para o vestíbulo. Quem é? - pergunta dom António, atrás da Gazeta de Lisboa de há três dias. O Raimundo da Anunciação, um rapaz de muito talento, ajudante de mestre Cyrillo, que nos pintou aquele fresco no coro da capela, vai para dois anos. 

Raimundo da Anunciação compôs quanto pôde o fato coçado, limpou da lama os sapatos cambados e as solas rotas vê-las-ia o chão se tivesse olhos. Dobra a magreza numa vénia angulosa e, com perdões pelo incómodo, atira-se à descrição das misérias, as suas e as dos outros três ajudantes da escola de artes que, aliás, já se preparam para abalar. Suas majestades partiram, como Vossa Excelência sabe, e deixaram por pagar mestres e ajudantes. Bem, os mestres foram para Lisboa, onde há sempre quem lhes encomende um retábulo, um retrato, seja quem for que por lá mande. Mas nós, minha senhora, estamos à esmola de uma sopa e temos à nossa guarda coisas preciosas, enfim, obras acabadas ou começadas por mestre Cyrillo, do Taborda, do Calisto, do Piolti, do Sequeira, do Machado de Castro, até uma escultura de mestre Giusti das últimas que fez antes de cegar (...) Muita coisa vai na carga dos barcos para o Brasil - acrescenta. - Até aqueles seis quadros sobre a conquista da Índia, mas não puderam levar tudo. 

 

Álvaro Guerra – Razões de Coração (1991)
Coleção Mil Folhas PÚBLICO (2002)

 

 

 

08.05.19

lx 1808


Cecília

O INTENDENTE GERAL

DA POLICIA

DO REINO DE PORTUGAL

Considerando o perigo que póde 

seguir-se da multidão de Cães

vagabundos, que girão pelas

ruas de Lisboa no tempo

dos grandes calores;

 

Considerando outrosim nos des-

agradaveis acontecimentos, que

dahi muitas vezes resultão, prin-

cipalmente de noite; e que os

seus ladros, ao mesmo tempo

que perturbão o socego dos Ha-

bitantes, advertem os Roubado-

res do seguimento da justiça,

ORDENA O QUE SE SEGUE:

(...)

VII. As cautélas prescriptas

para fornecer, nos tempos camo-

sos, agua aos Cães, para os pre-

servar da Hydrophobia, são ago-

ra renovadas, e confirmadas de-

baixo das penas existentes contra

os transgressores.

VIII. Os Regulamentos, que

prohibem conduzir Vacas e Ca-

bras pelas Ruas de Lisboa depois

das onze horas do dia, para se

mugirem ás portas das Casas, são 

igualmente renovados com as Mul-

tas, e Penas nelles mencionadas. 

IX. He igualmente prohibido

que se deixem vagar pelas Ruas,

e encruzilhadas Bois, Vacas, e 

Cabras sem Campainha, sob pena

de serem tomadas, e confiscadas

em beneficio dos Hospitaes. Aque-

les, que nestes casos as apanha-

rem, conduzillas-hão imediata-

mente ao Palacio da Intendencia

Geral da Policia do Reino (no

Rocío), onde receberão, se ti-

ver lugar, huma recompensa, ti-

rada do producto da venda. 

(...)

Lisboa, nove de Abril de 1808 

O INTENDENTE GERAL 

da Policia de Lisboa e do Reino de Portugal,

P. LAGARDE.

Dona Beatriz reponta contra a crueldade dos franceses. Dom António admite, sem o dizer, que Lisboa é uma estrumeira. E Henrique considera que os franceses não têm legitimidade para lhes darem ordens nenhumas. Talvez estejam os três cheios de razão. 

 

 

Álvaro Guerra – Razões de Coração (1991)
Coleção Mil Folhas PÚBLICO (2002)

 

 

 

18.04.19

a manha teimosa


Cecília

Nem os sessenta anos de domínio castelhano puderam domar a manha teimosa que tem aguentado Portugal como Estado de geografia absurda. O episódio francês será passageiro. Devemos, portanto - diz ela - vergar como vimes em vez de nos erguermos como robles. Dom António admite intimamente que tal imagem faz jus a nobres e pueris sentimentos e, na sua paciente sageza, acha que o puro patriotismo da mulher é, além de ingénuo, conveniente. Como ter um filho a preparar guerrilhas, outro no exército real e um terceiro na roda do partido francês. O balanço dos interesses parece-lhe equilibrado, confortável. 

 

 

Álvaro Guerra – Razões de Coração (1991)
Coleção Mil Folhas PÚBLICO (2002)

 

 

 

 

10.03.19

se


Cecília

a confusão decadente com que agora tentam cumprir as ordens cada vez mais insensatas do Imperador, enquanto cavalga para a retaguarda com um pequeno destacamento de cavaleiros, no caminho de Mação, à cata dos retardatários que se arrastam Debaixo de chuva, fazendo das espingardas bordões ou amontoados à matroca em carros de bois roubados nas quintas, de pés estrapados em farrapos sujos, entregues à exaustão e à fome. Se o rasto caótico daquela marcha tivesse acontecido em Espanha, poucos sobrariam para contar os padecimentos e teriam acabado na ponta das impiedosas facas toledanas. Aqui, o que quase os derrota é a aspereza das sendas, a pobreza dos povos, a chuva e a lama onde se atascam as batarias de artilharia e onde os infantes perdem as botas e o moral. Se, na caminhada para Lisboa, lhes aparecesse um exército minimamente preparado teriam conhecido um vexame ou um massacre, ou ambas as coisas. 

 

Álvaro Guerra – Razões de Coração (1991)
Coleção Mil Folhas PÚBLICO (2002)

 

 

 

 

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