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Nariz de cera

anotações e apontamentos que dizem tudo - de, por e para mim - por si mesmos.

Nariz de cera

anotações e apontamentos que dizem tudo - de, por e para mim - por si mesmos.

démographie comparée

28.07.21

Em 1940, Portugal contava com pouco mais de oito milhões de habitantes. Era uma sociedade muito rural, muito fechada, com muita pobreza. As pessoas conheciam, ou "reconheciam", quais eram as «boas famílias» e quais eram as famílias " a evitar". A nossa passou a ser reconhecida como fazendo parte dessa última categoria por razões políticas

 

António Moncada S. Mendes – Aristides de Sousa Mendes, Memórias de Um Neto
Edições Saída de Emergência e António Moncada S. Mendes (2017)

 

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in https://www.facebook.com/pg/acriadamalcriada/posts/

 

brandos costumes

21.07.21

A sociedade portuguesa de 1940 estava muito dividida no que dizia respeito aos seus sentimentos por Salazar. E ainda hoje, apesar da revolução de 1974, que permitiu ao país viver em democracia, a memória do ditador suscita ideias contraditórias em alguns sectores: há quem insista em perpetuar a memória de um Salazar "autoritário, mas bonzinho", pondo em dúvida que tenha, sequer, colaborado com o nazismo (nem mesmo de forma não consciente). Como se barrar o caminho da salvação a potenciais vítimas da perseguição e dos campos de concentração e da morte, só para dar um exemplo que me toca mais de perto, não fosse colaboração suficiente com o horror nazi...

 

António Moncada S. Mendes – Aristides de Sousa Mendes, Memórias de Um Neto
Edições Saída de Emergência e António Moncada S. Mendes (2017)

 

deus me proteja de mim
e da maldade de gente boa
da bondade da pessoa ruim
deus me governe, guarde
ilumine e zele assim
caminho se conhece andando
então vez em quando
é bom se perder
perdido fica perguntando
vai só procurando
e acha sem saber
perigo é se encontrar perdido
deixar sem ter sido
não olhar, não ver
bom mesmo é ter sexto sentido
sair distraído e espalhar bem-querer

Faixa do disco Francisco, forró y frevo (2008)

 

 

handcuffed western world

13.07.21

[...] um jogador negro do FCP, foi ruidosamente insultado por adeptos do Vitória. O insulto mais ouvido consistiu numa simulação de sons de macaco. [...] Esta associação a animais de pessoas percebidas como pertencendo a «raças» diferentes é comum naqueles que partilham crenças racistas ou um forte preconceito racial e o expressam de forma aberta. Os nazis associavam os judeus a ratos e baratas. No passado recente, também os tabloides ingleses retomaram estas expressões a propósito dos imigrantes subsarianos que tentam alcançar a Europa cruzando o Mediterrâneo. [...] o racismo continua hoje vivo [...] Importa, por isso, compreender os mecanismos que mantêm o racismo, seja de forma mais escondida ou mais manifesta, no quotidiano e no funcionamento das instituições. Esse objetivo implica analisar crenças, atitudes, sentimentos, normas sociais e funcionamentos institucionais que alimentam e legitimam o racismo, apesar da sua condenação pela democracia, pelos valores igualitários e pela liberdade, e apesar dos custos das desigualdades sociais que produz. 

 

Jorge Vala  – Racismo, Hoje, Portugal em Contexto Europeu (2021)

Fundação Francisco Manuel dos Santos, Jorge Vala (2021)

 

 

o-que-hão-de

08.07.21

No MNE não se tinha perdido tempo. Salazar, na qualidade de todo-poderoso ministro dessa pasta, tinha enviado, a 2 de julho, um telegrama (o 2139) para a embaixada de Portugal em Londres (ao embaixador Armindo Monteiro) fazendo uma atualização dos acontecimentos em Portugal: «Refugiados carácter político e intelectuais como aqueles a que se refere telegrama V.Exa. são dos menos desejáveis pelas atividades que hão de querer desenvolver

 

António Moncada S. Mendes – Aristides de Sousa Mendes, Memórias de Um Neto
Edições Saída de Emergência e António Moncada S. Mendes  (2017)

 

 

chega de diminuições

01.07.21

«Ninguém pode negar a humanidade do outro sem com isso diminuir a sua.»

James Baldwin, Nobody Knows My Name, 1961 

 

 

Jorge Vala  – Racismo, Hoje, Portugal em Contexto Europeu (2021)

Fundação Francisco Manuel dos Santos, Jorge Vala (2021)

 

 

as neutralidades de bom aluno (I)

24.06.21

a sua carta sem resposta dirigida ao Presidente da República. Essa carta, datada de 1 de setembro de 1945, numa altura em que o meu avô já teria tido o primeiro AVC e precisava que alguém lhe escrevesse os textos, foi ditada por ele a Gigi. É uma carta que reflete a situação de desespero em que vivia a família [...] O presidente Carmona, homem de armas e chefe das Forças Armadas portuguesas também teve receio de responder ao cônsul de Bordéus, e , prudentemente, preferiu reenviá-la a Salazar, em cujo "Arquivo Pessoal" foi encontrada pelo biógrafo do meu avô. 

 

António Moncada S. Mendes – Aristides de Sousa Mendes, Memórias de Um Neto
Edições Saída de Emergência e António Moncada S. Mendes  (2017)

 

 

só com um gato morto no focinho (termo tripeiro)

23.06.21

Os Médicos de Saúde Pública defendem que todo o país deve recuar no desconfinamento, para a fase em que está Lisboa.

“Pode levar à necessidade de colocar novas medidas ou até mesmo de parar o plano de desconfinamento, e recuar um passo. Se nós pusermos muitas medidas para Lisboa e Vale do Tejo e nenhumas à volta, os lisboetas vão, como é natural, pegar no seu carro e sair, meter-se no avião e ir para o Algarve ou para as ilhas. Para serem eficazes, as medidas têm que ser a nível nacional”, disse à Rádio Renascença o vice-presidente da Associação de Médicos de Saúde Pública, Gustavo Tato Borges.

“O país precisa de perceber que enquanto não estivermos todos no mesmo ritmo e na mesma onda, no continente, será difícil termos o Norte a desconfinar, Lisboa a confinar e o Centro no meio termo”, disse o especialista.

 

in https://multinews.sapo.pt/uncategorized/governo-pondera-travar-desconfinamento-em-todo-o-pais-saiba-as-medidas-que-podem-vir-ai/

 

 

deixem passar

16.06.21

Várias pessoas com quem contactei (algumas já falecidas), falaram-me desses momentos, inesquecíveis para quem os viveu. Como Henri Zvi Deutsch, jovem adolescente na altura, que me contou que os pais, fugidos da Alemanha, nem papéis tinham - com eles apenas traziam fé e esperança. Zvi Deutsch mencionou-me o tipo de vistos que vários autores consideram como únicos na história da diplomacia mundial e que o cônsul de Bordéus terá produzido às centenas. Tratava-se de um simples pedaço de papel onde Aristides (ou talvez um dos seus filhos) escrevia o seguinte texto: «O governo português pede às autoridades francesas e espanholas que deixem passar o portador, ou portadores, deste visto de trânsito temporário. Trata-se de um refugiado, ou refugiados, do conflito armado a decorrer na Europa, a caminho de Portugal.» 

 

António Moncada S. Mendes – Aristides de Sousa Mendes, Memórias de Um Neto
Edições Saída de Emergência e António Moncada S. Mendes  (2017)

 

 

reboques

14.06.21

A 1 de agosto de 1986, em Washington D.C., a câmara dos representantes do Congresso Federal dos Estados Unidos , dirige uma carta ao Presidente da República Portuguesa, Mário Soares:

«[...] Provavelmente, conhece o caso do Dr. Aristides de Sousa Mendes [...] que salvou 30 mil judeus e outros em 1940 [...] da invasão nazi. Estudiosos do Holocausto consideram-no como um dos maiores humanitaristas desse período negro da história [...] Nós exortamo-lo a reconhecer o gesto do Dr. Sousa Mendes e a honrá-lo de forma apropriada.» [...] A 9 de setembro de 1986, Mário Soares responde aos congressistas norte-americanos [...]: « A vida dramática do Dr. Aristides de Sousa Mendes e a necessidade de lhe fazer justiça pública já há muito tempo que se encontram no centro das minhas preocupações. [...] Assim, tenho o prazer de os informar que em reconhecimento do seu comportamento heroico [...] tenciono conceder-lhe uma alta condecoração portuguesa

 

António Moncada S. Mendes – Aristides de Sousa Mendes, Memórias de Um Neto
Edições Saída de Emergência e António Moncada S. Mendes (2017)

 

 

constelações

18.05.21

No princípio de junho de 1982, António Variações fez a primeira parte do espetáculo dos UHF, na Feira Popular, em playback, e sente-se «mais num ringue do que num palco» diante dos mais de cinco mil jovens que o vaiam e insultam. Apesar de tudo, consegue controlar a multidão, consideando que «valeu a pena, pois são sempre experiências necessárias». Na segunda parte, António Manuel Ribeiro, o carismático líder dos UHF, toma abertamente a sua defesa, e critica a multidão que está ali para o ver e ouvir a ele, dizendo-lhes: «António é uma das poucas pessoas deste País que tenta fazer uma coisa de novo na música portuguesa. Ele precisa de apoio, pois está a tentar formar uma banda e é coerente e corajoso.»

 

Manuela Gonzaga – António Variações, Entre Braga e Nova Iorque (2018)

Manuela Gonzaga e Bertrand Editora (2018)