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Nariz de cera

anotações e apontamentos que dizem tudo - de, por e para mim - por si mesmos.

anotações e apontamentos que dizem tudo - de, por e para mim - por si mesmos.

27.11.4

 Sem olhar para trás. Sem ver o céu azul, o calor a bater. O sol a brilhar, a faiscar nos frisos dos carros que passam. O vento suave, a música no rádio. Nada disso, nada dessa beleza quotidiana se manifestou. Porque a decisão já estava tomada. Ponderada. Aceite.

Quando isso acontece, um véu de cegueira cobre a cara do morto anunciado. Como uma droga, uma embriaguez que omite a verdade. Que omite o mundo real, aquele que passa ao lado do universo que nasceu na mente do suicida.

As razões por que a decisão foi tomada, são desconhecidas. Podíamos consultar todos os psicólogos de Portugal; todos os psiquiatras. Todos os médicos de todas as maleitas do homem podiam olhar para este relato. E nenhum deles podia dizer com ciência a razão por que (...) escolheu morrer (...)

A verdade é que a cada quarenta segundos uma pessoa morre no mundo. Em Portugal, há, oficialmente, três suicídios por dia. São 1.200 por ano.

 

in https://24.sapo.pt/atualidade/artigos/na-ponte-que-liga-as-duas-margens-de-um-pais-ha-quem-escolha-desligar-se-da-vida

 

 

maciça inconveniência

Este livro cínico e despudorado revela uma ousadia que bem se pode qualificar de desafio às Autoridades, pois que abertamente as ataca, e apresenta textos em que todos os assuntos indesejáveis são largamente exibidos.

Assim, faz abertamente propaganda comunista, achincalha com diatribes dissolventes a Família, a ordem social e a religião católica, é escrito com linguagem desbragada, tem passagens da mais baixa obscenidade, ilustrações imorais, e, tão maciça é a sua inconveniência, que ocioso se torna fazer citações.

Acresce que anuncia as obras já proibidas do mesmo autor e a próxima continuação de uma delas.

Julgo portanto que este livro não pode deixar de ser proibido de circular no País.

 

O leitor:

José de Sousa Chaves

Maj.

 

 

 

Vilhena – Branca de Neve e os 700 anões  (1962)

Edição fac-símile, A Bela e o Monstro Edições / Rapsódia Final, Unipessoal lda (2014)

 

 

 

 

 

retângulo dos pequenitos

Numa esplendorosa manhã de Verão, sob aquele sol com que Deus brinda o povo português com a ingénua intenção de o distrair de tanta miséria

 

 

 

Vilhena – Branca de Neve e os 700 anões  (1962)

Edição fac-símile, A Bela e o Monstro Edições / Rapsódia Final, Unipessoal lda (2014)

 

 

 

 

 

 

 

dias a sim

 

a crítica (...) expressa numa ausência de elogios

 

 

há pessoas que necessitam de um baloiço para o raciocínio

 

 

sempre me fizeram sonhar os comboios

 

 

 

me esqueci da professora mas as vírgulas ficaram, vírgula, segundo ela eram sempre úteis mesmo ao conversar

- Com uma pausazinha na altura certa fica tudo mais claro

 

 

 

muito se morre em Portugal de facto

 

 

o avô do meu marido a abrir a tampa do relógio do colete

- Nove horas

e a fechá-la num estalinho que lhe agradava, se lho emprestasse abria e fechava-o duzentas vezes porque lhe apetecia comer aquele som

 

 

 

apesar de estarmos no outono e uma chuvinha parva, dessa que não molha nem se sente, nos convida ao suicídio apenas, a vizinha triste, a minha mãe triste por contágio que a infelicidade pega-se

 

 

 

o som do pêndulo do relógio da sala, de dia quase mudo e à noite enorme porque no escuro tudo aumenta

 

 

 

não se falavam há anos que o tempo separa as pessoas e depois o esquecimento começa o seu trabalho

 

 

 

- Tenho cinquenta e nove anos caramba

tombaram-lhe como tijolos os cinquenta e nove anos em cima

 

 

 

até um grilo uma tarde na bancada que expulsei com um piparote para o quintal onde mais tarde ou mais cedo uma lagartixa o arrastaria por uma das patas na direcção de uma falha de muro, tudo come tudo neste mundo, é assim, até o mar devagarinho vai comendo os penedos, a nós come-nos a idade

 

 

 

por ser vasta era mais paciente, sempre nervosas, as magras

 

 

 

porque na vida não existem certezas e até Deus muda de humor

 

 

as pessoas são tantas dentro das pessoas que são

 

 

 

adivinhava que me miravam porque um peso em mim, sentimos sempre um peso quando nos olham

 

 

espanta-me que haja pessoas ingénuas capazes de acreditarem nas mentiras das ondas

 

 

 

há coisas que nos agradam ao princípio e o tempo torna sinistras

 

 

que pena as pessoas não se aceitarem como são

 

 

 

e eu calada a engolir-me a mim mesma, como é complicado engolirmo-nos a nós mesmos

 

 

 

derivado ao sol, levo esta luz, esta felicidade, esta paz (...) até nos dissolvermos na luz

 

 

 

António Lobo Antunes – Para Aquela Que Está Sentada No Escuro À Minha Espera (2016)
Publicações D. Quixote | Leya (2016)

 

 

ta(ma)ncos

Troc…  troc…  troc…  troc…

ligeirinhos, ligeirinhos,

troc…  troc…  troc…  troc…

vão cantando os tamanquinhos…

 

Madrugada.   Troc…  troc… 

pelas portas dos vizinhos

vão batendo, Troc…  troc… 

vão cantando os tamanquinhos…

 

Chove.  Troc…  troc…  troc… 

no silêncio dos caminhos

alagados, troc…  troc…

vão cantando os tamanquinhos…

 

E até mesmo, troc…  troc…

os que têm sedas e arminhos,

sonham, troc…  troc…  troc…

com seu par de tamanquinhos…

 

 

Cecília Meireles, A canção dos Tamanquinhos

 

 

 

 

 

 

portugal fica para depois e os portugueses também

 

Foste de verdade, não de feito, a voz de Portugal. 

(...)

A Portugal, a voz vem-lhe sempre depois da idade 

e tu quiseste acertar-lhe a voz com a idade

e aqui erraste tu,

não a tua voz de Portugal

não a idade que já era hoje. 

(...)

Tu levaste empunhada no teu sonho a bandeira de Portugal

vertical

sem pender pra nenhum lado 

o que não é dado pra portugueses.

Ninguém viu em ti, Fernando,

senão a pessoa que leva uma bandeira

e sem a justificação de ter havido festa. 

Nesta nossa querida terra onde ninguém a ninguém admira

e todos a determinados idolatram.

Foi substituído Portugal pelo nacionalismo 

que é maneira de acabar com partidos 

e de ficar talvez o partido de Portugal

mas não ainda apenas Portugal!

Portugal fica para depois

e os portugueses também 

como tu. 

 

José de Almada Negreiros, ODE A FERNANDO PESSOA
Poemas Escolhidos José de Almada Negreiros - Assírio & Alvim | Porto Editora 2016

 

 

madonna em lisboa *

porque os Portugueses nunca se denunciam na maneira de melhor servir a sua terra

 

almada - Lx. Abril 1922

 

 

Ainda não vi em Lisboa o Fassbender, a Madonna, o Cantona, muito menos a Belluci. Mas vi o Almada Negreiros na Gulbenkian.

@JoseDePina

José de Pina@JoseDePina

 

 * http://museudearteantiga.pt/exposicoes/madonna

ambivalência atávica

Sobre o acaso, a necessidade e o mérito 

1. Não sei se a natureza lusitana integra uma "cultura do fatalismo", mas sei sabemos todos que abundam, na história do pensamento e das outras artes nacionais, registos individuais e colectivos exemplares de um pendor generalizado e ambivalente: ora para a contemplação da vida como sucessão de fatalismos irremediáveis; ora como convocação para o afrontamento de desafios irrenunciáveis. 

Entre os polos desta ambivalência atávica se desenvolvem os comportamentos característicos da nossa matriz genética: a rendição ao desalento alimentado pela "força do destino", ou a motivação de contornos quase místicos (ou míticos?), que é fonte do potencial criativo, da determinação e da coragem para enfrentar os desafios mais exigentes. Dito de outro modo: a submissão às arbitrariedades do destino, que espelham as virtudes do acaso; ou o engenho e a determinação, que superam as carências de que é feita a necessidade. 

2. Tenho para mim que esta natureza "bipolar" do ser português é a chave para a compreensão de algumas singularidades do nosso comportamento histórico; mas é ainda, e sobretudo, o modelo a partir do qual poderia ser mais enriquecedor o exercício de pensarmos o nosso presente para melhor projectarmos o nosso futuro. 

Acontece que o raciocínio estratégico não é uma prática habitual, nem sequer ocasional, da nossa natureza. Somos muito melhores cronistas (ralatores do que foi) e demagogos (especulando acerca do que, e de como, outros deveriam ter feito) do que actores rsponsáveis pela construção, hoje, do futuro que é já amanhã - coisa entretanto bem diferente do que é sermos visionários: pecadilho mais oriundo da paixão que da lucidez. 

 

 

José de Oliveira Guia - Presidente da Direção da ANEME

in Editorial CINFormando nº 61 - 1º trimestre de 2017 

 

 

 

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