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Nariz de cera

anotações e apontamentos que dizem tudo - de, por e para mim - por si mesmos.

Nariz de cera

anotações e apontamentos que dizem tudo - de, por e para mim - por si mesmos.

das tripas, amor

07.06.21

A comida faz bem aos nervos e ao espírito. A coragem vem do estômago - tudo o resto é desespero. 

 

Charles Bukowski – Correios (1971)

Antígona (2015)

 

 

ter norte

14.05.21

Cláudia, uma professora de 45 anos, também nunca tinha feito qualquer acção de voluntariado até ao incêndio de 17 de Junho. Nessa altura estava de férias e diz que, depois de saber da calamidade que se abatera não muito longe de Abrantes, onde reside, andou «três dias muito vazia» até decidir que tinha de fazer alguma coisa. Também criou um grupo no Facebook, com o nome Corações Maiores, que, além dos moradores da zona de Pedrógão, apoiou pessoas do concelho de Mação, muito afectado pelos incêndios de 2017. «Éramos e continuamos a ser pouquinhos. Um grupo de pessoas da minha confiança, que foi em busca de bens recolhidos em espaços comerciais. O que conseguimos não é nada como se consegue lá no Norte», diz. 

 

Patrícia Carvalho – Ainda aqui estou (2018)

Fundação Francisco Manuel dos Santos e Patrícia Carvalho (2018)

 

 

lume aceso

05.05.21

O próprio «Chico Fininho» tinha surgido assim, com um desconhecido a cantar acompanhado à guitarra. Segundo António Duarte, «foi a Lena d'Água que me deu uma cassete, na Drogaria Ideal». E acrescentou: «se gostares passa, é de um amigo meu do Porto, chama-se Rui Veloso». 

 

Manuela Gonzaga – António Variações, Entre Braga e Nova Iorque (2018)
Manuela Gonzaga e Bertrand Editora (2018) 

 

 

 

sonho e memória

26.08.20

Acabada a escola, tinham à sua espera o complemento do trabalho familiar. Dar de comer ao gado, ajudar no campo, e mais e mais. Todos os dias. Os relatos sobrepõem-se e não chegam do fundo dos tempos. São frescos de uma arrepiante contemporaneidade:

- Lá em casa dividíamos uma sardinha por quatro. 

- Nós dividíamos uma sardinha por sete.

- Eu passei muita fome.

[...]

- Mas quando tocava a brincar, era uma alegria! Era tudo da nossa imaginação e do nosso engenho. Dançávamos, cantávamos, bailávamos. Foram tempos que ninguém sonha como eram. E, contudo, éramos alegres, divertíamo-nos com nada, construíamos os nossos brinquedos. Tristes das crianças de hoje a quem entregam tudo feito e não aprendem a sonhar. 

 

Manuela Gonzaga – António Variações, Entre Braga e Nova Iorque (2018)

Manuela Gonzaga e Bertrand Editora (2018)

 

 

 

cidade

10.03.20

detesto estar longe das cidades porque tudo me ameaça sob esta paz aparente, este falso sossego em que não acredito 

 

António Lobo Antunes – A Última Porta Antes da Noite (2018)

Publicações Dom Quixote (2018)

 

Porto-II.jpg

City of Porto / Oporto in Portugal

Rui Carruço

 

 

557.jpg

Casamento na Aldeia

Sarah Affonso

 

 

convicções e baionetas

13.05.19

Vai ao ponto de aconselhar prudência, ao menos esperar os pareceres da hierarquia, a palavra esclarecida do Bispo de Lisboa, do Inquisidor. A Santa Madre Igreja sempre soube conviver em paz com os governos, sempre colocou acima de tudo o sossego dos fiéis e o respeito das leis. Lérias - resmunga o abade de Ribamar. - Cá para mim, hereges que me invadam a casa estão a pedir é cachaporra nos lombos! É uma fanfarronada, mas sempre alivia. Teodósio cala-se, numa censura cautelosa, a depreciar a tendência trauliteira do pároco. Serão mais as vozes do que as nozes quando o abade vir uma baioneta apontada ao saco das tripas. 

 

Álvaro Guerra – Razões de Coração (1991)
Coleção Mil Folhas PÚBLICO (2002)

 

 

 

(...) durante a segunda invasão do Porto pelos franceses, no âmbito da Guerra Peninsular, o tenente-coronel Lameth, particularmente prestigiado entre as tropas de Napoleão, foi morto em Santiago de Riba-Ul numa emboscada liderada por Bernardo Barbosa Cunha, natural de Arrifana.

Foi em retaliação a esse ataque que o marechal Nicolas Soult - tio de Lameth - deu ordem às suas tropas para rumarem a Arrifana, onde, em 17 de abril de 1809, sob o comando do general Jean Guillaume Thomières, assassinaram 71 pessoas, entre as quais 62 arrifanenses que procuraram refúgio na igreja local (...)

"Dando cumprimento às ordens do marechal Soult, o general Thomières fez uma investida sobre Arrifana, exigindo que os assassinos fossem entregues para serem fuzilados e os respetivos cadáveres expostos" (...)

Perante o cerco do exército francês, acrescentou, "a população procurou refúgio no interior da igreja, que acabou por revelar-se uma ratoeira - os franceses obrigaram todos os homens válidos a saírem do templo, selecionando em seguida um em cada cinco para serem fuzilados no Campo da Buciqueira".

in https://www.dn.pt/lusa/interior/feira-recria-com-600-figurantes-o-massacre-de-arrifana-durante-as-invasoes-francesas-10828709.html

 

muita coisa vai e outra tanta que não fica

10.05.19

O criado, de libré, calção de baeta e meia branca, vem anunciar que está lá fora o Raimundo, aprendiz do Convento. Dona Beatriz poisa o bastidor. Que o mande entrar para o vestíbulo. Quem é? - pergunta dom António, atrás da Gazeta de Lisboa de há três dias. O Raimundo da Anunciação, um rapaz de muito talento, ajudante de mestre Cyrillo, que nos pintou aquele fresco no coro da capela, vai para dois anos. 

Raimundo da Anunciação compôs quanto pôde o fato coçado, limpou da lama os sapatos cambados e as solas rotas vê-las-ia o chão se tivesse olhos. Dobra a magreza numa vénia angulosa e, com perdões pelo incómodo, atira-se à descrição das misérias, as suas e as dos outros três ajudantes da escola de artes que, aliás, já se preparam para abalar. Suas majestades partiram, como Vossa Excelência sabe, e deixaram por pagar mestres e ajudantes. Bem, os mestres foram para Lisboa, onde há sempre quem lhes encomende um retábulo, um retrato, seja quem for que por lá mande. Mas nós, minha senhora, estamos à esmola de uma sopa e temos à nossa guarda coisas preciosas, enfim, obras acabadas ou começadas por mestre Cyrillo, do Taborda, do Calisto, do Piolti, do Sequeira, do Machado de Castro, até uma escultura de mestre Giusti das últimas que fez antes de cegar (...) Muita coisa vai na carga dos barcos para o Brasil - acrescenta. - Até aqueles seis quadros sobre a conquista da Índia, mas não puderam levar tudo. 

 

Álvaro Guerra – Razões de Coração (1991)
Coleção Mil Folhas PÚBLICO (2002)