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Nariz de cera

anotações e apontamentos que dizem tudo - de, por e para mim - por si mesmos.

Nariz de cera

anotações e apontamentos que dizem tudo - de, por e para mim - por si mesmos.

01.07.19

suavemente voraz


Cecília

Os dentes, porque são dentes,
iniciais. Na espuma,
porque não são saliva
estas ondas
pouco mordentes; este
sal que sobe quase
doce; donde?

Numa espécie
de fogo: amor é fogo
que arde sem se ver;
porque não é
de facto fogo este frio aceso;
da saliva à lava
passa pela espuma.

Só os dentes.
Duros, ácidos, concentram-se
tacteando a pele,
tatuando signos sempre
moventes
de fúria. Mordida
a pele cintila; espelho
dos dentes, do seu esmalte voraz;
suavemente.

 

Carlos de Oliveira, in 'Pastoral'

 

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Carlos de Oliveira

(10 de agosto de 1921 — 1 de julho de 1981)

 

26.06.19

passeata


Cecília

A pessoa, o lugar, o objeto
estão expostos e escondidos
ao mesmo tempo só a luz,
e dois olhos não são bastante
para captar o que se oculta
no rápido florir de um gesto.

É preciso que a lente mágica
enriqueça a visão humana
e do real de cada coisa
um mais seco real extraia
para que penetremos fundo
no puro enigma das figuras.

Fotografia – é o codinome
da mais aguda percepção
que a nós mesmos nos vai mostrando
e da evanescência de tudo,
edifica uma penanência,
cristal do tempo no papel.

Das luas de rua no Rio
em 68, que nos resta
mais positivo, mais queimante
do que as fotos acusadoras,
tão vivas hoje como então,
a lembrar como a exorcizar?

Marcas de enchente e do despejo,
o cadáver inseputável,
o colchão atirado ao vento,
a lodosa, podre favela,
o mendigo de Nova York
a moça em flor no Jóquei Clube,

Garrincha e nureyev, dança
de dois destinos, mães-de-santo
na praia-templo de Ipanema,
a dama estranha de Ouro Preto,
a dor da América Latina,
mitos não são, pois são fotos.

Fotografia: arma de amor,
de justiça e conhecimento,
pelas sete partes do mundo
a viajar, a surpreender
a tormentosa vida do homem
e a esperança a brotar das cinzas.

 

Carlos Drummond de Andrade - “Diante das Fotos de Evandro Teixeira”

 

 

Passeata dos Cem Mil

 

 

 

 

01.04.19

foi verdade neste dia


Cecília

 

 

António Mário Lopes Pereira Viegas

(Santarém, 10 de novembro de 1948 — Lisboa, 1 de abril de 1996)

 

 

Desiludido e revoltado decide encetar a carreira mais fácil, menos efémera e com reforma assegurada: PRESIDENTE DA REPÚBLICA de Portugal, Açores, Madeira, Macau e Timor-Leste.
As Sondagens dão-lhe 93,4% de intenção de voto.
Não sabe o que quer para o País, mas o País sabe o que quer dele!
Não quer ser o Presidente de todos os Portugueses!
Tem como Lemas da campanha a frase de Eduardo de Filippo:
“Os Actores vivem a sério no Palco, o que os outros na Vida representam mal”; e “Nesta Pátria onde a Terra acaba e o Mário começa!”.
Slogans da campanha:


“VIEGAS AMIGO ! O MÁRIO ESTÁ CONTIGO !!”

“MÁRIO SÓ HÁ UM ! O VIEGAS E MAIS NENHUM !”

“O MÁRIO QUE SE LIXE ! O VIEGAS É QUE É FIXE !”

 

in https://cineclubesantarem.wordpress.com/2011/11/06/biografia-de-mario-viegas-por-ele-proprio/

 

 

01.03.19

???


Cecília

Não sei se isto é amor. Procuro o teu olhar,
Se alguma dor me fere, em busca de um abrigo;
E apesar disso, crê! nunca pensei num lar
Onde fosses feliz, e eu feliz contigo.

Por ti nunca chorei nenhum ideal desfeito.
E nunca te escrevi nenhuns versos românticos.
Nem depois de acordar te procurei no leito
Como a esposa sensual do Cântico dos Cânticos.

Se é amar-te não sei. Não sei se te idealizo
A tua cor sadia, o teu sorriso terno...
Mas sinto-me sorrir de ver esse sorriso
Que me penetra bem, como este sol de Inverno.

Passo contigo a tarde e sempre sem receio
Da luz crepuscular, que enerva, que provoca.
Eu não demoro o olhar na curva do teu seio
Nem me lembrei jamais de te beijar na boca.

Eu não sei se é amor. Será talvez começo...
Eu não sei que mudança a minha alma pressente...
Amor não sei se o é, mas sei que te estremeço,
Que adoecia talvez de te saber doente.

 

«Interrogação»

de

 

Camilo Pessanha

(7 de Setembro, 1867 — 1 de Março, 1926)

 

 

16.04.18

seduções


Cecília

Alguns dos seus versos, se tomados em separado, pareciam ter força, mas quando eram considerados no seu todo, percebia-se que o Victor não estava a dizer nada (...) No entanto, a Vicki (...) como a maior parte das mulheres, facilmente se deixava seduzir por tolos

 

 

Charles Bukowski in Sujo Sofrimento - Música para Água Ardente (1983)

Antígona (2015)

 

 

 

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