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Nariz de cera

anotações e apontamentos que dizem tudo - de, por e para mim - por si mesmos.

Nariz de cera

anotações e apontamentos que dizem tudo - de, por e para mim - por si mesmos.

o século em que se vive

Seria preciso que estivéssemos todos toldados por uma credulidade imbecil (...) ou atulhados em vaidade como os nossos literatos modernos, para tomar assim um efeito por uma causa, e para nos deixarmos deslumbrar cegamente com o poder exercido por certos poetas sobre o século em que vivem, quando é mais natural, porém, que seja o século a exercer o seu poder sobre tais cérebros poéticos, e os force, como outrora Deus, a Pitonisa, a testemunhar, pelos gritos de dor e de cólera, o frenesi ou o desalento dos seus contemporâneos. 

 

 

George Sand – Diário Íntimo

Antígona (2004)

 

 

 

ópio Lee

O REMOTO REI DOS CORVOS,

Edgar Allan Poe,

deixa cair do seu bico,

no centro de uma biblioteca,

os restos de uma musa.

Cansados de tanta melancolia,

os ratos montam à sua volta um circo. 

 

«Annabel Lee», «Annabel Lee»,

guincham os bichos,

repartindo os ossos entre si.

 

Mostram os dentes,

esticam-lhe a pele.

Sabem que o poema

não tem outro precursor

a não ser a fome,

nem outro seguidor

a não ser o crime. 

 

Golgona Anghel 

 

 

Golgona Anghel in Como Uma Flor de Plástico Na Montra De Um Talho (2013)

Assírio & Alvim (2017)

 

 

 

 

 

 

asfixia devagar

TUDO O QUE NÃO É LITERATURA ABORRECE-ME - 

quixava-se um checo muito conhecido. 

As nossas vidas, aliás, deviam acontecer sempre no futuro,

onde, no fundo, sucedem todos os romances.

O nosso estilo teria a nitidez dos tratados científicos

e a força da descrição de uma batalha -

embora os críticos tentassem

transformar tudo isto num relatório criminal

ou no argumento para um filme de Domingo à tarde.

O Eduardo Prado Coelho era capaz de fazer isso. 

 

Mas é preciso fugir ao máximo dos museus de cera, 

perseguir os funcionários públicos do senso comum,

evitar que as mulheres feias tenham filhos. 

Aliás, é urgente matar toda a gente que tem fome.

Por isso, não me venhas com xaropes e bancos alimentares.

Não me trates as doenças.

Não levantes a mão.

Vem, vem apenas,

como as you are

- embora seja tarde. 

 

Vem para esta sala de baile com portas cheias de musgo

e vozes molhadas em tabaco.

Vem passar uma noite nos seus cantos húmidos

onde coronéis e generais

levantavam as saias à história.

 

Já tirámos os cavalos,

já limpámos as trincheiras. 

 

Vem ralar na minha pele arrepiada

a cor pálida da lua

como se fosse a casca de um limão. 

 

Vem sem falta - 

o palco está vazio,

a sala cheia. 

Com o passo lento das derrotas,

um macaco vestido de Shakespeare

conduzir-te-á até ao último acto. 

 

Golgona Anghel 

 

 

Golgona Anghel in Como Uma Flor de Plástico Na Montra De Um Talho (2013)

Assírio & Alvim (2017)

 

 

 

vivam e sejam

Vivam, apenas.

 

Sejam bons como o sol.

Livres como o vento.

Naturais como as flores.

 

Imitem as árvores dos caminhos

que dão flores e frutos

sem complicações.

 

Mas não queiram convencer os cardos

a transformar os espinhos

em rosas e canções.

 

E principalmente não pensem na Morte. 

Não sofram por causa dos cadáveres

que só são belos

quando se desenham na terra em flores.

 

Vivam, apenas.

A Morte é para os mortos! 

 

 

José Gomes Ferreira in Comício

 

 

 

José Gomes Ferreira – Poeta Militante I

Círculo de Leitores (2003)

 

 

civilização burguesa

(Ódio à civilização burguesa.)

 

Esta gente parece ter alma

porque a música está a tocar. 

 

 

José Gomes Ferreira in Cabaré

 

 

José Gomes Ferreira – Poeta Militante I

Círculo de Leitores (2003)

 

 

 

The Taxi Dancers of the Roaring Twenties had a hard job  

k. Madison Moore

 

aproveita o vento

Serão processados os aborrecidos;

ostracizados os coitados;

perseguidos os crentes;

fuzilados os fracos;

odiados os feios;

perdidas as esperanças.

 

Por ordem do autor. Contra a vontade de São Epifânio. 

 

 

Golgona Anghel in Como Uma Flor de Plástico Na Montra De Um Talho (2013)

Assírio & Alvim (2017)