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Nariz de cera

anotações e apontamentos que dizem tudo - de, por e para mim - por si mesmos.

Nariz de cera

rolou, rolará


Cecília

21.02.19

unânime sabor enorme das folhas que nas mãos

se enrolam frescas

somos quase a água de um segredo

 

como se nascêssemos

com os punhos rolados no mar

o solo até à boca

os ossos vivos no abraço 

 

In Perto do Mar

 

 

António Ramos Rosa - Obra Poética I 

Assírio & Alvim (2018)

 

 

 

 

na distância


Cecília

18.02.19

Todos te viram ninguém te viu e foi então que vi

eras tu não eras tu jamais e eras tu

e sem nome na tua boca sem tua boca

eu vivi na distância inerte e nu 

 

António Ramos Rosa - Obra Poética I 

Assírio & Alvim (2018)

 

 

 

ventania dentro


Cecília

18.01.19

Esqueçamos as palavras, as palavras: 

As ternas, caprichosas, violentas, 

As suaves de mel, as obscenas, 

As de febre, as famintas e sedentas. 

 

Deixemos que o silêncio dê sentido 

Ao pulsar do meu sangue no teu ventre: 

Que palavra ou discurso poderia 

Dizer amar na língua da semente? 

 

José Saramago - Finalmente Alegria 

 

 

364


Cecília

01.01.19

A tua marcha lenta enerva-me e satura-me

As constelações são mais rápidas nos céus 

a terra gira com um ritmo mais verde que o teu passo

Lá fora os homens caminham realmente

Há tanta coisa que eu ignoro

e é tão irremediável este tempo perdido

Ó boi da paciência sê meu amigo!

 

António Ramos Rosa - Obra Poética I 

Assírio & Alvim (2018)

 

 

 

passar à realidade


Cecília

15.10.18

Que o fosso da memória se transponha,

que seja a solidão atravessada!

Da cálida crisálida renasça

de novo para o corpo o corpo todo!

 

Venham as roucas sílabas da posse

no búzio dos ouvidos enroladas!

Sobre a teia das veias impalpáveis,

reconstrua-se a cúpula dos olhos!

 

Que tudo, tudo, súbito se emprenhe

da realidade que a lembrança apenas

em folha de álbum, ressequida, guarda!

 

Que eu vá de novo decorar-te a seiva,

como um poema líquido que seja

urgente recitar na eternidade!

 

 

 

 

David Mourão-Ferreira - Voto 

Tempestade De Verão (1954)

 

e neste mesmo instante


Cecília

25.06.18

Sou homem: duro pouco
e é enorme a noite.
Mas olho para cima:
as estrelas escrevem.
Sem entender compreendo:
Também sou escritura
e neste mesmo instante
alguém me soletra.

 

Octavio Paz

 

 

 

seduções


Cecília

16.04.18

Alguns dos seus versos, se tomados em separado, pareciam ter força, mas quando eram considerados no seu todo, percebia-se que o Victor não estava a dizer nada (...) No entanto, a Vicki (...) como a maior parte das mulheres, facilmente se deixava seduzir por tolos

 

 

Charles Bukowski in Sujo Sofrimento - Música para Água Ardente (1983)

Antígona (2015)

 

 

 

ópio Lee


Cecília

06.04.18

O REMOTO REI DOS CORVOS,

Edgar Allan Poe,

deixa cair do seu bico,

no centro de uma biblioteca,

os restos de uma musa.

Cansados de tanta melancolia,

os ratos montam à sua volta um circo. 

 

«Annabel Lee», «Annabel Lee»,

guincham os bichos,

repartindo os ossos entre si.

 

Mostram os dentes,

esticam-lhe a pele.

Sabem que o poema

não tem outro precursor

a não ser a fome,

nem outro seguidor

a não ser o crime. 

 

Golgona Anghel 

 

 

Golgona Anghel in Como Uma Flor de Plástico Na Montra De Um Talho (2013)

Assírio & Alvim (2017)

 

 

 

 

 

 

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