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Nariz de cera

anotações e apontamentos que dizem tudo - de, por e para mim - por si mesmos.

Nariz de cera

anotações e apontamentos que dizem tudo - de, por e para mim - por si mesmos.

passar à realidade

Que o fosso da memória se transponha,

que seja a solidão atravessada!

Da cálida crisálida renasça

de novo para o corpo o corpo todo!

 

Venham as roucas sílabas da posse

no búzio dos ouvidos enroladas!

Sobre a teia das veias impalpáveis,

reconstrua-se a cúpula dos olhos!

 

Que tudo, tudo, súbito se emprenhe

da realidade que a lembrança apenas

em folha de álbum, ressequida, guarda!

 

Que eu vá de novo decorar-te a seiva,

como um poema líquido que seja

urgente recitar na eternidade!

 

 

 

 

David Mourão-Ferreira - Voto 

Tempestade De Verão (1954)

 

seduções

Alguns dos seus versos, se tomados em separado, pareciam ter força, mas quando eram considerados no seu todo, percebia-se que o Victor não estava a dizer nada (...) No entanto, a Vicki (...) como a maior parte das mulheres, facilmente se deixava seduzir por tolos

 

 

Charles Bukowski in Sujo Sofrimento - Música para Água Ardente (1983)

Antígona (2015)

 

 

 

ópio Lee

O REMOTO REI DOS CORVOS,

Edgar Allan Poe,

deixa cair do seu bico,

no centro de uma biblioteca,

os restos de uma musa.

Cansados de tanta melancolia,

os ratos montam à sua volta um circo. 

 

«Annabel Lee», «Annabel Lee»,

guincham os bichos,

repartindo os ossos entre si.

 

Mostram os dentes,

esticam-lhe a pele.

Sabem que o poema

não tem outro precursor

a não ser a fome,

nem outro seguidor

a não ser o crime. 

 

Golgona Anghel 

 

 

Golgona Anghel in Como Uma Flor de Plástico Na Montra De Um Talho (2013)

Assírio & Alvim (2017)

 

 

 

 

 

 

asfixia devagar

TUDO O QUE NÃO É LITERATURA ABORRECE-ME - 

quixava-se um checo muito conhecido. 

As nossas vidas, aliás, deviam acontecer sempre no futuro,

onde, no fundo, sucedem todos os romances.

O nosso estilo teria a nitidez dos tratados científicos

e a força da descrição de uma batalha -

embora os críticos tentassem

transformar tudo isto num relatório criminal

ou no argumento para um filme de Domingo à tarde.

O Eduardo Prado Coelho era capaz de fazer isso. 

 

Mas é preciso fugir ao máximo dos museus de cera, 

perseguir os funcionários públicos do senso comum,

evitar que as mulheres feias tenham filhos. 

Aliás, é urgente matar toda a gente que tem fome.

Por isso, não me venhas com xaropes e bancos alimentares.

Não me trates as doenças.

Não levantes a mão.

Vem, vem apenas,

como as you are

- embora seja tarde. 

 

Vem para esta sala de baile com portas cheias de musgo

e vozes molhadas em tabaco.

Vem passar uma noite nos seus cantos húmidos

onde coronéis e generais

levantavam as saias à história.

 

Já tirámos os cavalos,

já limpámos as trincheiras. 

 

Vem ralar na minha pele arrepiada

a cor pálida da lua

como se fosse a casca de um limão. 

 

Vem sem falta - 

o palco está vazio,

a sala cheia. 

Com o passo lento das derrotas,

um macaco vestido de Shakespeare

conduzir-te-á até ao último acto. 

 

Golgona Anghel 

 

 

Golgona Anghel in Como Uma Flor de Plástico Na Montra De Um Talho (2013)

Assírio & Alvim (2017)

 

 

 

vivam e sejam

Vivam, apenas.

 

Sejam bons como o sol.

Livres como o vento.

Naturais como as flores.

 

Imitem as árvores dos caminhos

que dão flores e frutos

sem complicações.

 

Mas não queiram convencer os cardos

a transformar os espinhos

em rosas e canções.

 

E principalmente não pensem na Morte. 

Não sofram por causa dos cadáveres

que só são belos

quando se desenham na terra em flores.

 

Vivam, apenas.

A Morte é para os mortos! 

 

 

José Gomes Ferreira in Comício

 

 

 

José Gomes Ferreira – Poeta Militante I

Círculo de Leitores (2003)

 

 

civilização burguesa

(Ódio à civilização burguesa.)

 

Esta gente parece ter alma

porque a música está a tocar. 

 

 

José Gomes Ferreira in Cabaré

 

 

José Gomes Ferreira – Poeta Militante I

Círculo de Leitores (2003)

 

 

 

The Taxi Dancers of the Roaring Twenties had a hard job  

k. Madison Moore

 

puta a um canto

V

 

(À infalível prostituta, a um canto)

 

Se eu quisesse, tornava-te humana.

Fazia-te chorar

as lágrimas que trago em mim. 

 

E beijava-te a boca

a menina que ainda existe 

no fundo dos teus olhos. 

 

Mas não quero. 

 

Prefiro ver no teu corpo 

o desenho da minha indiferença.

E sentir-te na pele

tudo o que há de vil na minh'alma

- e já não cabe em mim. 

 

José Gomes Ferreira in Cabaré 

 

 

José Gomes Ferreira – Poeta Militante I

Círculo de Leitores (2003)

 

 

 

 

impulso da criação

- Qual é o seu conselho para os escritores jovens?

- Bebam, fodam, e fumem muitos cigarros. 

- Qual é o seu conselho para os escritores mais velhos?

- Se ainda estão vivos, não precisam do meu conselho. 

- Qual é o impulso que o leva a criar um poema? 

- O que é que te leva a cagar? 

 

 

Charles Bukowski in O Grande Poeta - Música para Água Ardente (1983)

Antígona (2015)