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Nariz de cera

anotações e apontamentos que dizem tudo - de, por e para mim - por si mesmos.

anotações e apontamentos que dizem tudo - de, por e para mim - por si mesmos.

pobreza panfleto

O Mulloch adorava os marginais, e acho que até adorava a pobreza. A partir das suas cartas, tinha ficado com a ideia de que o H.R. acreditava que a pobreza gerava pureza. Claro que isso é algo em que os ricos sempre quiseram que acreditássemos, mas isso é outra história. 

 

Charles Bukowski in Como Ser Publicado - Música para Água Ardente (1983)

Antígona (2015)

 

 

 

 

 Asamblea de la Hipocresía

Michael Cheval

 

 

zapata

Quiero morir siendo esclavo de los principios, no de los hombres.

 

Emiliano Zapata Salazar

(San Miguel Anenecuilco, 8 de agosto, 1879 — Chinameca, 10 de abril, 1919)

 

 

 

Welcome to Tijuana
Tekila, sexo y marihuana
Welcome to Tijuana
Con el coyote no hay aduana

 

 

 

a hipótese

O meu meio de transporte era um Comet de 62. A jovem da casa em frente sentia-se muitíssimo ofendida com o meu carro velho. Tinha de estacionar em frente à casa dela porque era uma das poucas zonas planas do bairro e o meu carro não arrancava em subidas. Mal pegava em terreno plano, pelo que eu ficava ali sentado, a bombar o acelerador e a carregar na ignição, e o som era nojento e contínuo. A mulher começava a gritar como se estivesse a enlouquecer. Era uma das poucas vezes em que eu sentia vergonha de ser pobre. Ficava ali sentado, a dar gasadas e a rezar para que o Comet de 62 arrancasse, ao mesmo tempo que tentava ignorar os gritos de raiva que saíam da casa dispendiosa. Bombava e bombava, o carro arrancava, andava alguns metros, e ia-se abaixo outra vez. 

« Tira esse chaço da frente da minha casa ou eu chamo a polícia!» Depois os longos gritos loucos. Por fim, ela saía, de quimono, uma jovem loura, linda, mas ao que parece, completamente louca. Corria até à porta do carro a gritar e um dos seios saltava para fora. Guardava-o e o outro seio saltava para fora. E depois uma perna espreitava pela racha do quimono. «Minha senhora, por favor», dizia-lhe eu, «estou a tentar».

Finalmente, conseguia pôr o carro a andar e ela ficava no meio da rua, com os dois seios de fora, a gritar: «Não voltes a estacionar aqui o carro, nunca mais, nunca mais, nunca mais!» Era em alturas como aquela que eu considerava a hipótese de procurar emprego. 

 

 

Charles Bukowski in Um Par de Gigolôs - Música para Água Ardente (1983)

Antígona (2015)

 

 

 

mar07021.JPG

 fonte imagem: http://www.roadhouserestorables.com/gpage36.html

 

 

mar

Um certo dia, chegou à aldeia o Tio Jaime Litorânio, que achou grave que os seus familiares nunca tivessem conhecido os azuis do mar. 

Que a ele o mar lhe havia aberto a porta para o infinito. Podia continuar pobre mas havia, do outro lado do horizonte, uma luz que fazia a espera valer a pena. Deste lado do mundo, faltava essa luz que nasce não do Sol mas das águas profundas. 

A fome, a solidão, a palermice do Zeca, tudo isso o Tio atribuía a uma única carência: a falta de maresia. Há coisas que se podem fazer pela metade, mas enfrentar o mar pede a nossa alma toda inteira. Era o que dizia Jaime. 

- Quem nunca viu o mar não sabe o que é chorar!

 

 

Mia Couto (texto) e Danuta Wojciechowska (ilustração) – O Beijo Da Palavrinha  (2008)
LEYA | CEM (março 2016)

 

 

 

 

 

 

 

antena afinada

Se quer ver o progresso duma cidade, vá aos bairros pobres - mas se quer ver a segurança de uma época, vá espreitar pelas grades dos bairros opulentos. Pobre duma terra quando começa a ser abandonada pelos ricos» - disse o jornalista. «O burguês rico é o único da espécie humana que tem a antena afinada para prever o derramamento de sangue sobre uma terra». 

 

 

Lídia Jorge – A Costa dos Murmúrios (1988)
Coleção Mil Folhas PÚBLICO (2002)

 

 

 

 

sanções e sermões

"(...) porque ele se tinha recusado nas suas instâncias senis a tomar qualquer determinação sobre o destino da pátria depois dele (...) e, no entanto, era tão lúcido e teimoso que não tínhamos conseguido nada dele (...) pois dizia que pensarmos no mundo depois de nós próprios era uma coisa tão nefasta como a própria morte que catano, se ao fim e ao cabo, quando eu morrer, hão-de voltar os políticos para repartir esta merda como no tempo dos godos, vocês vão ver, dizia, hão-de voltar a repartir tudo entre os padres, os gringos, e os ricos, e nada para os pobres, claro, porque esses hão-de estar sempre tão fodidos que no dia em que a merda tiver algum valor os pobres hão-de nascer sem cu (...)"

 

 

Gabriel García Márquez  – O Outono do Patriarca (1975)

 

Coleção Mil Folhas PÚBLICO (2002)

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