Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Nariz de cera

anotações e apontamentos que dizem tudo - de, por e para mim - por si mesmos.

Nariz de cera

anotações e apontamentos que dizem tudo - de, por e para mim - por si mesmos.

não à ventura (II)

Cecília, 11.09.20

Há um país na terra

que a mão tranquila alcança

 

Há um país onde o corpo

se veste com o corpo

da terra 

 

António Ramos Rosa in HÁ UM PAÍS NA TERRA QUE A MÃO TRANQUILA ALCANÇA  - Obra Poética I

Assírio & Alvim (2018)

 

proverbio_cigano_cachorro_acha_que_corre_por_que_c

 

fazer o mal com o bem

Cecília, 01.09.20

Ao ir embora, o padre disse que a mãe estava agarrada ao tio Carlos. Era ela quem o mantinha vivo. Era por estar sempre a pensar nele que o tio não partia. Mesmo enquanto não estava à cabeceira da cama, a mãe não parava de rezar [...] E durante todo aquele tempo em que se esgotara a fim de ajudar o tio, a minha mãe não tinha feito mais do que prejudicá-lo. 

«Não pode ser», pensava. «A mãe é boa. Era ela quem se levantava a meio da noite para ver se ele precisava de alguma coisa.»

A mãe estava do lado do bem. Mas era por ser tão boa que o sofrimento do tio não tinha acabado mais cedo. Tinha acabado de ser convertida numa pessoa desprezível por se ter esforçado tanto a fim de manter alguém vivo. 

 

Hugo Mezena – Gente Séria (2017)

Planeta Manuscrito (2018)

 

 

cenários requentados

Cecília, 22.07.20

Num cenário de miséria e escândalos de corrupção nos organismos corporativos, o descontentamento de Norte a Sul, do interior ao litoral, das cidades e às aldeias, era generalizado [...] Até a classe média, a «almofada do regime», se sentia esmagada e espoliada das suas pequenas regalias, a tal ponto que a crispação social se tornou quase insustentável. 

 

Manuela Gonzaga – António Variações, Entre Braga e Nova Iorque (2018)

Manuela Gonzaga e Bertrand Editora (2018)

 

 

gente assim ao de leve

Cecília, 13.07.20

A poucos metros, o Vila Galé, ocupado por gente com dinheiro para quartos de hotel e festas sunset, cuspia para a ruína. Ou, pior, parecia indiferente, sobranceiro ao sítio que, abandonado, vivia muito mais do que os capados que alugam suítes, bebem cocktails, fodem assim ao de leve e trabalham em matadouros de alma como a Deloitte ou a PWC. 

 

Afonso Reis Cabral – Pão de Açúcar
Publicações Dom Quixote (2018)

 

 

se só, não

Cecília, 01.07.20

- Falávamos mais das clientes, do que dos cabelos. Do feitio, da maneira de ser delas. Nós somos cabeleireiros, somos médicos e somos padres. É uma terapia. Antes era, pelo menos. Mas... é muito esquisito. As mulheres sabem perfeitamente quem nós somos, às vezes até nos contam a vida toda, mas na rua são capazes de não nos falarem. Fingem que não nos veem. Chegámos a encontrar clientes nossas no Pap'Açorda que, ali, faziam de conta que não nos conheciam. Gente supostamente educada, com apelidos sonantes. E nós, é claro, gozávamos imenso com isso. É óbvio que quando ele se tornou um artista conhecido, já faziam gala em conhecê-lo. Se só fosse cabeleireiro, não. 

 

Manuela Gonzaga – António Variações, Entre Braga e Nova Iorque (2018)

Manuela Gonzaga e Bertrand Editora (2018)

 

 

se, mas não é

Cecília, 30.06.20

Se os pecados fossem uma coisa simples, as pessoas só precisavam de deixar de os fazer. 

 

Hugo Mezena – Gente Séria (2017)

Planeta Manuscrito (2018)

 

 

em 1989, em 1992, em ...,

Cecília, 04.06.20

Em 1989, o quarteirão enfaixado entre a Avenida de Fernão de Magalhães, a Rua Abraços e a Rua da Póvoa abrigava umas quantas pessoas escondidas em prédios do século XIX. Sobreviviam nas cozinhas, nos quartos, nas salas, onde quer que os prédios dessem calor (...)

Nesse Inverno, os buldózeres executaram a ordem de despejo. Os que lá tinham ficado foram acordados pelos operadores que berravam «Fujam, a máquina é cega!». Deram com as paredes destruídas, as camas esmagadas, as molduras das fotografias partidas, conformaram-se e seguiram pelas ruas, uns de roupão, outros de casaco vestido à pressa. Em três dias ninguém se lembrava deles.

O empreiteiro queria construir em tempo recorde por medo de que a Câmara inventasse novas burocracias (...) Depois chegaram as retroescavadoras, que entregaram pazadas de entulho aos reboques dos camiões. E assim cavaram fundações com quinze metros de profundidade protegidas por taipais com placas que avisavam para o óbvio: perigo (...)

Era evidente que a Fernão de Magalhães não merecia o hipermercado pensado para aquele espaço. Veja-se os prédios em volta. Tudo feio, menos os azulejos antigos e o Vila Galé, a torre mais alta da cidade. Dito isto, cuspiam para o chão, concluíam «A vida é assim, o nosso Porto não aprende» (...)

As gruas ainda levantaram um torreão de cinco andares na fachada que dava para a avenida. E então soube-se. Em 1992, as obras pararam por imbróglio jurídico, excesso burocrático, corrupção ou falta de dinheiro, enfim, um dos cenários a que estamos habituados. 

 

Afonso Reis Cabral – Pão de Açúcar
Publicações Dom Quixote (2018)

 

longe... mas aqui

Cecília, 02.06.20

Num país velho, sem antiguidade pura

morre-se à míngua de uma palavra nova,

num país que soçobra e subsiste, longe,

longe, mas aqui. 

 

António Ramos Rosa in PARA RESPIRAR UM POUCO - Obra Poética I

Assírio & Alvim (2018)

 

 

a maneira

Cecília, 07.05.20

a maneira como as pessoas vivem quando julgam que não olham para elas sempre me surpreendeu, tudo aquilo que se esconde à vista 

 

António Lobo Antunes – A Última Porta Antes da Noite (2018)

Publicações Dom Quixote (2018)