Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Nariz de cera

anotações e apontamentos que dizem tudo - de, por e para mim - por si mesmos.

Nariz de cera

anotações e apontamentos que dizem tudo - de, por e para mim - por si mesmos.

xô = eu+eu

12.05.21

Meio pequeno, provinciano, deslumbrado. Como entender este ser extraordinário que desce a avenida da Liberdade com um chapéu colonial branco, a barba em bico, o queixo bem erguido e um papagaio de madeira em cores berrantes, empoleirado nos ombros? 

 

Manuela Gonzaga – António Variações, Entre Braga e Nova Iorque (2018)

Manuela Gonzaga e Bertrand Editora (2018)

 

 

reflexos certos

12.05.21

Luís Ribeiro e Maria Adosinda, o irmão e a cunhada, recordam o gozo que António punha em caricaturar algumas das suas clientes mais altivas, até por ter sentido na pele as barreiras sociais que o tinham marcado com o ferro em brasa do desprezo que os citadinos votavam aos rurais. Tinha 11 anos quando, vindo de Fiscal, Braga, desembarcara em Lisboa, mas os irmãos afirmam que, tanto tempo depois ele ainda «sofria com este tipo de coisas». Por outro lado, os relatos também referem, de forma unânime, o cuidado, o carinho, a gentileza que punha no trato com os idosos, e a forma como costumava dizer: «Toda a gente dá um beijinho e uma carícia a um bebé, mas esquecem-se dos idosos, que têm necessidades ainda mais importantes que uma criança, e ninguém lhes liga nenhuma». Era um homem calado, mas irónico, com um pendor satírico que poucos terão conhecido. Os irmãos e os amigos mais chegados recordam que ironizava muito com as coisas. E reagia, perante alguém que pensava que era superior a ele. 

 

Manuela Gonzaga – António Variações, Entre Braga e Nova Iorque (2018)

Manuela Gonzaga e Bertrand Editora (2018)

 

 

dos dois, um

07.05.21

Tudo antigo, tal como uma antiga barbearia. Na casa de banho havia um pequeno urinol enfeitado com um arranjo de flores de plástico [...]

Matilde Abreu lembra-se do seu próprio encantamento:

- Para mim, era tudo novidade absoluta. Tinha quinze anos, portanto imagine-se. António teria à volta dos trinta e cinco, trinta e oito anos, e nesses tempos, não pintava a barba. Era loiro dele. Pontualmente, fazia uma descoloração e cortava o cabelo muito curto [...] Como patrão era exigentíssimo, e tinha um feitio muito especial. Um feitio difícil. Ele achava que a pessoa, olhando, tinha obrigação de, logo a seguir, saber fazer [...]

E o António era assim com as pessoas com quem tinha uma relação mais forte e mais próxima. Mas com uma pessoa tão exigente ao lado, ou se aprende bem a lição e as coisas tomam um rumo, ou então é impossível. Por isso digo, com ele ou se ama ou se odeia. Comigo foi assim.

Lições de vida. Quando a carreira musical de Variações se começou a impor, Matilde foi ficando cada vez mais responsável pelo salão. Um dia, António tentou contratar uma aprendiza para as funções que ela própria desempenhara quando começara a trabalhar com ele. Então, Matilde recordou as frases sacramentais de António: você tem de se impor, porque o mundo só tem dois tipos de pessoas, os que mandam e os que se deixam mandar. Você não quer ser do segundo, pois não? Dizia-lhe estas e outras coisas num tom seco, por vezes quase sem expressão, e continuava a trabalhar, mas Matilde guardava tudo [...]

- Ainda hoje me lembro, como se o tivesse à minha frente. O tom de voz, a expressão dos olhos, os gestos: o mundo só tem dois tipos de pessoas, os que mandam e os que se deixam mandar. Você não quer ser do segundo, pois não? 

 

Manuela Gonzaga – António Variações, Entre Braga e Nova Iorque (2018)
Manuela Gonzaga e Bertrand Editora (2018)

 

barbearia.jpe

a8.jpg

 

 

 

conversa com poucos

06.05.21

Facilmente, passa-se do hedonismo à arrogância com que cada um vive e respira o ar do tempo:

- Havia aquela tontice de todos se acharem únicos, inimitáveis, importantíssimos, excelentes, de modo que só estavam aqui para ditar leis, - recorda Teresa Couto Pinto, que acrescenta: - Na verdade, éramos todos um pouco críticos e com certa intolerância. O António não, embora a seu modo também fosse elitista e seletivo. Costumava dizer: aceito toda a gente, mas isso não significa que tenham de vir todos à minha casa. Ou que tenha de ir beber copos com eles, porque não há paciência para lhes aturar a conversa. 

 

Manuela Gonzaga – António Variações, Entre Braga e Nova Iorque (2018)
Manuela Gonzaga e Bertrand Editora (2018)

 

 

 

+more+me

05.05.21

There were people on the sidewalks, many were young people with kids or strollers, and they all seemed to be talking to one another. This fact impressed him. How easily they took this for granted, to be with one another, to be talking! 

 

Elizabeth Strout – Olive, Again (2019)
Penguin Random House UK (2019)

 

 

judeias à beira mar plantadas (ou venenos II)

04.05.21

Presença ausente, intratável e carinhoso, dado a explosões repentinas e a silêncios densos, mas de coração lavado. Incapaz de guardar rancores, alimentar ódios, estimular querelas. Mas cheio de uma inquestionável autoridade que o levava a confrontar até o maior dos seus amores, a própria mãe. O facto é que toda a gente o respeitava muito. Até o pai.

- Mas se tivesses de dizer alguma coisa, dizia. Não ia lavar as mãos ao rio. Uma vez virou-se para a minha mãe, e disse-lhe, você é uma beata. O que anda você a fazer na igreja? É uma beata, isso é um beatismo. 

 

Manuela Gonzaga – António Variações, Entre Braga e Nova Iorque (2018)
Manuela Gonzaga e Bertrand Editora (2018)

 

 

conteúdos

04.05.21

- Tinha aquele ar de loucura, mas o aspeto dele em nada correspondia ao seu tipo de trabalho. Havia muitas clientes que iam para o António a pensar que iam ficar com os cabelos em pé e cortes ousadíssimos. Mas saíam do mais clássico que havia, tecnicamente bom, mas muito pouco ousado.

A escritora, poeta, guionista e atriz Rosa Lobato Faria (1932-2010) lembra-se muito bem de António Joaquim Ribeiro, futuro Variações. Era sua cliente no salão de Isabel Queiroz do Vale. Muitas vezes, quando chegava, estavam outros cabeleireiros sem trabalho, mas ele já tinha umas vinte pessoas à sua espera:

- Era muito especial. Tinha péssimo feitio, era trombudo, antipático e... fascinante. Uma pessoa dizia-lhe «eu quero isto ou aquilo» e ele respondia: «não quer nada, quem decide sou eu». Alguém avisava que estava com pressa e ele respondia «se está com pressa, vá-se embora». Eu fazia sempre questão de cortar o cabelo com ele, mas sentava-me e não abria a boca. Olhava-o pelo espelho e pensava «este ser não é daqui».

 

Manuela Gonzaga – António Variações, Entre Braga e Nova Iorque (2018)
Manuela Gonzaga e Bertrand Editora (2018)

 

 

brilhos certos e o elogio de brilhos errados

03.05.21

Maria Adosinda, a cunhada, conta:

- Olhava para a minha sogra, brilhavam-lhe os olhos. Ela adorava-o e ele tinha um cuidado muito especial com ela. 

No carro, dava-lhe sempre o lugar da frente. Ajudava-a a sentar-se, a levantar-se, dava-lhe o braço na rua. Mas se via uma dessas senhoras de nariz empinado e ar importante, dizia: Olha para aquilo, parecem mesmo umas peruas. Detestava as velhas da alta sociedade, porque não via nelas a sinceridade que se vê numa pessoa do campo, pobre, humilde... então, quando lhe aparecia uma cliente a dizer, eu gosto assim, mas o António que acha?, ele faria uma coisa correta. Mas se ela entrasse toda cheia de nove horas: Ai, eu isto, eu aquilo, assim não, quero tudo armado! ele exagerava tanto que ela saía do salão a parecer uma maluquinha. Depois vinha-nos contar e fartávamo-nos de rir. 

 

Manuela Gonzaga – António Variações, Entre Braga e Nova Iorque (2018)

Manuela Gonzaga e Bertrand Editora (2018)

 

corpo puro

23.04.21

Desce a dançarina exacta

 

até ao extremo da brancura 

[...]

Absoluta a suavidade sem espera 

[...]

o silêncio entre os corpos

 

 

António Ramos Rosa in   A PARTIR DO DESERTO - Obra Poética I

Assírio & Alvim (2018)

 

https://www.huffpost.com/entry/benjamin-millepied-racism-in-ballet_n_58666c5ce4b0d9a5945afb7a

In the documentary, Millepied talks at length about the racism he encountered at the historic Paris institution upon joining in 2014. “I heard someone say a black girl in a ballet is a distraction,” he recalls. “If there are 25 white girls, everyone will look at the black girl. Everyone must be alike in a company, meaning everyone must be white.”

“I have to shatter this racist idea,” he adds.

 

 

bemzinho fedorento

06.04.21

Para o capitão gostinho Lourenço, «o cônsul de Bordéus andava mesmo a pedi-las», e essas contas teriam de ser ajustadas, quanto mais cedo, melhor! A PVDE, entretanto, ia-se substituindo ao próprio MNE na decisão de atribuição de vistos, como o demonstra a comunicação da polícia política de 22 de abril de 1940, recebida a 23 do MNE: «Tem notado esta diretoria, de há uns tempos a esta parte, que os pedidos de judeus holandeses para virem para Portugal tomam um volume que não é de desprezar, atendendo à convulsão que agita a Europa. Por outro lado, os nossos serviços têm registado uma agitação por parte dos judeus, que nos tem feito tomar medidas rigorosas sobre a sua atividade. Nestes termos, rogo a V.Exa. que a bem do serviço público, os senhores cônsules na Holanda sejam avisados, para antes de pedirem autorização para visarem os passaportes, averiguarem bem se os indíviduos que desejam vir são ou não judeus, a fim de se evitar a entrada em Portugal de indivíduos dessa qualidade. A bem da Nação. Lisboa, Secretaria-Geral da Polícia de Vigilância e Defesa do Estado. 22 de abril de 1940.»

 

António Moncada S. Mendes – Aristides de Sousa Mendes, Memórias de Um Neto
Edições Saída de Emergência e António Moncada S. Mendes  (2017)