Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Nariz de cera

anotações e apontamentos que dizem tudo - de, por e para mim - por si mesmos.

Nariz de cera

anotações e apontamentos que dizem tudo - de, por e para mim - por si mesmos.

o problema com a bebida

15.01.21

É este o problema com a bebida, pensei, enquanto me servia dum copo. Se acontece algo de mau, bebe-se para esquecer; se acontece algo de bom, bebe-se para celebrar, e se nada acontece, bebe-se para que aconteça qualquer coisa. 

 

Charles Bukowski – Mulheres (1978)
Coleção Mil Folhas PÚBLICO (2003)

 

 

recuperações históricas

07.01.21

A recuperação da memória de Aristides de Sousa Mendes estava afirmada e confirmada [...] Fizeram-se muitos trabalhos escritos sobre o tema, e pelo menos dois doutoramentos. Um deles é da autoria da Dra. Raquel Limão Andrade, filha daquele jovem de 20 anos, Manuel Lourenço de Andrade, que em 1940 se preocupava todos os dias com os refugiados que chegavam de comboio a Vilar Formoso, intitulado O diplomata que se fez refugiado, em que analisa o aspeto espiritual e o sentimento de solidariedade e compaixão do cônsul. 

 

António Moncada S. Mendes – Aristides de Sousa Mendes, Memórias de Um Neto
Edições Saída de Emergência e António Moncada S. Mendes  (2017)

 

 

não dizer nada

28.12.20

Renny perguntou: «Mamã, como se parte um ovo?». Dee Dee olhou para mim. Sabia o que eu estava a pensar. Não abri a boca.

«Vem cá, Renny, para eu te mostrar.»

Renny aproximou-se dela. Dee Dee agarrou num ovo.

«Vês, basta partires a casca na borda da frigideira... assim... e deixar cair o ovo na frigideira... assim...»

«Oh...»

«É simples.»

«E como se cozinha?»

«Fritando-o em manteiga.»

«Mamã, eu não quero esse ovo.»

«Porquê?»

«Porque a gema partiu-se.»

Dee Dee virou-se e olhou para mim. Os seus olhos diziam:

«Hank, não digas nada, por favor...».

 

Charles Bukowski – Mulheres (1978)
Coleção Mil Folhas PÚBLICO (2003)

 

 

que viagem

18.11.20

Recém-chegado da tropa no ultramar, no início dos anos 70, António ainda não pertencia ao meio musical. Mas, pela forma de estar, de vestir, e de ser, começava a ser um Extraterrestre, num país onde era pecado ser diferente, numa sociedade que tranquilizava os seus terrores arcaicos com a estandardização. «Sempre Ausente», um poema do álbum Anjo da Guarda, ilustra estes tempos e esta busca:

 

Diz-me que solidão é esta 

Que te põe a falar sozinho

Diz-me que conversa

Estás a ter contigo

Diz-me que desprezo é esse

Que não olhas p'ra quem quer que seja

Ou pensas que não existe

Ninguém que te veja

Que viagem é essa

Que te diriges em todos os sentidos

Andas em busca dos sonhos perdidos 

 

 

Manuela Gonzaga – António Variações, Entre Braga e Nova Iorque (2018)

Manuela Gonzaga e Bertrand Editora (2018)

 

 

 

 

caminhada

11.11.20

Como se seguisse o exemplo do samaritano, a contrariar ordens vindas de homens, Aristides abdicou da carreira, da família, dos amigos e do seu estatuto social, num país que vivia num sistema ditatorial e onde as aparências valiam muito. Preferiu o castigo que se abateu sobre ele e a raiva de certos grupos sociais, que perdura até aos nossos dias neste país. Porém, morreu com a certeza de que a aposta a respeito de Deus tinha sido totalmente ganha. 

Filósofos, pensadores e santos acolheram com grande satisfação a atitude rebelde de Aristides. A Humanidade precisava (e precisa) de gestos desta natureza e dimensão para continuar a sua caminhada. 

 

António Moncada S. Mendes – Aristides de Sousa Mendes, Memórias de Um Neto
Edições Saída de Emergência e António Moncada S. Mendes  (2017)

 

 

silêncio que se vai contar um fado (I)

23.07.20

- São rosas, senhor - grunhia a dona Maria da Conceição. - São rosas!

Dizia-o com os olhos tão abertos que conseguíamos ver o trapo em que a rainha transportava o pão abrir-se. O pão para os pobres. E de lá de dentro saltavam flores.

- Flores vermelhas - continuava. - Vermelhas como o sangue com que se fez a nação.

De maneira que era tudo muito bem explicado. Voltávamos para casa cheios de pensamentos acerca dessa rainha, que se metia em alhadas por causa dos pobres. Os pobres que o rei, o rei mauzão, não queria ajudar. E a história de Inês de Castro: «Poupai ao menos os meus filhos, eles não têm culpa, senhor», dizia a professora. Mas a melhor parte era quando D. Pedro dava caça aos assassinos da sua amante, que nos era descrita como sua esposa. Legítima esposa. «E arrancou-lhes o coração pelas costas!», dizia a professora. Sobre o facto, também, de os filhos de D. Inês e D. Pedro serem ilegítimos, nem uma palavra. Acerca do embaraço que isso colocava à coroa, muito menos. Sobre os problemas com Castela, muito menos ainda. Nada. Silêncio.

Os reis desfilavam à nossa frente, seguidos pelos seus séquitos, sempre prontos a partir para a guerra. Havia comandantes a rezar à Virgem Maria atrás de uma pedra antes de a batalha começar. Reis que iam voltar numa manhã de nevoeiro que acabaria por chegar. D. Afonso Henriques, que tinha mentido ao papa acerca da doação de uns quantos sacos de ouro ao ano e por isso estava no inferno.

Depois vinham as perguntas. Quem foi o terceiro rei da dinastia de Avis? Como se chamavam os pretendentes ao trono durante o interregno que perdurou de mil trezentos e oitenta e três a mil trezentos e oitenta e cinco? Por quantas embarcações era constituída a armada portuguesa que partiu nesse saudoso ano de mil quatrocentos e quinze à conquista de Ceuta? 

 

Hugo Mezena – Gente Séria (2017)

Planeta Manuscrito (2018)

 

 

sóbria fusão

16.07.20

Sóbrio o teu corpo me pede 

penetração: nomes puros:

os de boca, braços, mãos

sobre a terra e sobre os muros.

 

Sóbrio o teu corpo me pede

nomes justos, nomes duros:

os de terra, fogo e punhos,

claros, acres, escuros. 

 

António Ramos Rosa in ANIMAL OLHAR - Obra Poética I

Assírio & Alvim (2018)

 

 

reformulações

16.06.20

Reformulação do registo de pecados 

(...)

Este registo de pecados devia ser um registo de pensamentos. Não são pecados: são pensamentos. Pensamentos que uma pessoa deve ter para se perguntar acerca das coisas. 

 

Hugo Mezena – Gente Séria (2017)

Planeta Manuscrito (2018)

 

 

aprender com o trigo (não se desculpar com o joio)

05.06.20

O rapaz de calças de ganga era, afinal, uma pessoa séria. Tinha estudado muito, no seminário. O pai era um lavrador com posses, como o senhor Rodrigues, e ele só se tinha formado por devoção. Podia ter ido para médico, engenheiro ou professor. Com os conhecimentos do pai, podia estar muito bem na vida. Podia ter investido num negócio ou arranjado um tacho na câmara municipal. Se fosse uma pessoa menos decente, era o que teria feito. Tantos que queriam e não podiam! 

Sem se esquecer de referir o pormenor da indumentária devida a uma pessoa que ocupava a posição dele, o meu pai dizia o mesmo (...)

As calças de ganga eram o defeito do qual ninguém, a não ser Deus, se conseguia eximir. Estávamos servidos para a vida. Que pedíssemos a Deus que o estimasse, todos os dias, nas nossas orações. 

 

Hugo Mezena – Gente Séria (2017)

Planeta Manuscrito (2018)