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Nariz de cera

anotações e apontamentos que dizem tudo - de, por e para mim - por si mesmos.

Nariz de cera

anotações e apontamentos que dizem tudo - de, por e para mim - por si mesmos.

adorei as almas!

13.05.21

 

O último símbolo que quero destacar é o rosário ou as contas. [...] O rosário cristão se confunde com as contas do “Òpelè-Ifá” ou “Rosário de Ifá”, que é um instrumento divinatório dos tradicionais sacerdotes de Ifá (Ifá é o porta-voz de Orumilá e de outros Orixás). Vale lembrar que o culto dos negros a Nossa Senhora do Rosário, se deve também ao paralelismo estabelecido entre o rosário desta Nossa Senhora e o Rosário de Ifá, obviamente já conhecido por muitos negros. Por isso, sempre insisto que o culto dos negros a
Nossa Senhora do Rosário é ao mesmo tempo adaptação e resistência [...]

E termino com a saudação aos pretos velhos proferida na maioria dos terreiros de
Umbanda [...] e que demostra a multiplicidade do culto e suas referências: “Salve Jesus
Cristo e Nossa Senhora... Salve os Orixás... Saravá o Preto Velho... Adorei as almas”.

 

in http://www.snh2013.anpuh.org/resources/anais/27/1364730161_ARQUIVO_Adoreiasalmas-XXVIISNH-textocompleto.pdf

 

 

cercos (de alma) e secretaria

12.05.21

Na conversa que Aristides teve com Angelina e com os filhos José António, Pedro Nuno e Isabel (e Jules d'Août, seu genro) invocou vários argumentos espirituais e históricos, que já foram citados por vários autores. Tentarei recriar um deles, que me foi dito e repetido muitas vezes pelos meus familiares e por outras pessoas que o conheceram bem: «Estes refugiados são filhos de Deus, vítimas inocentes de uma guerra monstruosa que os foi tirar a suas casas, e se não fizermos nada por eles, poderão morrer debaixo de bombas, ou de fome, ou serem assassinados pelo invasor. A nossa obrigação e dever, como pessoas crentes em Deus, é ajudá-los, tal como faria o Bom Samaritano. A Circular 14 é injusta e não tem em conta os terríveis sofrimentos causados a todas estas pessoas. Foi redigida numa secretaria em Lisboa, longe desta realidade, sob influência de um polícia que apenas pensa na sua carreira e bem-estar. 

Vou desobedecer frontalmente a esta Circular a partir de hoje, e fazer tudo quanto puder para ajudar o maior número de refugiados. Conto com a vossa total colaboração para dar vistos gratuitos a todos quantos pudermos. A vossa mãe, com quem já falei, dá-me todo o seu apoio, e está disposta a também prestar ajuda e a cuidar das pessoas que tenham mais necessidade de atenção. Estou consciente de que perderei o meu trabalho, e a vossa vida vai alterar-se. Tudo vai ser mais difícil para nós, mas também tenho a confiança de que Deus não nos abandonará. Ao fazermos o bem a estes refugiados é ao próprio Cristo que o faremos e não seremos esquecidos - um dia poderemos ganhar o céu. 

Por outro lado, este gesto redentor é-lhes devido pelo sofrimentos causados nos séculos XV e XVI pela lei da expulsão dos judeus de 1496 e pelo estabelecimento da Inquisição em Portugal. Esta é uma oportunidade para o nosso país reparar um erro histórico e corrigir os erros do seu passado. 

 

António Moncada S. Mendes – Aristides de Sousa Mendes, Memórias de Um Neto
Edições Saída de Emergência e António Moncada S. Mendes  (2017)

 

in https://ocastendo.blogs.sapo.pt/31-de-marco-de-1821-fim-da-inquisicao-2063948

in https://ncultura.pt/inquisicao-medo-tortura-fogueiras/2/

in https://www.leme.pt/magazine/efemerides/1205/dom-manuel-i-assina-o-decreto-de-expulsao-dos-judeus-de-portugal.html

 

mais que nunca

11.12.20

e aqui me tens numa linguagem árida

e tensa. Para que me arrebates ainda mais que nunca

sempre com a paz do teu campo de cores

e a grande paz da força, tua boca descoberta 

 

António Ramos Rosa in  CICLO DO CAVALO  - Obra Poética I

Assírio & Alvim (2018)

 

Ophelia (1851)

John Everett Millais

 

a paz

11.12.20

encontrámo-nos na editora, no primeiro andar, onde ficava a lindíssima sala de audições, (antes do incêndio do Chiado), com o piano, e o melhor que havia de material de bobinas. Comecei a ouvir e já não saí dali. Depois a porta abriu-se e ele saiu [...] E disse-me: anda cá, quero que ouças. E eu ouvi, ainda não era definitivo, mas já não era maquete. O que achas? E eu disse, acho que devias ter instrumentos tradicionais, porque está muito elétrico, muito rock. As tuas melodias pedem instrumentos de Portugal. A tua cena é muito de cá. Foi o nosso primeiro contacto e houve logo uma grande empatia. Ele era uma pessoa cheia de humor, sempre tão bem arranjado, cuidado, cheiroso. Usava pulseiras de picos, correntes de cães, adereços estranhos, a maior parte feita por ele, e era a paz em pessoa. 

 

Manuela Gonzaga – António Variações, Entre Braga e Nova Iorque (2018)

Manuela Gonzaga e Bertrand Editora (2018)

 

 

estados calamitosos

14.10.20

«Não participo em chacinas, por isso desobedeço a Salazar».

Esta frase foi vista e considerada pelo regime como uma inequívoca acusação a Salazar. Para Aristides, a ordem expressa na Circular 14, não permitindo que os cônsules de carreira passassem vistos de entrada em Portugal a refugiados, era uma ordem colaboracionista: «Participar em chacinas não era apenas praticá-las diretamente, bastava apenas impedir que as potenciais vítimas tivessem uma porta de saída do inferno em que se estava a tornar a Europa ocupada pelas forças nazis. Era o que fazia a Circular 14.»

Foi a primeira vez (e talvez a única) em que um cidadão nacional, funcionário do Estado, falando de direitos humanos num regime totalitário, denuncia aos "representantes da Nação" a violação da Lei Fundamental por parte do chefe do governo. Foi a 10 de dezembro de 1945 que a reclamação de Aristides foi apresentada na Assembleia Nacional. Nem um único dos 120 deputados teve a coragem e a dignidade de responder... Exatamente três anos depois, a 10 de dezembro de 1948, as Nações Unidas publicavam em Nova Iorque a Declaração Universal dos Direitos do Homem. Coincidências. 

 

António Moncada S. Mendes – Aristides de Sousa Mendes, Memórias de Um Neto
Edições Saída de Emergência e António Moncada S. Mendes  (2017)

 

 

a barreira que une

21.08.20

Se o Raimundo, o pai dele, não lhe tivesse dado biberões de vinho, talvez fosse um homem como outro qualquer (...) 

Tudo isso podia ter acontecido se o pai não se tivesse intrometido entre ele e os seus objectivos. Era a sua ideia de que a beber leite o filho não se fazia um homem que o tinha condenado a viver daquela forma. Mas esse ódio não era de agora. Já em pequeno sentia que ele era o empecilho que não o deixava ter uma vida melhor. Desejava que ele não existisse, mas logo a seguir fechava as mãos e fazia força para contrariar esses sentimentos.

«O pai merece perdão». pensava. «O pai merece perdão.»

Era uma coisa má, aquilo que sentia. E ele sabia disso. Tinham-lhe ensinado que era preciso amar o próximo porque os homens eram todos irmãos. Percebia que isso criava uma barreira entre o bem e o mal, entre o que se podia e o que não se podia fazer em benefício de todos. 

 

Hugo Mezena – Gente Séria (2017)

Planeta Manuscrito (2018)

 

 

 

silêncio que se vai contar um fado (II)

23.07.20

- São rosas, senhor! - grunhia a dona Maria da Conceição.

Quem ouvia a história sem ter tomado o pequeno-almoço pensava no desperdício de transformar pão em flores, que enchem os olhos mas deixam a barriga a dar horas. Na fila dos muito bons, a coisa ainda se arranjava com leite ao pequeno-almoço. Na dos bons, havia pão sem nada. Mas à medida que se avançava para a dos mais ou menos, piorava bastante. E na outra ponta, no canto dos burros, a fome grassava a olhos vistos. Esse antro era povoado por quatro ou cinco criaturas que aproveitavam o tempo de aula para descansar.

- Deixem-no estar na paz do Senhor - dizia a professora quando alguém apontava para o João Pedro. 

Com a cabeça pousada nos braços, repousava no sono dos justos, pouco importado com reis, rainhas e outras peripécias que não dão de comer a ninguém. E os braços dele eram um mistério. Não trazia lanche, mas não emagrecia. Enquanto o meu pai gastava o salário na mercearia do senhor Júlio, o Zé Tractorista, pai dele, gastava-o lá também, mas em vinho. 

 

Hugo Mezena – Gente Séria (2017)

Planeta Manuscrito (2018)

 

 

Aristides I

09.06.20

Em 1987, o Presidente da República, Mário Soares, é convidado a ir aos Estados Unidos receber um doutoramento honoris causa pela Universidade de Carlton, em Washington D.C. No seguimento desta troca de cartas, o Congressso Federal americano pede-lhe que conceda uma condecoração ao cônsul, e que a entregue à família na embaixada de Portugal nessa cidade. Pedem-lhe a mais alta condecoração portuguesa, e os jornais americanos dão notícia disso. Mário Soares, apesar de ser o chanceler de todas as ordens honoríficas, como Presidente da República, quis consultar o primeiro-ministro de Portugal, que se manifestou contrário à atribuição da mais alta honra ao meu avô. Mário Soares cedeu. O primeiro-ministro português, nessa altura, chamava-se Aníbal Cavaco Silva (...)

A grande homenagem civil teve o seu ponto alto no Tivoli, em Lisboa. O presidente Mário Soares, desta vez, decidiu não consultar o primeiro-ministro Cavaco Silva, como contou, e surpreeendeu todos quando chamou o filho mais novo de Aristides, John Paul Abranches, e tirou do bolso do casaco uma caixa vermelha contendo a Grã-Cruz da Ordem de Cristo, o grau mais alto, atribuindo-a postumamente ao cônsul de Bordéus. 

O escultor João Cutileiro concebeu uma medalha de bronze a evocar o desespero e o isolamento deste cônsul desobediente que se sentiu abandonado e expulso da sociedade por ter reagido contra a violência, e atuado em prol dos direitos humanos. Na medalha, além do nome, apenas se consegue ver um «homenzinho» no meio de um deserto de desumanidade. Esta medalha pode ser admirada na estação Parque do Metro de Lisboa, numa coluna junto à bilheteira. 

 

António Moncada S. Mendes – Aristides de Sousa Mendes, Memórias de Um Neto
Edições Saída de Emergência e António Moncada S. Mendes  (2017)

 

 

brilho

23.04.20

E eu pensava que a vida brilha quando descobrimos uma pessoa nova. É de espantar que haja tanta gente por descobrir e a vida não brilhe sempre. 

 

Afonso Reis Cabral – Pão de Açúcar
Publicações Dom Quixote (2018)