Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Nariz de cera

anotações e apontamentos que dizem tudo - de, por e para mim - por si mesmos.

Nariz de cera

anotações e apontamentos que dizem tudo - de, por e para mim - por si mesmos.

ad maiora natus sum

12.05.21

O sol é uma noite suave

[...]

Reconheço um caminho entre dois reinos.

[...]

Ser sem qualidades,

consciência sem palavras.

 

Paciência na cor e na pedra

do ser. O esplendor dos sulcos brancos.

Abóbada de ausência, círculo do universo.

O que permanece ondula entre o verde e o vento. 

 

 

António Ramos Rosa in MEDIADORA DA AUSÊNCIA - Obra Poética I

Assírio & Alvim (2018)

 

 

...

16.12.20

As palavras têm rosto: ou de silêncio ou de sangue. 

 

António Ramos Rosa in  CICLO DO CAVALO  - Obra Poética I

Assírio & Alvim (2018)

 

El ciervo herido (1946)

Frida Kahlo

a(s) verdadeira(s) mudança(s) envolvendo milhões

(e estúdios eco, já agora)

14.10.20

não quero navegar num mar fácil de palavras 

 

António Ramos Rosa in O PAPEL, A MESA, O SOL, A PENA... - Obra Poética I

Assírio & Alvim (2018)

 

 

transmitir

15.06.20

O silêncio era, portanto, uma das maneiras que o avô tinha de nos fazer compreender o que pensava acerca de determinado assunto.

A outra eram os gritos.

Os suspiros também eram uma forma de nos transmitir o que sentia. E uma determinada forma de pigarrear, que se escutava uma vez por outra (...) 

 

Hugo Mezena – Gente Séria (2017)

Planeta Manuscrito (2018)

 

 

Portugal

10.06.20

A palavra rei, por sua vez, queria dizer algo mais do que uma pessoa que estava sentada num trono a mandar. D.Afonso Henriques prometera uma certa quantidade de sacos com ouro ao papa, entregue todos os anos. Mas nunca lhos chegara a dar. Estava no inferno. E tinha metido a própria mãe numa prisão.

Ao usar as palavras dessa maneira, obtivera o seu próprio país. 

Mas isto só queria dizer que ele fora mais esperto do que os outros. Tinha usado as palavras um bocadinho melhor. No que dizia respeito ao papa, bastara dizer-lhe que lhe dava os sacos com ouro. Eram só palavras. Não custava nada. E passar por cima da frase «respeitar pai e mãe» também não constituíra para ele um problema. 

Um conjunto de palavras, afinal, que não se aplicavam sempre. Nem a tudo. Porque se as tivesse levado à letra, não se tinha feito Portugal. 

 

Hugo Mezena – Gente Séria (2017)

Planeta Manuscrito (2018)

 

perceber um boi

12.05.20

Em geral, os bois na corte por baixo do meu quarto faziam-me muita companhia. Era um mugido longo e sincero, profundo (...) O mugido franco e despretensioso desses animais contrastava com a voz do avô, que passava os dias no quarto a falar sozinho. Quem parecia que falava eram os bois, tal a serenidade com que mastigavam a palha e assistiam a este espectáculo. 

 

Hugo Mezena – Gente Séria (2017)

Planeta Manuscrito (2018)

 

unnamed.jpg

Paturages

Julien Dupré

 

lembram-se sempre

16.04.20

uma gabardina antiga que pouco depois de casado já não me servia e a minha mulher guardava porque a tinha vestida na primeira vez que a vi, lembram-se sempre do que nós já esquecemos e censuram-nos por isso, nem sequer com palavras, basta um olhar 

 

António Lobo Antunes – A Última Porta Antes da Noite (2018)

Publicações Dom Quixote (2018)

 

 

99da2eac52adf3ca7697fd04cd1afa96.jpg

 

deixar

06.03.20

Não cantes vitorioso nem a galope: deixa as palavras virem ao nível do seu vagaroso peso, do seu chão de água. 

 

António Ramos Rosa in ONDE AINDA É POSSÍVEL - Obra Poética I

Assírio & Alvim (2018)

 

 

convicções e baionetas

13.05.19

Vai ao ponto de aconselhar prudência, ao menos esperar os pareceres da hierarquia, a palavra esclarecida do Bispo de Lisboa, do Inquisidor. A Santa Madre Igreja sempre soube conviver em paz com os governos, sempre colocou acima de tudo o sossego dos fiéis e o respeito das leis. Lérias - resmunga o abade de Ribamar. - Cá para mim, hereges que me invadam a casa estão a pedir é cachaporra nos lombos! É uma fanfarronada, mas sempre alivia. Teodósio cala-se, numa censura cautelosa, a depreciar a tendência trauliteira do pároco. Serão mais as vozes do que as nozes quando o abade vir uma baioneta apontada ao saco das tripas. 

 

Álvaro Guerra – Razões de Coração (1991)
Coleção Mil Folhas PÚBLICO (2002)

 

 

 

(...) durante a segunda invasão do Porto pelos franceses, no âmbito da Guerra Peninsular, o tenente-coronel Lameth, particularmente prestigiado entre as tropas de Napoleão, foi morto em Santiago de Riba-Ul numa emboscada liderada por Bernardo Barbosa Cunha, natural de Arrifana.

Foi em retaliação a esse ataque que o marechal Nicolas Soult - tio de Lameth - deu ordem às suas tropas para rumarem a Arrifana, onde, em 17 de abril de 1809, sob o comando do general Jean Guillaume Thomières, assassinaram 71 pessoas, entre as quais 62 arrifanenses que procuraram refúgio na igreja local (...)

"Dando cumprimento às ordens do marechal Soult, o general Thomières fez uma investida sobre Arrifana, exigindo que os assassinos fossem entregues para serem fuzilados e os respetivos cadáveres expostos" (...)

Perante o cerco do exército francês, acrescentou, "a população procurou refúgio no interior da igreja, que acabou por revelar-se uma ratoeira - os franceses obrigaram todos os homens válidos a saírem do templo, selecionando em seguida um em cada cinco para serem fuzilados no Campo da Buciqueira".

in https://www.dn.pt/lusa/interior/feira-recria-com-600-figurantes-o-massacre-de-arrifana-durante-as-invasoes-francesas-10828709.html