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Nariz de cera

anotações e apontamentos que dizem tudo - de, por e para mim - por si mesmos.

anotações e apontamentos que dizem tudo - de, por e para mim - por si mesmos.

Nariz de cera

12
Abr22

a ignorância do medo

Cecília

Basta lembrar o que é dito por uma parte da opinião pública sobre o «rendimento social de inserção» e sobre outros apoios sociais de que beneficiariam injustamente pessoas negras e ciganas. Todas estas ameaças têm sido contestadas por estudos económicos e sociológicos e demonstrada a sua raiz no racismo e preconceito por parte de diversos estudos, vários deles já citados. A mesma linha de pesquisa, em Portugal e noutros países europeus, tem verificado que o racismo e o preconceito estão na base de comportamentos discriminatórios, agressões ou insultos desumanizantes. Contudo, também se verificou que essas discriminações não são percebidas como fruto do racismo ou do preconceito, mas como um resultado do sentimento de ameaça e, consequentemente, como reações de defesa legítimas.

 

Jorge Vala  – Racismo, Hoje, Portugal em Contexto Europeu (2021)

Fundação Francisco Manuel dos Santos, Jorge Vala (2021)

 

A Condição Humana, 1935

René Magritte

 

30
Mar22

bentos traficantes

Cecília

(A propósito disto e disto.)

 

Em São Bento juntavam-se os traficantes de todas as províncias - dizia ele. «Portugal, no gozo duma podre tranquilidade, não sai do marasmo vergonhoso da sua cadência, hipocritamente desmentida por charlatães, incapazes de administrarem uma aldeia», escrevia no Porto e Carta, em Março de 1855.

 

Agustina Bessa-Luís – Fanny Owen (1979)

Colecção Mil Folhas / Bibliotex SL / M.E.D.I.A.S.A.T. e Promoway Portugal Ltda (2002)

 

in https://somdorock.comunidades.net/serrabulho-revelam-capa-de-porntugal

 

11
Mar22

[da série] cuidado, esta gente vota (V)

Cecília

«Pode ser um trabalho chato às vezes, até porque o cliente português é muito picky. Implica com muitas coisas, e não estou a falar das "personalidades". O pior cliente é aquele que vem com o dinheirinho contado, que conta os trocos todos... já para não falar dos viens, dos portugueses-franceses... Jean Pierre, vien ici, seu cabrão. Esses são os piores de todos.»

 

Pedro Vieira – Em que posso ser útil? (2021)

Fundação Francisco Manuel dos Santos e Pedro Vieira (2021)

 

 

18
Fev22

espelhos cegos

Cecília

[...] o preconceito está mais interiorizado e escapa mais ao controlo consciente do que aquilo que geralmente pensamos.

 

Jorge Vala  – Racismo, Hoje, Portugal em Contexto Europeu (2021)

Fundação Francisco Manuel dos Santos, Jorge Vala (2021)

 

 

17
Fev22

estado da n[eg]ação

Cecília

Um bom exemplo de que esta crença na superioridade natural de uns grupos relativamente a outros está viva e é partilhada por um número significativo de europeus encontra expressão no facto de cerca de 30% desta população acreditar que «algumas raças ou grupos étnicos nascem menos inteligentes do que outros» e também que «nascem mais trabalhadores do que outros», segundo dados do Inquérito Social Europeu (European Social Survey 7, 2014-2015) [...] Portugal, a Estónia e a República Checa são os países onde um maior número de pessoas expressou adesão à crença de que há, por natureza, grupos inferiores e grupos superiores quanto às características que definem os humanos. Ou seja, Portugal encontra-se entre os países que manifestaram um índice de racismo mais elevado. Por sua vez, a Suécia, a Holanda e a Noruega são os países onde menos pessoas manifestam de forma aberta adesão a essas mesmas crenças [...] Todavia, estes dados mostram também que o racismo está longe de ser hoje uma ideologia consensual na Europa, como o foi antes da II Guerra Mundial. Hoje, estas crenças não são partilhadas pela maioria dos Europeus e são objeto de debate público e político.

No que respeita a Portugal, os resultados apresentados podem parecer surpreendentes e são difíceis de aceitar pelas elites políticas, por comentadores ou redes intelectuais, mas são dados que já haviam sido anunciados num inquérito publicado em 1999 e num outro de 2011. Neste último estudo, comparou-se Portugal com outros oito países europeus. De novo com base em amostras representativas, perguntávamos, entre outros indicadores, qual o grau de concordância com a seguinte frase: «Algumas raças são mais dotadas do que outras.» Os resultados obtidos evidenciam que na Alemanha, em França, no Reino Unido, na Holanda e em Itália menos de 50% dos inquiridos expressaram concordância com aquele indicador de racismo. Em Portugal, na Polónia e na Hungria essas percentagens crescem para valores iguais ou superiores a 50% [...] Muito importante, os inquiridos [...] também mostram disponibilidade para discriminar ou aceitar a discriminação racial em diversos planos da vida social e política, como a oposição à entrada de imigrantes percebidos como tendo outra raça, na oposição a leis antirracistas ou a opção por critérios etnicistas na seleção de imigrantes.

Mais recentemente, já em 2019/2020, o European Social Survey - Portugal voltou a diagnosticar a crença dos Portugueses na «superioridade natural de umas raças ou grupos étnicos relativamente a outros». Usando as  mesmas proposições do European Social Survey 7, recorreu-se agora não a uma escala de resposta dicotómica (sim/não), que poderia ter produzido enviesamentos nas respostas anteriores, mas a uma escala que ia de «totalmente de acordo» a «totalmente em desacordo», permitindo uma gradação dos graus de acordo e desacordo. Os resultados obtidos, agora apenas em Portugal, confirmam os estudos precedentes: mais de 40% dos inquiridos partilha a crença na superioridade natural de «umas raças relativamente a outras», ou seja, expressam racismo biológico.

 

Jorge Vala  – Racismo, Hoje, Portugal em Contexto Europeu (2021)

Fundação Francisco Manuel dos Santos, Jorge Vala (2021)

 

 

05
Fev22

subliminarmente mergulhados

Cecília

Em Portugal, como noutros países, as pessoas negras são consistentemente associadas a violência e isso tem consequências vitais para elas. Muitos leitores lembrarão o caso de Amadou Diallo, um imigrante guineense negro que foi abordado pela polícia de Nova Iorque em fevereiro de 1999 e recebeu instruções para não se mexer. Porém, Diallo levou a mão ao bolso para tirar a carteira com a identificação. Esse gesto foi confundido com o sacar de uma arma. Foi morto com cerca de 40 tiros. Vejamos a este propósito uma linha de pesquisa experimental replicada em vários países, incluindo Portugal, com a participação de estudantes universitários brancos.

Nesta linha de pesquisa, é pedido aos participantes que identifiquem um objeto (uma arma ou uma ferramenta) que é apresentado no ecrã do computador por um brevíssimo espaço de tempo. As respostas são registadas como certas ou erradas. Acontece que antes de o objeto (arma ou ferramenta) ser apresentado no ecrã é colocado no mesmo ecrã ora a foto de uma pessoa negra ora a de uma pessoa branca. Isto é feito de forma tão rápida que os participantes não se dão conta da foto - uma exposição subliminar. O que se verifica é que os participantes brancos confundem mais vezes uma ferramenta com uma arma quando subliminarmente são expostos à foto de um negro. De forma inversa, quando uma arma aparecia na sequência de uma foto de um branco era mais vezes confundida com uma ferramenta. Se com os resultados desta experiência refletirmos sobre o assassinato de Amadou Diallo, apreenderemos melhor o potencial de violência inscrito nos estereótipos.

 

Jorge Vala – Racismo, Hoje, Portugal em Contexto Europeu (2021)

Fundação Francisco Manuel dos Santos, Jorge Vala (2021)

 

 

03
Fev22

[da série] cuidado, esta gente vota (II)

Cecília

Acontece que, mesmo em contextos de menor exigência, como era o caso do bengaleiro do Museu Berardo, os problemas podiam surgir. «Uma vez fui abordado em espanhol por uma senhora americana. Eu respondi-lhe em inglês, dizendo que não sabia falar espanhol, ao que ela perguntou se não podia falar espanhol em Portugal. Eu disse-lhe que sim, mas aconselhei-a antes a falar inglês, por todas as razões. Expliquei-lhe que há umas animosidades históricas e que há portugueses que não reagem bem quando lhes falam em espanhol. Ela agradeceu com um sorriso largo, mas depois foi fazer uma queixa online, a dizer que eu a tinha feito perder o tempo dela, enquanto lhe dava uma lecture sobre que línguas é que ela podia ou não podia falar.»

 

Pedro Vieira – Em que posso ser útil? (2021)

Fundação Francisco Manuel dos Santos e Pedro Vieira (2021)

 

 

25
Jan22

fazer liga

Cecília

No fundo, a ideia-base para este «Retrato» passa por dar a conhecer mais de perto aqueles para quem o atendimento ao público é um modo de vida. Numa economia cada vez mais virada para os serviços, há cada vez mais gente a trabalhar em horários desencontrados, sem gozo de fins-de-semana, estando a postos quase em permanência. Falo dos funcionários das lojas em centros comerciais, dos empregados em restaurantes e cafés mais ou menos gourmet, dos operadores de call center, dos trabalhadores colocados em serviços públicos, gente que passa os seus dias cara a cara com problemas, interrogações, necessidades mais ou menos urgentes. Estas vidas estão construídas em função da satisfação dos mais variados públicos, cada vez mais exigentes (e a espaços intransigentes), com uma noção mais clara dos seus direitos como «consumidores», latu sensu, e donos de um enorme alheamento em relação aos anónimos por quem são servidos [...]

Quem são as pessoas que nos atendem todos os dias? Como é lidar em permanência com estranhos?

 

Pedro Vieira – Em que posso ser útil? (2021)

Fundação Francisco Manuel dos Santos e Pedro Vieira (2021)

 

“Back Together”: a edição 2021 do NESB aborda o poder da música para unir as pessoas e neutralizar os efeitos do isolamento resultantes da Covid-19.Back Together” expressa o otimismo de que o período de restrições, devido à pandemia, é apenas temporário e que as relações físicas "normais" entre as pessoas serão restauradas em breve!


A canção “Raio Verde” é sobre saúde mental, perda de memória, isolamento. A ideia foi criar uma canção sem limites: onde ninguém consegue distinguir onde termina o Tota e começa o EU.CLIDES. Tudo feito em conjunto, tudo soando em uníssono. Como uma Hydra, na própria produção vocal, e até mesmo na composição. Compartilhar é o que permite às pessoas criarem mais do que trabalhando sozinhas. “Raio Verde” é um monstro de duas cabeças.


Ficha artística:

canção “Raio Verde” - Euclides, Tota (música) | Tota (letra)

ator videoclip - Valdemar Santos

 

 

02
Jun20

longe... mas aqui

Cecília

Num país velho, sem antiguidade pura

morre-se à míngua de uma palavra nova,

num país que soçobra e subsiste, longe,

longe, mas aqui. 

 

António Ramos Rosa in PARA RESPIRAR UM POUCO - Obra Poética I

Assírio & Alvim (2018)

 

 

05
Out19

patriotismo de bancada

Cecília

Os patriotas são legião quando a pátria não pede que arrisquem o pêlo. 

 

 

Álvaro Guerra – Razões de Coração (1991)
Coleção Mil Folhas PÚBLICO (2002)

 

 

 

 

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