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Nariz de cera

anotações e apontamentos que dizem tudo - de, por e para mim - por si mesmos.

Nariz de cera

anotações e apontamentos que dizem tudo - de, por e para mim - por si mesmos.

fundamentos

24.08.21

Perceber os «outros» como menos humanos, permite à maioria recusar-lhes atenção e invisibilizar o seu sofrimento, tornando a sua discriminação mais provável. Em nome dos «nossos», a rejeição de outros povos e a sua inferiorização têm-se registado na história das sociedades, baseadas em motivos económicos ou políticos, em diferenças salientadas nas características físicas, nas crenças, nos comportamentos, nos modos de vida, nos costumes e na religião. Neste sentido, pode dizer-se que existiu um «protorracismo» antes da teorização da ideia de raça e da sua fundamentação biológica, como viria a acontecer no século XIX. O racismo cultural com que nos confrontamos hoje é um prolongamento do racismo biológico sistematizado no século XIX e envolve os mesmos princípios, como a ideia de essência e a ideia da hierarquia e dominação [...] Recentemente, a Comissão Europeia criou uma Missão para «a defesa do modo de vida europeu», um suposto credo europeu. Esta Missão tanto pode, segundo uns, responder aos apelos daqueles que olham para as migrações e os refugiados com as lentes do racismo biológico ou cultural, vendo neles uma ameaça «ao modo de vida europeu», como pode, segundo outros, promover os «direitos humanos, a liberdade, a democracia, a igualdade e o Estado de direito». Um terreno ambíguo, portanto. Um terreno tão ambíguo, que a Missão passou a designar-se «promoção do estilo de vida europeu», sinal de uma perspectiva assimilacionista que não anula o problema de fundo.

Até agora, contudo, a maioria dos Europeus tem resistido ao racismo e à sua mutação para uma base cultural [...] A sobrevivência desta norma e a sua evolução para uma norma pró-igualitária dependerá da reflexibilidade coletiva sobre os fundamentos da democracia. 

 

Jorge Vala – Racismo, Hoje, Portugal em Contexto Europeu (2021)

Fundação Francisco Manuel dos Santos, Jorge Vala (2021)

 

 

(...)

17.09.16

" A Praia do Bispo era um bairro cheio de camiões: passava esse camião da água, o camião da gasolina, o camião do lixo e o camião do fumo dos mosquitos. Todos esses camiões davam alegria e tinham uma música própria que nós gritávamos enquanto corríamos atrás deles." 

 

 

" Eu e a mana Tchi ficámos na sala, a jiboiar, à espera que acontecesse alguma coisa." 

 

 

" A professora sabe como é - encostei-me no portão -, quando aparece a menstruação, depende muito das mulheres, mas algumas têm muitas dores. A minha mãe nem sempre, mas desta vez tá cheia de dores. Tomou dois comprimidos para as dores antes do almoço, mas quando acabou de almoçar ainda tinha dores e disse-me que se ia deitar a ver se lhe passava a moinha. (...) Não leve a mal eu não ir lá acordar a mãe, mas sabe como é, estas dores da menstruação, é sempre assim, a minha mãe por acaso não fica muitos dias com a menstruação, é dois ou três dias, mas o primeiro dia é sempre o pior, mesmo com os comprimidos. 

- Sim, filho - ela gaguejou mais. - Dá as melhoras à tua mãe.

- Sim, mas não se preocupe, isso depois passa, é normal nas mulheres. (...) 

- A Genoveva ligou-me assustada, diz que tu lhe deste uma lição sobre a menstruação - a minha mãe ria.

- Ela esteve aqui e queria que eu te acordasse. Eu expliquei que tavas incomodada. 

- Eu sei, filho, eu percebi. 

- Mas também, ela escusava de te ligar pra te contar isso tudo. Assim acordou-te à mesma!" 

 

 

" A vida afinal acontece muito de repente". 

 

 

" Não há melhor coçadela de cabeça do que essa, quando parece que estão a procurar piolhos".

 

 

" Ficámos a olhar o verde do jardim, as gotas a evaporarem, as lesmas a prepararem os corpos para novas caminhadas. O recomeçar das coisas.

- Nao sei onde é que as lesmas sempre vão, avó. 

- Vão pra casa, filho.

- Tantas vezes de um lado para o outro?

- Uma casa está em muitos lugares - ela respirou devagar, me abraçou. - É uma coisa que se encontra".

 

 

" e acabo de fechar um livro com aquela sensação esquisita (humana?, metafísica?) que concluir um livro traz - como se a pele se imbuísse de certo fechamento, os olhos pedissem calma à luz e os sons ficassem terrivelmente delicados de se dizer e de se ouvir". 

 

 

" como se a infância fosse um ponto cardeal eternamente possível". 

 

 

" A surdez é uma coisa que acontece mesmo aos de bom ouvido". 

 

 

 

Ondjaki - Os da Minha Rua (2007)

Leya, SA (2016)