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Nariz de cera

anotações e apontamentos que dizem tudo - de, por e para mim - por si mesmos.

Nariz de cera

anotações e apontamentos que dizem tudo - de, por e para mim - por si mesmos.

brandos costumes

21.07.21

A sociedade portuguesa de 1940 estava muito dividida no que dizia respeito aos seus sentimentos por Salazar. E ainda hoje, apesar da revolução de 1974, que permitiu ao país viver em democracia, a memória do ditador suscita ideias contraditórias em alguns sectores: há quem insista em perpetuar a memória de um Salazar "autoritário, mas bonzinho", pondo em dúvida que tenha, sequer, colaborado com o nazismo (nem mesmo de forma não consciente). Como se barrar o caminho da salvação a potenciais vítimas da perseguição e dos campos de concentração e da morte, só para dar um exemplo que me toca mais de perto, não fosse colaboração suficiente com o horror nazi...

 

António Moncada S. Mendes – Aristides de Sousa Mendes, Memórias de Um Neto
Edições Saída de Emergência e António Moncada S. Mendes (2017)

 

deus me proteja de mim
e da maldade de gente boa
da bondade da pessoa ruim
deus me governe, guarde
ilumine e zele assim
caminho se conhece andando
então vez em quando
é bom se perder
perdido fica perguntando
vai só procurando
e acha sem saber
perigo é se encontrar perdido
deixar sem ter sido
não olhar, não ver
bom mesmo é ter sexto sentido
sair distraído e espalhar bem-querer

Faixa do disco Francisco, forró y frevo (2008)

 

 

então (lxcat) ... 18 anos depois

09.06.21

Há mulheres que trazem o mar nos olhos
Não pela cor
Mas pela vastidão da alma
E trazem a poesia nos dedos e nos sorrisos
Ficam para além do tempo
Como se a maré nunca as levasse
Da praia onde foram felizes
Há mulheres que trazem o mar nos olhos pela grandeza da imensidão da alma pelo infinito modo como abarcam as coisas e os homens...
Há mulheres que são maré em noites de tardes...e calma

 

Sophia de Mello Breyner Andresen

 

 

que um olhar bastasse

18.05.21

A opressão é permanente

as relações indiscerníveis.

 

 

António Ramos Rosa in MEDIADORA DO NÃO LUGAR - Obra Poética I

Assírio & Alvim (2018)

 

Primeiro foram as mãos que me disseram
que ali havia gente de verdade
depois fugi-te pelo corpo acima
medi-te na boca a intensidade
senti que ali dentro havia um tigre
naquele repouso havia movimento
olhei-te e no sol havia pedras
parámos ambos como se parasse o tempo
parámos ambos como se parasse o tempo

é tão dificil encontrar pessoas assim bonitas
é tão dificil encontrar pessoas assim bonitas

atrevi-me a mergulhar nos teus cabelos
respirando o espanto que me deras
ali havia força havia fogo
havia a memória que aprenderas
senti no corpo todo um arrepio
senti nas veias um fogo esquecido
percebemos num minuto a vida toda
sem nada te dizer ficaste ali comigo
sem nada te dizer ficaste ali comigo

é tão dificil encontrar pessoas assim bonitas
é tão dificil encontrar pessoas assim bonitas

falavas de projectos e futuro
de coisas banais frivolidades
mas quando me sorriste parou tudo
problemas do mundo enormidades
senti que um rio parava e o nevoeiro
vestia nos teus dedos capa e espada
queria tanto que um olhar bastasse
e não fosse no fundo preciso
queria tanto que um olhar bastasse
e não fosse preciso dizer nada

é tão dificil encontrar pessoas assim bonitas
é tão dificil encontrar pessoas assim pessoas

 

conexões sem rede

10.05.21

Sou um rapaz com um fato de flanela cinzenta. Ela encontrou-me. Toca-me na nuca. Beija-me. Tudo se desmorona [...] Qual a coisa que faz mexer o meu coração, as minhas pernas? Foi então que aqui cheguei e te vi, verde como um arbusto, como um ramo, muito quieto, Louis, com os olhos vítreos. «Estará morto?», pensei, e beijei-te. Por baixo do vestido cor-de-rosa, o meu coração saltava, semelhante às folhas, que, e muito embora nada exista que as faça mexer, não param de oscilar. Agora, chega-me ao nariz o odor a gerânios; chega-me ao nariz o odor a terra vegetal. Danço. Ondulo. Deixo-me cair sobre ti como uma rede de luz. Deixo-me ficar deitada em cima de ti, a tremer. 

 

Virginia Woolf – As Ondas (1931)

Colecção Mil Folhas / Bibliotex SL / M.E.D.I.A.S.A.T. e Promoway Portugal Ltda (2002)

 

 

imperador / imperariz / roda da fortuna - Pedro

05.01.21

Sinto a perfeição de um corpo

e nos seus olhos perpassa um pouco o medo.

Serei eu quem tu vês?

[...]

Porque tudo é tão breve e tão longo, não sei.

Tenho os olhos fechados de abertos de ternura. 

 

António Ramos Rosa in  CICLO DO CAVALO  - Obra Poética I

Assírio & Alvim (2018)

 

 

não dizer nada

28.12.20

Renny perguntou: «Mamã, como se parte um ovo?». Dee Dee olhou para mim. Sabia o que eu estava a pensar. Não abri a boca.

«Vem cá, Renny, para eu te mostrar.»

Renny aproximou-se dela. Dee Dee agarrou num ovo.

«Vês, basta partires a casca na borda da frigideira... assim... e deixar cair o ovo na frigideira... assim...»

«Oh...»

«É simples.»

«E como se cozinha?»

«Fritando-o em manteiga.»

«Mamã, eu não quero esse ovo.»

«Porquê?»

«Porque a gema partiu-se.»

Dee Dee virou-se e olhou para mim. Os seus olhos diziam:

«Hank, não digas nada, por favor...».

 

Charles Bukowski – Mulheres (1978)
Coleção Mil Folhas PÚBLICO (2003)

 

 

duo

16.12.20

Sinto o não e o sim [...]

Porque é tudo tão breve e tão longo, não sei.

Tenho os olhos fechados de abertos de ternura. 

 

António Ramos Rosa in  CICLO DO CAVALO  - Obra Poética I

Assírio & Alvim (2018)

 

 

 

que viagem

18.11.20

Recém-chegado da tropa no ultramar, no início dos anos 70, António ainda não pertencia ao meio musical. Mas, pela forma de estar, de vestir, e de ser, começava a ser um Extraterrestre, num país onde era pecado ser diferente, numa sociedade que tranquilizava os seus terrores arcaicos com a estandardização. «Sempre Ausente», um poema do álbum Anjo da Guarda, ilustra estes tempos e esta busca:

 

Diz-me que solidão é esta 

Que te põe a falar sozinho

Diz-me que conversa

Estás a ter contigo

Diz-me que desprezo é esse

Que não olhas p'ra quem quer que seja

Ou pensas que não existe

Ninguém que te veja

Que viagem é essa

Que te diriges em todos os sentidos

Andas em busca dos sonhos perdidos 

 

 

Manuela Gonzaga – António Variações, Entre Braga e Nova Iorque (2018)

Manuela Gonzaga e Bertrand Editora (2018)

 

 

 

 

a maneira

07.05.20

a maneira como as pessoas vivem quando julgam que não olham para elas sempre me surpreendeu, tudo aquilo que se esconde à vista 

 

António Lobo Antunes – A Última Porta Antes da Noite (2018)

Publicações Dom Quixote (2018)