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Nariz de cera

anotações e apontamentos que dizem tudo - de, por e para mim - por si mesmos.

Nariz de cera

anotações e apontamentos que dizem tudo - de, por e para mim - por si mesmos.

31
Mar21

busca(r)

 

essa paixão árida que não canta 

mas vibra seca no papel incerta 

 

Quem detém os olhos? Quem vê o curso

do vento nas palavras?

E as flechas que por vezes se desfazem?

 [...]

 

Tudo o que o poema faz desfaz

 

Mas sustenta a ferida 

nas margens mais distantes 

da distância 

na insensata esperança

no abismo 

 

Tu beijas aqui a dança e o desastre 

 

 

António Ramos Rosa in  O INCERTO EXACTO  - Obra Poética I

Assírio & Alvim (2018)

 

 

18
Fev21

o teu rosto

Se as palavras corressem como as nuvens

respirando

dir-te-ia as palavras que desejo.

 

Oiço o silêncio inteiro sobre o teu rosto. 

 

António Ramos Rosa in  NA MORTE DE CELESTINO ALVES - Obra Poética I

Assírio & Alvim (2018)

 

 

13
Jan21

programações (de vítimas), previsões (de especialistas), inações (de algozes com poder de decisão)

Filipa anda a aprender a convencer-se de que o ano de 2017 «não conta». Porque esse era o ano em que planeara concluir uma série de etapas na sua vida. Estava matriculada no mestrado em Solicitadoria de Empresas e inscrita para entrar na Ordem dos solicitadores. Devia ter feito estágio entre Junho e Dezembro, para poder ir a exame em Março, mas o internamento, os ferimentos, deitaram os planos por terra. O mestrado ficou parado. «Dois mil e dezassete era para encerrar tudo isto, sempre fiz tudo certinho», lamenta-se. Tal como lamenta a ausência tão prolongada da serração onde trabalhava no escritório. «Estou a faltar há dez meses», diz, com as lágrimas a saltarem-lhe novamente dos olhos. «É muito tempo. Tinha tudo programado, tinha estudos, tinha a Ordem...»

No hospital não dão previsões para o dia em que a fisioterapia não será mais necessária. Ou em que não terá de gastar um boião de um quilo de creme hidratante em apenas quatro dias. É um dia de cada vez. E ela aguenta, apesar das dores e das lágrimas. 

 

Patrícia Carvalho – Ainda aqui estou (2018)

Fundação Francisco Manuel dos Santos e Patrícia Carvalho (2018)

 

 

05
Jan21

imperador / imperariz / roda da fortuna - Pedro

Sinto a perfeição de um corpo

e nos seus olhos perpassa um pouco o medo.

Serei eu quem tu vês?

[...]

Porque tudo é tão breve e tão longo, não sei.

Tenho os olhos fechados de abertos de ternura. 

 

António Ramos Rosa in  CICLO DO CAVALO  - Obra Poética I

Assírio & Alvim (2018)

 

 

28
Dez20

não dizer nada

Renny perguntou: «Mamã, como se parte um ovo?». Dee Dee olhou para mim. Sabia o que eu estava a pensar. Não abri a boca.

«Vem cá, Renny, para eu te mostrar.»

Renny aproximou-se dela. Dee Dee agarrou num ovo.

«Vês, basta partires a casca na borda da frigideira... assim... e deixar cair o ovo na frigideira... assim...»

«Oh...»

«É simples.»

«E como se cozinha?»

«Fritando-o em manteiga.»

«Mamã, eu não quero esse ovo.»

«Porquê?»

«Porque a gema partiu-se.»

Dee Dee virou-se e olhou para mim. Os seus olhos diziam:

«Hank, não digas nada, por favor...».

 

Charles Bukowski – Mulheres (1978)
Coleção Mil Folhas PÚBLICO (2003)

 

 

16
Dez20

duo

Sinto o não e o sim [...]

Porque é tudo tão breve e tão longo, não sei.

Tenho os olhos fechados de abertos de ternura. 

 

António Ramos Rosa in  CICLO DO CAVALO  - Obra Poética I

Assírio & Alvim (2018)

 

 

 

27
Nov20

sociedade penico

- Nunca compreenderei como uma sociedade fundada principalmente por devedores, criminosos e párias, pessoas que conhecem bem as dores da opressão - disse Colin - , adotou tão entusiasticamente uma instituição que oprime aqueles que não fizeram qualquer mal [...]

Em Londres, passo as noites com homens que se sentam num mesmo lugar e não se mexem durante horas a menos que tenham de ir urinar, e mesmo assim é possível que não vão mais longe do que até junto do penico que se encontra ao canto da sala para se aliviarem; e posso acrescentar que apontam mal porque é hilariante.

«Troçam uns dos outros como garotos de escola - continuou -, mas consideram-se inteligentes, importunam as criadas das tabernas e acham-se arrojados, enquanto soldados que deram um membro ou um olho pela segurança do reino andam imundos pelas ruas, a pedir esmola. 

 

Grace Burrowes – Coração Ardente (2017)

Quinta Essência (2019)

 

 

02
Jul20

saber receber

Meus olhos não fabricam

a realidade [...]

Meus olhos não fabricam mas encontram. 

A terra que se enche já vem cheia 

[...]

Os homens dançam por vezes.

Este momento é teu. 

 

António Ramos Rosa in ANIMAL OLHAR  - Obra Poética I

Assírio & Alvim (2018)

 

 

07
Mai20

a maneira

a maneira como as pessoas vivem quando julgam que não olham para elas sempre me surpreendeu, tudo aquilo que se esconde à vista 

 

António Lobo Antunes – A Última Porta Antes da Noite (2018)

Publicações Dom Quixote (2018)

 

 

15
Abr20

olhar para as coisas como elas são

Não havia volta a dar (...) Há coisas que não param depois de terem sido postas em movimento (...) 

Às vezes é preciso que os anos passem para que uma pessoa consiga olhar para as coisas como elas são. E assim de uma maneira geral as coisas não são o que queríamos.

Mas isso tu já sabes. 

 

Hugo Mezena – Gente Séria (2017)

Planeta Manuscrito (2018)

 

 

 

 

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