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Nariz de cera

anotações e apontamentos que dizem tudo - de, por e para mim - por si mesmos.

Nariz de cera

anotações e apontamentos que dizem tudo - de, por e para mim - por si mesmos.

brandos costumes

21.07.21

A sociedade portuguesa de 1940 estava muito dividida no que dizia respeito aos seus sentimentos por Salazar. E ainda hoje, apesar da revolução de 1974, que permitiu ao país viver em democracia, a memória do ditador suscita ideias contraditórias em alguns sectores: há quem insista em perpetuar a memória de um Salazar "autoritário, mas bonzinho", pondo em dúvida que tenha, sequer, colaborado com o nazismo (nem mesmo de forma não consciente). Como se barrar o caminho da salvação a potenciais vítimas da perseguição e dos campos de concentração e da morte, só para dar um exemplo que me toca mais de perto, não fosse colaboração suficiente com o horror nazi...

 

António Moncada S. Mendes – Aristides de Sousa Mendes, Memórias de Um Neto
Edições Saída de Emergência e António Moncada S. Mendes (2017)

 

deus me proteja de mim
e da maldade de gente boa
da bondade da pessoa ruim
deus me governe, guarde
ilumine e zele assim
caminho se conhece andando
então vez em quando
é bom se perder
perdido fica perguntando
vai só procurando
e acha sem saber
perigo é se encontrar perdido
deixar sem ter sido
não olhar, não ver
bom mesmo é ter sexto sentido
sair distraído e espalhar bem-querer

Faixa do disco Francisco, forró y frevo (2008)

 

 

o jogo do fogo das coisas que são

19.07.21

Era 1h15m. Os jovens militares não compreendiam nada do que se passava. Pouco depois de terem formado, aparece-lhes à frente o tal capitão, que lhes faz um discurso bastante simples: «Há várias formas de Estado: Estados liberais, estados democráticos e... o estado a que "isto" chegou. Vamos fazer um golpe de estado. Só vem quem quer. Quem não quiser, não vem.»

Entre esses «bravos» há um cadete de segundo ciclo que dá pelo nome de Francisco Fernando de Moncada de Sousa Mendes. Tem 21 anos, e é neto de Aristides e de Angelina de Sousa Mendes. É meu primo em primeiro grau, e também ele conhece bem o drama vivido pela mãe, Clotilde, pelos avós e demais familiares. Claro que o jovem diz que sim, que quer viver este momento histórico [...]

Gosto de pensar que é mais do que mera coincidência o facto de, entre os 240 que saíram nessa noite da Escola Prática de Cavalaria de Santarém em viaturas blindadas para irem fazer o tal golpe de Estado a Lisboa, haver um descendente directo de Aristides de Sousa Mendes [...] Alguém terá mais tarde dito a Francisco Fernando que o acaso não existe, e que havia uma razão para ele se encontrar naquele preciso momento na Escola Prática de Cavalaria na especialidade de atirador de cavalaria... 

 

António Moncada S. Mendes – Aristides de Sousa Mendes, Memórias de Um Neto
Edições Saída de Emergência e António Moncada S. Mendes  (2017)

 

 

educação superada

26.05.21

E lembra-se das vezes em que desciam juntos o Chiado, quando o acompanhou à Valentim de Carvalho, «e todos paravam para o olhar, mas não havia comentários desagradáveis. Havia espanto, um enorme espanto.»

 

Manuela Gonzaga – António Variações, Entre Braga e Nova Iorque (2018)
Manuela Gonzaga e Bertrand Editora (2018) 

 

 

Manuel

19.05.21

O fotojornalista Adriano Miranda, autor da imagem, disse à revista Visão que Manuel lhe apareceu então «uma personagem bíblica, surgindo dos escombros envolto em fumo, de cajado na mão». O retrato de Manuel teve um impacto que nem um nem outro anteciparam [...]

Mas, agora que passaram mais de seis meses sobre aquele dia, olhamos para a fotografia com outros olhos. Além da dimensão triste do retrato, há no rosto do velho a réstia de um sorriso, e basta passar algum tempo com Manuel para perceber que, longe de ser uma personagem trágica, ele é um homem bem-humorado, sempre pronto a contar uma piada. Aliás, naquele instante em que Adriano Miranda lhe pediu se podia fotografá-lo, na manhã depois de uma noite de pesadelo, e quando ele já sabia que pelo menos um vizinho tinha morrido apanhado pelas chamas, a resposta do homem, relembrada pelo fotojornalista na Visão de 23 de novembro de 2017, mostrava bem que não era um incêndio, por mais devastador que fosse, que ia deitá-lo abaixo. «A mim, que sou tão feio?», perguntou a Adriano, antes de se deixar fotografar. 

 

Patrícia Carvalho – Ainda aqui estou (2018)

Fundação Francisco Manuel dos Santos e Patrícia Carvalho (2018)

 

Adriano Miranda, Manuel Francisco, Covelo, freguesia de Ventosa, concelho de Vouzela, 15.10.2017

 

que um olhar bastasse

18.05.21

A opressão é permanente

as relações indiscerníveis.

 

 

António Ramos Rosa in MEDIADORA DO NÃO LUGAR - Obra Poética I

Assírio & Alvim (2018)

 

Primeiro foram as mãos que me disseram
que ali havia gente de verdade
depois fugi-te pelo corpo acima
medi-te na boca a intensidade
senti que ali dentro havia um tigre
naquele repouso havia movimento
olhei-te e no sol havia pedras
parámos ambos como se parasse o tempo
parámos ambos como se parasse o tempo

é tão dificil encontrar pessoas assim bonitas
é tão dificil encontrar pessoas assim bonitas

atrevi-me a mergulhar nos teus cabelos
respirando o espanto que me deras
ali havia força havia fogo
havia a memória que aprenderas
senti no corpo todo um arrepio
senti nas veias um fogo esquecido
percebemos num minuto a vida toda
sem nada te dizer ficaste ali comigo
sem nada te dizer ficaste ali comigo

é tão dificil encontrar pessoas assim bonitas
é tão dificil encontrar pessoas assim bonitas

falavas de projectos e futuro
de coisas banais frivolidades
mas quando me sorriste parou tudo
problemas do mundo enormidades
senti que um rio parava e o nevoeiro
vestia nos teus dedos capa e espada
queria tanto que um olhar bastasse
e não fosse no fundo preciso
queria tanto que um olhar bastasse
e não fosse preciso dizer nada

é tão dificil encontrar pessoas assim bonitas
é tão dificil encontrar pessoas assim pessoas

 

free fall

07.05.21

A terra é uma frase completa e contínua 

[...]

Nenhum segredo nenhuma voz O cimo é a delícia 

de uma pura igualdade e permanência suave

 

Habitar a terra é ser o olhar e a luz

 

António Ramos Rosa in  TERRA AÉREA - Obra Poética I

Assírio & Alvim (2018)

 

 

dos dois, um

07.05.21

Tudo antigo, tal como uma antiga barbearia. Na casa de banho havia um pequeno urinol enfeitado com um arranjo de flores de plástico [...]

Matilde Abreu lembra-se do seu próprio encantamento:

- Para mim, era tudo novidade absoluta. Tinha quinze anos, portanto imagine-se. António teria à volta dos trinta e cinco, trinta e oito anos, e nesses tempos, não pintava a barba. Era loiro dele. Pontualmente, fazia uma descoloração e cortava o cabelo muito curto [...] Como patrão era exigentíssimo, e tinha um feitio muito especial. Um feitio difícil. Ele achava que a pessoa, olhando, tinha obrigação de, logo a seguir, saber fazer [...]

E o António era assim com as pessoas com quem tinha uma relação mais forte e mais próxima. Mas com uma pessoa tão exigente ao lado, ou se aprende bem a lição e as coisas tomam um rumo, ou então é impossível. Por isso digo, com ele ou se ama ou se odeia. Comigo foi assim.

Lições de vida. Quando a carreira musical de Variações se começou a impor, Matilde foi ficando cada vez mais responsável pelo salão. Um dia, António tentou contratar uma aprendiza para as funções que ela própria desempenhara quando começara a trabalhar com ele. Então, Matilde recordou as frases sacramentais de António: você tem de se impor, porque o mundo só tem dois tipos de pessoas, os que mandam e os que se deixam mandar. Você não quer ser do segundo, pois não? Dizia-lhe estas e outras coisas num tom seco, por vezes quase sem expressão, e continuava a trabalhar, mas Matilde guardava tudo [...]

- Ainda hoje me lembro, como se o tivesse à minha frente. O tom de voz, a expressão dos olhos, os gestos: o mundo só tem dois tipos de pessoas, os que mandam e os que se deixam mandar. Você não quer ser do segundo, pois não? 

 

Manuela Gonzaga – António Variações, Entre Braga e Nova Iorque (2018)
Manuela Gonzaga e Bertrand Editora (2018)

 

barbearia.jpe

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fim flash

15.03.21

Ele já com a marca da queimadura, a gritar [...] O Gonçalo vem na minha direcção e eu pergunto-lhe: " Ó Gonçalo, o que é que vos aconteceu?" Ele olha para mim e aquele olhar disse-me tudo. Não me deu uma palavra, mas o olhar disse-me tudo. Não me deu uma palavra, mas o olhar disse-me tudo. Corro para a ambulância e é onde o vejo a ele, todo encharcadinho de água. A cara dele era uma bolha só. Uma coisa horrível. Estava deitado sobre o lado esquerdo, com as mãos traçadas e a pele toda pendurada. Foi daqueles momentos que nos passa a vida em flash [...]

Ajoelhada junto ao marido, ele pede-lhe que olhe por um irmão, deficiente, que vive com a família. «Ele disse-me, muito baixinho: "Olha pelo Chico, que eu não volto mais a casa."

 

Patrícia Carvalho – Ainda aqui estou (2018)

Fundação Francisco Manuel dos Santos e Patrícia Carvalho (2018)

 

 

encontro

09.03.21

Como se caminhasse para um encontro

                                                      encontro

a cor do muro

[...]

e do olhar 

[...]

lá fora   atrás   presente 

 

António Ramos Rosa in  DECLIVES  - Obra Poética I

Assírio & Alvim (2018)

 

 

o presente que é o presente

09.03.21

Eu aprenderei a partir sem conhecer 

para onde vou nem olharei para trás

eu aprenderei que o presente é o presente 

 

António Ramos Rosa in  O INCÊNDIO DOS ASPECTOS  - Obra Poética I

Assírio & Alvim (2018)