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Nariz de cera

anotações e apontamentos que dizem tudo - de, por e para mim - por si mesmos.

anotações e apontamentos que dizem tudo - de, por e para mim - por si mesmos.

Nariz de cera

24
Mai22

a duas ruas

Cecília

Não consigo flutuar com suavidade nem misturar-me com os outros. Prefiro o olhar dos pastores que encontro no caminho; o olhar das ciganas que alimentam os filhos ao lado das carroças

 

Virginia Woolf – As Ondas (1931)

Colecção Mil Folhas / Bibliotex SL / M.E.D.I.A.S.A.T. e Promoway Portugal Ltda (2002)

 

 

28
Mar22

bate com palavras (dizem os amantes da paz)

Cecília

Ela diz que não, que lhes é impossível saber o que se passou, que eles eram como nos crimes as testemunhas que se esqueceram de olhar. 

 

Marguerite Duras – Olhos Azuis, Cabelo Preto (1986)

Colecção Mil Folhas / Bibliotex SL / M.E.D.I.A.S.A.T. e Promoway Portugal Ltda (2002)

 

 

24
Mar22

caros & doces erros

Cecília

Entenderemos melhor a relação entre preconceito racial e racismo se olharmos para a forma como ambos se juntam para produzir a discriminação e violência daquele que racializa sobre aquele que é racializado. 

 

Jorge Vala  – Racismo, Hoje, Portugal em Contexto Europeu (2021)

Fundação Francisco Manuel dos Santos, Jorge Vala (2021)

 

 

24
Mar22

livramentos (ou adiamentos...)

Cecília

Sou agora um adulto; enfrento o sol e a chuva de cabeça erguida. Tenho de me deixar cair com a força de uma machadinha e cortar o carvalho com um único golpe, pois, se não o fizer, se me desviar e perder tempo a olhar de um lado para o outro, cairei como se fosse um floco de neve, derretendo-me. 

 

Virginia Woolf – As Ondas (1931)

Colecção Mil Folhas / Bibliotex SL / M.E.D.I.A.S.A.T. e Promoway Portugal Ltda (2002)

 

 

24
Jan22

nem adversários, nem camaradas - apenas idiotas

Cecília

Enfiando o chapéu na cabeça, saía para um mundo habitado por multidões de homens e mulheres que também haviam enfiado os chapéus nas cabeças, e, sempre que nos encontrávamos nos comboios e metropolitanos, trocávamos o olhar característico de adversários e camaradas que têm de enfrentar toda a espécie de dificuldades para atingir o mesmo objectivo - ganhar a vida.

 

Virginia Woolf – As Ondas (1931)

Colecção Mil Folhas / Bibliotex SL / M.E.D.I.A.S.A.T. e Promoway Portugal Ltda (2002)

 

 

18
Jan22

mau feitio [sempre]

Cecília

...quando levanto a cabeça encontro os olhos de uma mulher azeda [...] Com alguma impertinência, fecho o corpo bem à sua frente, como se de um guarda-sol se tratasse. 

 

Virginia Woolf – As Ondas (1931)

Colecção Mil Folhas / Bibliotex SL / M.E.D.I.A.S.A.T. e Promoway Portugal Ltda (2002)

 

O Guarda-Sol, (1777)

Francisco de Goya

 

21
Jul21

brandos costumes

Cecília

A sociedade portuguesa de 1940 estava muito dividida no que dizia respeito aos seus sentimentos por Salazar. E ainda hoje, apesar da revolução de 1974, que permitiu ao país viver em democracia, a memória do ditador suscita ideias contraditórias em alguns sectores: há quem insista em perpetuar a memória de um Salazar "autoritário, mas bonzinho", pondo em dúvida que tenha, sequer, colaborado com o nazismo (nem mesmo de forma não consciente). Como se barrar o caminho da salvação a potenciais vítimas da perseguição e dos campos de concentração e da morte, só para dar um exemplo que me toca mais de perto, não fosse colaboração suficiente com o horror nazi...

 

António Moncada S. Mendes – Aristides de Sousa Mendes, Memórias de Um Neto
Edições Saída de Emergência e António Moncada S. Mendes (2017)

 

deus me proteja de mim
e da maldade de gente boa
da bondade da pessoa ruim
deus me governe, guarde
ilumine e zele assim
caminho se conhece andando
então vez em quando
é bom se perder
perdido fica perguntando
vai só procurando
e acha sem saber
perigo é se encontrar perdido
deixar sem ter sido
não olhar, não ver
bom mesmo é ter sexto sentido
sair distraído e espalhar bem-querer

Faixa do disco Francisco, forró y frevo (2008)

 

 

19
Jul21

o jogo do fogo das coisas que são

Cecília

Era 1h15m. Os jovens militares não compreendiam nada do que se passava. Pouco depois de terem formado, aparece-lhes à frente o tal capitão, que lhes faz um discurso bastante simples: «Há várias formas de Estado: Estados liberais, estados democráticos e... o estado a que "isto" chegou. Vamos fazer um golpe de estado. Só vem quem quer. Quem não quiser, não vem.»

Entre esses «bravos» há um cadete de segundo ciclo que dá pelo nome de Francisco Fernando de Moncada de Sousa Mendes. Tem 21 anos, e é neto de Aristides e de Angelina de Sousa Mendes. É meu primo em primeiro grau, e também ele conhece bem o drama vivido pela mãe, Clotilde, pelos avós e demais familiares. Claro que o jovem diz que sim, que quer viver este momento histórico [...]

Gosto de pensar que é mais do que mera coincidência o facto de, entre os 240 que saíram nessa noite da Escola Prática de Cavalaria de Santarém em viaturas blindadas para irem fazer o tal golpe de Estado a Lisboa, haver um descendente directo de Aristides de Sousa Mendes [...] Alguém terá mais tarde dito a Francisco Fernando que o acaso não existe, e que havia uma razão para ele se encontrar naquele preciso momento na Escola Prática de Cavalaria na especialidade de atirador de cavalaria... 

 

António Moncada S. Mendes – Aristides de Sousa Mendes, Memórias de Um Neto
Edições Saída de Emergência e António Moncada S. Mendes  (2017)

 

 

26
Mai21

educação superada

Cecília

E lembra-se das vezes em que desciam juntos o Chiado, quando o acompanhou à Valentim de Carvalho, «e todos paravam para o olhar, mas não havia comentários desagradáveis. Havia espanto, um enorme espanto.»

 

Manuela Gonzaga – António Variações, Entre Braga e Nova Iorque (2018)
Manuela Gonzaga e Bertrand Editora (2018) 

 

 

19
Mai21

Manuel

Cecília

O fotojornalista Adriano Miranda, autor da imagem, disse à revista Visão que Manuel lhe apareceu então «uma personagem bíblica, surgindo dos escombros envolto em fumo, de cajado na mão». O retrato de Manuel teve um impacto que nem um nem outro anteciparam [...]

Mas, agora que passaram mais de seis meses sobre aquele dia, olhamos para a fotografia com outros olhos. Além da dimensão triste do retrato, há no rosto do velho a réstia de um sorriso, e basta passar algum tempo com Manuel para perceber que, longe de ser uma personagem trágica, ele é um homem bem-humorado, sempre pronto a contar uma piada. Aliás, naquele instante em que Adriano Miranda lhe pediu se podia fotografá-lo, na manhã depois de uma noite de pesadelo, e quando ele já sabia que pelo menos um vizinho tinha morrido apanhado pelas chamas, a resposta do homem, relembrada pelo fotojornalista na Visão de 23 de novembro de 2017, mostrava bem que não era um incêndio, por mais devastador que fosse, que ia deitá-lo abaixo. «A mim, que sou tão feio?», perguntou a Adriano, antes de se deixar fotografar. 

 

Patrícia Carvalho – Ainda aqui estou (2018)

Fundação Francisco Manuel dos Santos e Patrícia Carvalho (2018)

 

Adriano Miranda, Manuel Francisco, Covelo, freguesia de Ventosa, concelho de Vouzela, 15.10.2017

 

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