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Nariz de cera

anotações e apontamentos que dizem tudo - de, por e para mim - por si mesmos.

Nariz de cera

anotações e apontamentos que dizem tudo - de, por e para mim - por si mesmos.

sóbria fusão

Cecília, 16.07.20

Sóbrio o teu corpo me pede 

penetração: nomes puros:

os de boca, braços, mãos

sobre a terra e sobre os muros.

 

Sóbrio o teu corpo me pede

nomes justos, nomes duros:

os de terra, fogo e punhos,

claros, acres, escuros. 

 

António Ramos Rosa in ANIMAL OLHAR - Obra Poética I

Assírio & Alvim (2018)

 

 

living poem

Cecília, 05.06.20

(...)

porque queres viver

o sol que desejas 

(...)

é ele que te conduz

a si mesmo

*

Espero que ele me invente

onde e aqui eu estou

de novo a respirar

a folha imaginada

(...)

Esta aventura vale?

Não podes desistir

dizer que nada vale

se o nada mesmo enfrentas

 

António Ramos Rosa in O NASCIMENTO DO POEMA - Obra Poética I

Assírio & Alvim (2018)

 

 

amor eletricamente certo

Cecília, 08.01.20

 

toda a gente sabe que as mulheres têm fios desligados e quando se ligam o sistema eléctrico funciona ao contrário

 

 

António Lobo Antunes – A Última Porta Antes da Noite (2018)

Publicações Dom Quixote (2018)

 

 

 

gestos e atitudes

Cecília, 08.10.19

Pelas seis horas da manhã de 3 de dezembro de 1944 (...) Jaime e Deolinda de Jesus Ribeiro foram pais do quinto filho (...) o menino veio a receber o nome de António Joaquim Rodrigues Ribeiro (...) 

Jaime Ribeiro era parco de palavras. Minhoto pequeno e encorpado, homem de uma força extraordinária, saía-se melhor com música no que tocava a expressar sentimentos. O que não conseguia dizer, fazia o cavaquinho dizer por si. Ou a concertina. Os seus gestos, porém, eram de uma enorme eloquência. Ao longo de todo o mês seguinte, Deolinda de Jesus descansou, rodeada de «mimos». Não estava autorizada a trabalhar, fosse no que fosse, e era alvo das maiores atenções por parte do marido. Os filhos guardam a memória desses cuidados que deixavam os próprios vizinhos estarrecidos pela novidade de um lavrador, homem do campo e sem estudos, rodear a mulher, sempre que dava à luz, de tamanhos desvelos. Assim, e nos primeiros dias após o nascimento de uma criança, era o marido quem lhe levava o tabuleiro das refeições à cama. 

 

Manuela Gonzaga – António Variações, Entre Braga e Nova Iorque (2018)
Manuela Gonzaga e Bertrand Editora (2018)

 

 

 

Homens pobres são melhores namorados

 

???

Cecília, 01.03.19

Não sei se isto é amor. Procuro o teu olhar,
Se alguma dor me fere, em busca de um abrigo;
E apesar disso, crê! nunca pensei num lar
Onde fosses feliz, e eu feliz contigo.

Por ti nunca chorei nenhum ideal desfeito.
E nunca te escrevi nenhuns versos românticos.
Nem depois de acordar te procurei no leito
Como a esposa sensual do Cântico dos Cânticos.

Se é amar-te não sei. Não sei se te idealizo
A tua cor sadia, o teu sorriso terno...
Mas sinto-me sorrir de ver esse sorriso
Que me penetra bem, como este sol de Inverno.

Passo contigo a tarde e sempre sem receio
Da luz crepuscular, que enerva, que provoca.
Eu não demoro o olhar na curva do teu seio
Nem me lembrei jamais de te beijar na boca.

Eu não sei se é amor. Será talvez começo...
Eu não sei que mudança a minha alma pressente...
Amor não sei se o é, mas sei que te estremeço,
Que adoecia talvez de te saber doente.

 

«Interrogação»

de

 

Camilo Pessanha

(7 de Setembro, 1867 — 1 de Março, 1926)

 

 

ser homem

Cecília, 27.02.19

Foi o primeiro a perceber que esta vida é uma guerra; não concedeu a si próprio qualquer indulgência, não perdeu tempo a recriminar e a compadecer-se de si mesmo e dos outros, mas desde o primeiro dia foi à luta. Animam-no a inteligência e o instinto, raciocina correctamente, em muitos casos não raciocina, o que também está correcto (...) Luta pela vida, mas mesmo assim é amigo de todos. «Sabe» quem deve corromper, quem deve evitar, quem se pode apiedar, a quem deve resistir. 

Porém (é por esta virtude que ainda hoje a sua memória é para mim querida e viva), não se tornou cínico. Sempre reconheci, e ainda reconheço nele, a rara figura do homem forte e bondoso, contra o qual se quebram as armas da noite. 

 

Primo Levi – Se Isto É Um Homem (1947)
Coleção Mil Folhas PÚBLICO (2002)

 

 

 

invariavelmente

Cecília, 07.02.19

disse a assistente, com um sorriso triste e cansado de quem trabalhava para pagar as propinas da faculdade, visto que os pais já não tinham posses para isso, de quem fazia turnos extra para conseguir mais algum para pôr numa conta poupança-habitação com o namorado, para se meterem numa casa assim que tivessem acabado os respectivos cursos e tivessem arranjado empregos que lhe dessem aquela segurança de que um casal em início de vida necessitava para se chegar ao balcão e pedir cem mil euros, a trinta e cinco anos, com taxa variável e indexada a uma coisa que eles não sabiam muito bem o que era, mas que era suficiente para lhes tirar muitas noites de sono. 

 

Ricardo Adolfo, Mizé - Antes galdéria do que normal e remediada

Alfaguara (2011)

 

 

 

y cuando quieras que lleguemos

Cecília, 23.01.19

Parece que esta vaina calentó
Tu cuerpo y mi cuerpo lo saben
Mi pecho siente tu respiración
Y los latidos son iguales

Se te nota
Que todas tus neuronas se alborotan
Si pateo no hay quien pare esta pelota
Sudan las ventanas gota a gota
Se te nota

Paso a paso bajo el escalón
Donde no te pega el sol
Poco a poco paso el ecuador
Yo quiero besarte


Ahí
Donde nace la quebrada
Ahí
En esa tierra sagrada
Ahí
Y cuando se acaben los besos
Pa'l centro y pa' dentro
Ahí
En esa playa mojada
Ahí
Tanto que me la soñaba
Y cuando quieras que lleguemos
Pa'l centro y pa' dentro
(Pa'l centro y pa' dentro)
(Pa'l centro y pa' dentro)
(Pa'l centro y pa' dentro)


Lo que sea
Por recorrer esos caminos nuevos
Yo hago lo que sea
Lo que sea


Si tú quieres que yo mueva la cabeza
Yo la muevo
La mue- la muevo
Si tú quieres que yo mueva la cabeza
Yo la muevo
La mue- la muevo
Si tú quieres que yo mueva la cabeza
Yo la muevo
La mue- la muevo
Si tú quieres que yo mueva la cabeza
Yo la muevo
La mue- la muevo


Ahí
Donde nace la quebrada
Ahí
En esa tierra sagrada
Ahí
Y cuando se acaben los besos
Pa'l centro y pa' dentro
Ahí
En esa playa mojada
Ahí
Tanto que me la soñaba
Y cuando quieras que lleguemos
Pa'l centro y pa' dentro

Paso a paso bajo el escalón
Donde no te pega el sol
Poco a poco paso el ecuador
Yo quiero besarte


Ahí
Donde nace la quebrada
Ahí
En esa tierra sagrada
Ahí
Y cuando se acaben los besos
Pal centro y pa dentro
Ahí
En esa playa mojada
Ahí
Tanto que me la soñaba
Y cuando quieras que lleguemos
Pa'l centro y pa' dentro