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Nariz de cera

anotações e apontamentos que dizem tudo - de, por e para mim - por si mesmos.

Nariz de cera

anotações e apontamentos que dizem tudo - de, por e para mim - por si mesmos.

cinderelas arquivadas

09.05.21

Sílvia descreve como encontrou a mulher sentada num banco gasto e com um monte de telhas novas, que os serviços da autarquia lá tinham deixado, à espera de serem colocadas no alpendre cuja cobertura fora consumida pelas chamas. Os homens trataram de pôr as telhas no sítio, mas não conseguiram satisfazer o pedido da mulher para que lhe arranjassem uns chinelos novos, porque ela calçava num pé o 35 e no outro o 37 [...]

«Nasci nesta casa velha e por aqui estou, até que venham os anos que Deus queira dar», diz Angelina, em jeito de introdução. Ouve muito mal, mas exprime-se bem e não gosta que a interrompam ou lhe cortem o raciocínio. A casa, em geral, não foi afectada pelas chamas - apenas um anexo ao lado, que está impecavelmente reconstruído, mas vazio, e o telhado do alpendre, que os homens de Esposende arranjaram. A habitação, escura, fria, sem chão acolhedor, com fios de electricidade à mostra e sem qualquer protecção do telhado abaixo da telha nua, ficou na mesma. Tão velha e necessitada de obras como estava antes do incêndio. Angelina pouco de lá sai, porque é preciso vencer uma escadaria em pedra que a velha mulher já quase não consegue descer ou subir.

Aos quatro anos, Angelina teve meningite e, depois disso, ficou com problemas numa perna. Melhorou ligeiramente aos 25 anos, depois de uma cirurgia - altura em que, segundo contara a Sílvia, calçou sapatos pela primeira vez -, mas nunca recuperou totalmente, e a idade e os problemas de circulação pioraram tudo. Nunca casou, facto que encara com naturalidade, replicando: «Então, aleijadinha, ia lá casar?»

 

Patrícia Carvalho – Ainda aqui estou (2018)

Fundação Francisco Manuel dos Santos e Patrícia Carvalho (2018)

 

 

na frente

30.03.21

Era uma mistura entre circo e o jardim zoológico. Não se pagava bilhete, mas fazia-se fila - uma fila monumental - à porta. Uns comentavam o espetáculo, outros limitavam-se a olhar, de boca aberta. Há vários testemunhos de época que referem, inclusivamente, a existência de «excursões» vinda de vários pontos do país para ver... aquilo. O quê? Homens e mulheres, sentados, lado a lado, a tratar da beleza dos respetivos cabelos. Quando e onde? Em 1976, no salão de Isabel Queiroz do Vale, no Centro Comercial Imaviz, acabado de estrear. Mas não só. Havia, naquele salão, um ser espantoso, inconcebível, pela forma como se vestia, como se movia, como fazia de cada corte de cabelo uma performance singular. Um cabeleireiro que exigia ser tratado como barbeiro. António Joaquim Ribeiro. 

 

Manuela Gonzaga – António Variações, Entre Braga e Nova Iorque (2018)

Manuela Gonzaga e Bertrand Editora (2018)

 

 

amor sem perdão

04.02.21

Ele não estava bem e não cantou bem, mas o produto final era muito melhor do que ouvíamos habitualmente. Aborreci-me por não poder aplaudir sem reservas. Mas se se mente a um homem sobre o seu talento só porque ele está sentado à nossa frente essa é a mais imperdoável das mentiras, porque isso encoraja-o a continuar, e para um homem sem talento é a pior maneira de lhe destruir a vida. Mas muita gente fazia isso, sobretudo amigos e parentes. 

 

Charles Bukowski – Mulheres (1978)
Coleção Mil Folhas PÚBLICO (2003)

 

 

estado madrinha

01.02.21

A Borralheira, que era tão boa quanto bela, fez as irmãs virem viver para o palácio e casou-as no próprio dia com dois grandes senhores da corte.

Moralidade:

A beleza é para o sexo fraco um raro tesouro, que nunca nos cansamos de admirar; mas aquilo a que se chama bom feitio é sem preço e é bem mais valioso. Foi isto que a madrinha ensinou à Borralheira ao educá-la e instruí-la, tanto e tão bem que dela fez uma rainha. Belas, este dom vale mais do que estar-se bem penteada; para se prender um coração e conquistá-lo, o bom feitio é o verdadeiro dom das fadas: sem ele nada se pode, com ele tudo se consegue.

Outra moralidade:

É sem dúvida uma grande vantagem ter espírito e coragem, uma boa nascença e bom senso, assim como outros talentos semelhantes, de que se recebe do Céu uma quota-parte; mas, tendo-se embora tais talentos, não conseguirá fazê-los valer para obter sucesso na vida quem não tiver padrinhos ou madrinhas. 

 

Francisco Vaz da Silva – Gata Borralheira e Contos Similares (2011)
Círculo de Leitores e Temas e Debates (2011)

 

 

perceber de frente

20.01.21

Debra cruzou as pernas e a saia subiu.

«Tens pernas muito bonitas, Debra. E sabes vestir-te. Fazes lembrar-me as raparigas do tempo da minha mãe. Quando as mulheres eram mesmo mulheres.»

«Não digas mais, Henry.»

«Percebes o que quero dizer. E sobretudo em relação a Los Angeles. Um dia, não há muito tempo, deixei a cidade e, quando voltei, sabes como eu soube que tinha voltado?»

«Não...»

«Foi por causa da primeira mulher com que me cruzei na rua. Ela trazia uma saia tão curta que se viam as cuecas. E à frente das cuecas - desculpa-me - viam-se os pêlos da cona. Percebi que tinha chegado a L.A.»

 

Charles Bukowski – Mulheres (1978)
Coleção Mil Folhas PÚBLICO (2003)

 

 

fação

18.01.21

em 2004, no 50.º aniversário da morte de Aristides, o arcebispo de Bordéus, Jean-Pierre Ricard, celebrou missa em sua homenagem, e evocou muitas das frases do meu avô, com destaque para a que acabou por se tornar a sua mais conhecida: «Assim declaro que darei com todo o entusiasmo vistos para todos, independentemente da origem de quem o peça. O meu desejo é antes "estar com Deus contra os homens do que com os homens contra Deus". 

 

António Moncada S. Mendes – Aristides de Sousa Mendes, Memórias de Um Neto
Edições Saída de Emergência e António Moncada S. Mendes  (2017)

 

 

o problema com a bebida

15.01.21

É este o problema com a bebida, pensei, enquanto me servia dum copo. Se acontece algo de mau, bebe-se para esquecer; se acontece algo de bom, bebe-se para celebrar, e se nada acontece, bebe-se para que aconteça qualquer coisa. 

 

Charles Bukowski – Mulheres (1978)
Coleção Mil Folhas PÚBLICO (2003)

 

 

à volta de um homem

11.01.21

«A primeira coisa que eu gostei em ti», disse Lydia, «foi não teres uma televisão em tua casa. O meu ex-marido via televisão todas as noites e durante todo o fim-de-semana. Tínhamos até que fazer amor em função dos horários dos programas.»

«Hum...»

«Outra coisa que me agradou em tua casa foi a imundície.[...] 

« Tu julgas um homem pelo que está à sua volta, não é?»

«Claro. Quando vejo um homem com uma casa limpa, sei que há qualquer coisa que está mal. E se for demasiado limpa, é porque é bicha.» 

 

Charles Bukowski – Mulheres (1978)
Coleção Mil Folhas PÚBLICO (2003)