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Nariz de cera

anotações e apontamentos que dizem tudo - de, por e para mim - por si mesmos.

Nariz de cera

anotações e apontamentos que dizem tudo - de, por e para mim - por si mesmos.

bien que debe consumarse

Cecília, 22.09.20

A quienes leyendo este libro sepan sacar la consecuencia recta.

 

El matar no es legado de ninguna bandería. La vida es bien que debe consumarse. 

 

 

Antonio Portero Soro – Signo de vida (1999)

J.A. Ferrer-Sama y J. Ramírez, Editores Asociados (1999)

 

 

fazer o mal com o bem

Cecília, 01.09.20

Ao ir embora, o padre disse que a mãe estava agarrada ao tio Carlos. Era ela quem o mantinha vivo. Era por estar sempre a pensar nele que o tio não partia. Mesmo enquanto não estava à cabeceira da cama, a mãe não parava de rezar [...] E durante todo aquele tempo em que se esgotara a fim de ajudar o tio, a minha mãe não tinha feito mais do que prejudicá-lo. 

«Não pode ser», pensava. «A mãe é boa. Era ela quem se levantava a meio da noite para ver se ele precisava de alguma coisa.»

A mãe estava do lado do bem. Mas era por ser tão boa que o sofrimento do tio não tinha acabado mais cedo. Tinha acabado de ser convertida numa pessoa desprezível por se ter esforçado tanto a fim de manter alguém vivo. 

 

Hugo Mezena – Gente Séria (2017)

Planeta Manuscrito (2018)

 

 

amarras à portuguesa

Cecília, 22.08.20

Rui Monteiro volta a evocá-lo desta maneira: «Foi o mais criativo e original artista popular português. Morreu cedo demais, mas também viveu sem as amarras do preconceito e da inferioridade portuguesas.

 

Manuela Gonzaga – António Variações, Entre Braga e Nova Iorque (2018)

Manuela Gonzaga e Bertrand Editora (2018)

 

 

à português

Cecília, 19.06.20

O Caso Gisberta motivou uma espécie de levantamento nacional que acabou por morrer sem grandes consequências, como quase tudo o que é português. 

 

Afonso Reis Cabral – Pão de Açúcar
Publicações Dom Quixote (2018)

 

 

dor cicatriz

Cecília, 17.06.20

é tão difícil falar com uma pessoa que não fala 

 

António Lobo Antunes – A Última Porta Antes da Noite (2018)

Publicações Dom Quixote (2018)

 

 

A região continua com falhas nas telecomunicações

 

Tal como há tês anos, Dina Duarte diz que as comunicações continuam a falhar. Admite “alguma mágoa” porque apesar de todo o esforço que a associação tem feito para alertar para a falta de telecomunicações, “nada melhorou em termos de qualidade de sinal”.

Dificuldades que a Associação de Vítimas do Incêndio de Pedrógão Grande quer denunciar junto do Governo, depois de esgotadas todas as outras vias. Dina Duarte garante que já foram feitas inúmeras queixas junto da Autoridade Nacional de Comunicações (ANACOM), e junto de todos os operadores de telecomunicações, mas sem sucesso. Agora vira-se para o Governo, com quem quer reunir para denunciar o que está mal na região de Pedrogão Grande, numa altura em que continuam por aplicar 815 mil euros de donativos de cidadãos e de empresas.

in https://www.agroportal.pt/pedrogao-grande-associacao-de-vitimas-quer-que-seja-feita-justica-pois-ninguem-foi-a-julgamento/

 

Aristides I

Cecília, 09.06.20

Em 1987, o Presidente da República, Mário Soares, é convidado a ir aos Estados Unidos receber um doutoramento honoris causa pela Universidade de Carlton, em Washington D.C. No seguimento desta troca de cartas, o Congressso Federal americano pede-lhe que conceda uma condecoração ao cônsul, e que a entregue à família na embaixada de Portugal nessa cidade. Pedem-lhe a mais alta condecoração portuguesa, e os jornais americanos dão notícia disso. Mário Soares, apesar de ser o chanceler de todas as ordens honoríficas, como Presidente da República, quis consultar o primeiro-ministro de Portugal, que se manifestou contrário à atribuição da mais alta honra ao meu avô. Mário Soares cedeu. O primeiro-ministro português, nessa altura, chamava-se Aníbal Cavaco Silva (...)

A grande homenagem civil teve o seu ponto alto no Tivoli, em Lisboa. O presidente Mário Soares, desta vez, decidiu não consultar o primeiro-ministro Cavaco Silva, como contou, e surpreeendeu todos quando chamou o filho mais novo de Aristides, John Paul Abranches, e tirou do bolso do casaco uma caixa vermelha contendo a Grã-Cruz da Ordem de Cristo, o grau mais alto, atribuindo-a postumamente ao cônsul de Bordéus. 

O escultor João Cutileiro concebeu uma medalha de bronze a evocar o desespero e o isolamento deste cônsul desobediente que se sentiu abandonado e expulso da sociedade por ter reagido contra a violência, e atuado em prol dos direitos humanos. Na medalha, além do nome, apenas se consegue ver um «homenzinho» no meio de um deserto de desumanidade. Esta medalha pode ser admirada na estação Parque do Metro de Lisboa, numa coluna junto à bilheteira. 

 

António Moncada S. Mendes – Aristides de Sousa Mendes, Memórias de Um Neto
Edições Saída de Emergência e António Moncada S. Mendes  (2017)

 

 

a morte de alguém

Cecília, 23.01.20

Uma das histórias envolvia a duquesa de Vauquelin. Certa noite perdera bastante dinheiro a jogar às cartas. Com o rosto afogueado, passara a mão pela testa e, ao fazê-lo, deslocara uma sobrancelha artificial feita de pelo de rato. Sem que desse por isso, a sobrancelha começara a deslizar-lhe para a cara, sobre a maquilhagem branca do rosto. 

- O que nos rimos - contou Sua Graça. - Incluindo a duquesa até a filha lhe explicar o sucedido. Não voltou a ser vista em público desde então. 

Achei que era aquilo que acabava por ser a morte de alguém: tagarelice descuidada e uma estupidez que corrói a alma. 

 

Wray Delaney - Memórias de Uma Cortesã  (2016)

Quinta Essência, Oficina do Livro (2017)