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Nariz de cera

anotações e apontamentos que dizem tudo - de, por e para mim - por si mesmos.

Nariz de cera

anotações e apontamentos que dizem tudo - de, por e para mim - por si mesmos.

07 Fev, 2019

invariavelmente

disse a assistente, com um sorriso triste e cansado de quem trabalhava para pagar as propinas da faculdade, visto que os pais já não tinham posses para isso, de quem fazia turnos extra para conseguir mais algum para pôr numa conta poupança-habitação com o namorado, para se meterem numa casa assim que tivessem acabado os respectivos cursos e tivessem arranjado empregos que lhe dessem aquela segurança de que um casal em início de vida necessitava para se chegar ao balcão e pedir cem (...)
Ora isso queria dizer que Palha não só tinha de se meter numa das artérias mais movimentadas da cidade, como teria de estacionar o carro numa zona em que não havia lugares livres a pagar, quanto mais de graça. A cidade tinha sido conquistada por parquímetros e arrumadores. E mais uma vez ninguém tinha dito nada. Até parecia que as pessoas gostavam de ser roubadas por agarrados e agentes da câmara, que se revezavam num ciclo perfeito.    Ricardo Adolfo, Mizé - Antes galdéria (...)
28 Jan, 2019

Gold Digger

- Ando a fazer escritórios e eles só querem que a gente vá limpar mais tarde. - E vai de sacos e tudo? - Não, isso não, apanho agora aqui o sete, desço lá ao pé de minha casa, ponho o comer no forno, deixo a mesa pronta para o marido e para os miúdos e depois vou, aquilo também é logo ali ao pé da estação. - Deve custar, hã? - Custa mais passar fome. - Lá isso é verdade - disse a Mizé, que via ali mais um sinal de como aquelas não eram as pessoas com quem ela queria (...)
21 Jan, 2019

rotina da magia

É que os clientes quando chegavam do trabalho cansados, desmotivados, prontos para enfiar um tiro nos cornos, sempre passavam por ali - e em vez de chacinarem a família, levantavam o último herói psicopata e com ele arrasavam exércitos de maus em menos de duas horas. O que era o tempo perfeito para voltarem para a cama e dormirem aquelas seis, sete horinhas que os ia deixar fresquinhos para mais um dia de labuta nos cubículos de Lisboa e arredores.    Ricardo Adolfo, Mizé - (...)
Já há mais de três minutos que Palha estava parado num entroncamento sem prioridade, a ouvir buzinadelas várias de faltas-de-ar que só pensavam era neles e não percebiam que ele não conseguia entrar devido à velocidade com que os outros vinham da rotunda. A cobra antes da recta da meta, como Palha lhe chamava, que devido ao tracejado e ao piso muito próprio, acordava nos condutores mais pacatos instintos de ultrapassagem só vistos em pilotos de alta competição e noutras (...)
Na primeira mercearia, o senhor Manuel, que já não era o jovem de há quarenta anos, carregava com dificuldade os caixotes de madeira para dentro, cheios de tristeza e azia. Desde que tinha sido completamente rodeado pelos hipermercados à entrada do subúrbio que o parco negócio que ele ainda conseguia fazer tinha ficado reduzido às compras de emergência. Nem as clientes de décadas, que até tinham tido direito a entregas gratuitas ao domicílio, queriam saber que ele continuava a (...)
02 Out, 2018

quase vestida

retorquiu o Luís, enquanto olhava para a televisão lá no alto (...) agarrado às imagens de uma cantora estrangeira quase vestida, a rebolar exclusivamente para ele.      Ricardo Adolfo,  Mizé - Antes gálderia do que normal e remediada  Alfaguara (2011)          
- Isto o melhor é dar a volta - atirou um fulano que passava ao lado do Palha.  - Não anda, é? - perguntou o Palha.  - Oh, pelo menos mais meia hora.  - Atão porquê? - Foi ali um gajo numa Toyota que deu uma passa num preto.  - Num preto? - Sim, num preto, tá práli a gemer debaixo do carro e não há meio de virem os bombeiros.  - Mas já chamaram? - Eu acho que sim, mas também não confirmei porque tenho a bateria do móvel quase no fim.  - E o gajo está mal? - (...)