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Nariz de cera

anotações e apontamentos que dizem tudo - de, por e para mim - por si mesmos.

anotações e apontamentos que dizem tudo - de, por e para mim - por si mesmos.

Nariz de cera

20
Out22

testemunho pessoal sobre o apoio dos 125

Cecília

Quem me segue, sabe que, nunca encontra textos criados por mim e que relatem a minha vida pessoal, familiar, social,...,.

No entanto, hoje, abro a exceção (e que exceção!) - não tanto por mim, mas pelas centenas de pessoas que, imagino eu, se encontram na mesma situação que eu e que tal como eu sentiram um gosto amarguíssimo de injustiça social. 

Como sou viúva, e recebi metade da pensão de viuvez no passado mês, a saber, metade de €198, não vou receber os €125 de apoio. Vão-me ser pagos € 26, através da segurança social/CGA, na próxima segunda-feira dia 24 de outubro.

O mesmo vai ser aplicado às minhas filhas que, por terem recebido metade da pensão de orfandade, não vão ser consideradas para os €50 de apoio por dependente.
 
CONCLUSÃO: SE O MEU MARIDO FOSSE VIVO, EU TERIA MAIS UM SALÁRIO POR MÊS, TERIA OS €125 X2 E TERIA €50X3! (sim, porque o rendimento estaria enquadrado nos valores elegíveis para o apoio).
 
É A JUSTIÇA SOCIAL (EM MODO CEGUEIRA FINANCEIRA) EM TODO O SEU ESPLENDOR!
 
Tenho 41 anos, viúva quase há cinco, mãe de três meninas com 8 e 5 anos (duas gémeas que à data da morte do pai tinham 5 meses). 
 
Tenho mantido uma vida limpa, digna e senti-me hoje atirada para a berma, enlodada, sem perceber bem o porquê.
 
 
 
22
Set22

back to 92

Cecília

Pelas contas dos meus entrevistados, o número de pessoal colocado nos serviços de saúde caiu a pique ao longo dos últimos anos. «Há dias estive a remexer uns papéis que tinha guardado, uns folhetos que se distribuíam à população.» É daí que vêm alguns dados lançados para a mesa por João. «Sabe quantos médicos estavam colocados no Centro de Saúde do Algueirão em 2002? Trinta e um. Sabe quantos é que há agora? Onze.» Em relação ao número de administrativos, há cerca de década e meia, havia dois a três elementos por piso a dar apoio aos consultórios (o centro de saúde funciona num antigo prédio de habitação com seis andares). Atualmente, o atendimento é feito exclusivamente no rés-do-chão do edifício, com três ou quatro elementos ao todo. «Havia tanta gente em cada um dos pisos como agora há na totalidade. Não dá para prestar um bom serviço. Já para nem falar no desgaste de quem passa o dia a atender [...] A qualidade do serviço é tão parca e insatisfatória, o número de pessoas em espera nas salas é tão elevado, que qualquer movimento por parte dos funcionários dá azo a burburinho na sala. «Se alguém se levanta para arrumar um papel, há logo quem mande a boca: "Olha, aquela já vai passear", garante Lurdes, que acha que o estado actual das coisas não serve a ninguém, nem a quem precisa dos cuidados de saúde nem a quem trabalha nos respectivos centros. Mais: com a contenção das contratações, proliferam os outsourcings, os recibos verdes, as pessoas trazidas pelas empresas de trabalho temporário, que nem sequer têm acesso a formação e que são imediatamente colocadas a atender ao público. "Olha, aprendes com o do lado", é isso que lhes dizem. Eles não têm culpa, é preciso tempo para ganhar experiência no atendimento, e isto também é sinal de degradação, no fundo são jogados aos lobos e cada um que se desenrasque.»

Se não houver uma estrutura bem organizada, com meios disponíveis e vontade de fazer a diferença, não pode haver um bom atendimento [...] «Não estou a falar de mais dinheiro para nós, estou a falar de mais pessoal, de apoio por parte dos directores, de quem estava acima de nós. Tivemos um director que nos ajudou a fazer umas obras no centro de saúde ao fim-de-semana, mudar balcões, partir uma parede... Éramos nós que as fazíamos ao fim-de-semana, sim, a gente gostava de melhorar as coisas, avançávamos as coisas por nós, não ficávamos à espera. E nessa ocasião tivemos esse director que deu uma ajuda nas obras e até participou nas limpezas. Sentíamos que tínhamos apoio. Estou a falar de 91/92. Depois, tudo isso acabou. »

 

Pedro Vieira – Em que posso ser útil? (2021)

Fundação Francisco Manuel dos Santos e Pedro Vieira (2021)

 

 

21
Set22

Pôr-do-SNS

Cecília

Outro dos engulhos no trabalho de Lurdes e João passava pela relação com as chefias e pelos fluxos de informação e de decisão. Chefias muitas vezes distantes, impotentes, sujeitas a remodelações constantes e à implementação sucessiva de novos modelos. «As direcções estão dispersas, às vezes muito afastadas dos centros de saúde. Criaram o ACES [Agrupamento de Centros de Saúde], e há necessidades muito diferentes que às vezes não são satisfeitas.» Por exemplo, segundo João, há exames que os médicos prescrevem e que só podem ser realizados se as chefias do ACES autorizarem. «Os médicos não têm autonomia, nem mesmo em situações de urgência. A verdade é que muitas vezes não estamos a resolver os problemas dos utentes. Uma pessoa vai com um problema grave ao centro de saúde, na zona rural, ou aqui, no Algueirão, e tem de esperar que a direção em Massamá decida.» Nos últimos tempos em que esteve ao serviço, uma das funções de João passava pelo acompanhamento dos pedidos de tratamento de fisioterapia e de terapia da fala, muito solicitados por pessoas que tivessem sofrido um AVC. Se se concluísse que o tratamento iria ter uma duração superior a 120 dias, «e em caso de AVC isso era muito comum», o pedido entrava em modo de espera, até vir aprovado pela direcção do referido ACES. «A gente punha-se no lugar daquelas pessoas e achava que elas tinham razão. Elas iam ter connosco e nós dizíamos "agora volte cá daqui a oito dias, para saber se tem direito". É claro que isso gerava revolta. E perturbava o atendimento.» Na ética de serviço de João e Lurdes, era inevitável trazer esses problemas para casa. «Imagine o que é uma pessoa a quem foi amputada uma perna, que anda a fazer trabalho de recuperação, e a quem é dito "agora tem de interromper até vir nova autorização". Os meus últimos anos de trabalho foram muito complicados por causa destas situações.» 

 

Pedro Vieira – Em que posso ser útil? (2021)

Fundação Francisco Manuel dos Santos e Pedro Vieira (2021)

 

 

04
Ago22

mai'nada

Cecília

A nossa sociedade tem perdas que são socializadas e lucros que são privatizados porque as transações e investimentos nem sempre têm de ser públicos, para que haja empresas que continuam a receber auxílios estatais, apesar de distribuírem dividendos aos seus acionistas

Marlene Engelhorn

A herdeira que rejeitou quatro mil milhões de euros: “Não quero ser tão rica”

 

 

22
Mar22

cassetes [que funcionavam]

Cecília

Em meados dos anos de 1990, quando era estudante e frequentava en passant as já referidas cadeiras de Marketing, costumava arriscar uma imitação tosca das intervenções sibilantes de Carlos Carvalhas, então secretário-geral do Partido Comunista Português, martelando as mesmas teclas que o Comité Central gostava de tocar à época: «O Governo destruiu o aparelho produtivo nacional, sacrificou a nossa agricultura, as nossas pescas e os mais importantes sectores industriais, tudo isto num cenário de dificuldades para os portugueses; eis-nos então perante um ministro das Finanças feito mestre-escola comunitário, a quem cabe distribuir o cacete, reservando a cenoura para o primeiro-ministro». Em suma, os critérios de Maastricht e as decisões políticas condenaram-nos a ser um país servil, de empregados de mesa, com um paninho de loiça pendurado no braço [...] (já a referência explícita ao cacete está documentada nas actas da Assembleia da República de 13 de Fevereiro de 1992), mas, enfim, percebe-se a ideia. Nessa altura, o país dava mesmo os primeiros passos em direcção a uma terciarização acelerada. 

 

Pedro Vieira – Em que posso ser útil? (2021)

Fundação Francisco Manuel dos Santos e Pedro Vieira (2021)

 

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in https://m.facebook.com/umempregadodemesatambemchora/

 

24
Set21

contra ventos e moinhos

Cecília

A reclamação, curiosamente (e premonitoriamente), é datada de 10 de dezembro de 1945 (exatamente um ano antes da Declaração Universal dos Direitos do Homem), e é dirigida ao presidente da Assembleia Nacional, nessa altura o Dr. Albino dos Reis.

Na reclamação, Aristides começa por relembrar a situação vivida em Bordéus em maio/junho de 1940, e a proibição recebida por parte do governo português de conceder vistos aos israelitas (de acordo com a Circular 14). Diz ele que não devia obedecer àquela proibição por a considerar inconstitucional em virtude do artigo 3.º da Constituição, que garante liberdade e inviolabilidade de crenças, não permitindo que ninguém seja perseguido por causa delas, nem obrigado a responder acerca da religião que professa. Acrescenta ainda que se não obedeceu, não fez mais do que resistir, nos termos do n.º 18 do artigo 8.º da Constituição, a uma ordem que infrigia manifestamente as garantias individuais, não legalmente suspensas nessa ocasião (artigo 8.º n.º 19).

Mais adiante, pede à Assembleia para declarar nula a pena que lhe foi imposta por Salazar, exigindo a respetiva responsabilidade àquele ou àqueles funcionários que, dando-lhe a referida ordem, «atentaram contra a Constituição e o regime estabelecido (artigo 115.º, n.º 2). Para terminar, Aristides escreve que «a Assembleia Nacional deve pôr termo ao absurdo de ele ter sido severamente punido por factos pelos quais a administração [Salazar] tem sido elogiada em Portugal e no estrangeiro, manifestamente por engano [...] Em resumo, a atitude do governo Português foi inconstitucional, antineutral e contrária aos sentimentos de humanidade e, portanto, insofismavelmente "contra a Nação".»

Mais uma vez, Aristides fica à espera... Mas quem é que na Assembleia Nacional, formada unicamente por elementos da União Nacional, tinha coragem de reagir? Ninguém, certamente, sobretudo, porque o senhor presidente da Assembleia Nacional não terá dado autorização para que esse reclamação fosse entregue aos senhores deputados. 

E o que faz Aristides? Decide escrever uma carta a cada um dos 120 deputados, para ter a certeza de que a vão receber, e vai entregá-la em mão à porta da Assembleia 

 

António Moncada S. Mendes – Aristides de Sousa Mendes, Memórias de Um Neto
Edições Saída de Emergência e António Moncada S. Mendes (2017)

 

17
Mai21

bodes, segredos e planos

Cecília

Hoje, estes documentos são conhecidos e incontornáveis em qualquer trabalho sobre Aristides de Sousa Mendes, tal como o testemunho do rabino Kruger e vários outros, que confirmam a bondade do gesto do meu avô em Bordéus. Para mim, é díficil entender como é que um doutoramento da Universidade de Coimbra, em 2013, ignora totalmente tais testemunhos, e até sugere que o processo contra Aristides, em 1940, foi uma «mentira arranjada pelo regime de Salazar para desviar de si as atenções e proteger um certo secret d'état». Aristides de Sousa Mendes - o mau funcionário, dizem "eles" - serve apenas de bode expiatório para esconder algo de muito superior que estaria a ser projetado por Salazar e pelos seus próximos (a tese de que Salazar, no fundo, era um "humanitário escondido"). Ao que parece, o meu avô ter-lhes-á estragado os planos... 

 

António Moncada S. Mendes – Aristides de Sousa Mendes, Memórias de Um Neto
Edições Saída de Emergência e António Moncada S. Mendes  (2017)

 

 

15
Mar21

espíritos lacrados

Cecília

Todo o processo foi em seguida guardado num envelope e lacrado, significando que era confidencial e não poderia ser aberto sem autorização superior. 

Foram precisos 36 anos, mais a morte do ditador, uma revolução em 1974 e a queda do regime, até que, já em democracia, um ministro dos Negócios Estrangeiros, Melo Antunes, se tenha dignado mandar romper esse lacre, para que finalmente o país pudesse ter acesso a tal processo e os descendentes do cônsul de Bordéus pudessem começar a pensar que iria ser feita justiça [...]

Bessa Lopes resume o despacho ministerial contra Sousa Mendes como «hipócrita, ilegal e iníquo (por tudo isso, o processo conservava-se muito bem guardado em envelope lacrado) [...]

Aberto o envelope lacrado, verificou-se que dele não consta qualquer notificação ao "condenado" para o inteirar da decisão final, e que a pena aplicada, além da inatividade por um ano com apenas metade do vencimento da categoria, foi a aposentação compulsiva (e não a demissão), pena que não estava sequer prevista na lei (portanto, tudo isto era manifestamente ilegal).

 

António Moncada S. Mendes – Aristides de Sousa Mendes, Memórias de Um Neto
Edições Saída de Emergência e António Moncada S. Mendes  (2017)

 

in https://knoow.net/arteseletras/literatura/banda-desenhada/

 

10
Mar21

entendimentos rolha

Cecília

Após o despiste, motivado pelo cansaço, o meu avô terminou a viagem em Ciudad Rodrigo, em Espanha, mesmo antes da fronteira com Portugal, para pôr a família em lugar seguro. Aí, apareceu Silvério, seu sobrinho, que os ia buscar para passarem a fronteira para Portugal, evitando que a polícia política na fronteira identificasse o cônsul. A PVDE estava a tornar-se cada vez mais interventiva, e com o estado de guerra declarado na Europa, o seu comandante, o capitão Agostinho Lourenço, aproveitava tudo para se pôr em evidência e ganhar mais terreno e poder. As suas pressões, juntamente com as de outros funcionários do MNE e elementos da sociedade portuguesa com simpatias germanófilas - e havia bastantes - levaram Salazar a assinar mais uma circular para conter os fluxos migratórios de seres humanos que desejassem entrar em Portugal. Chegara-se assim à Circular 14, assinada a 11 de novembro de 1939. Não trazia boas notícias ... 

[...]

A famigerada Circular 14, de 11 de novembro de 1939, assinada por Luiz de Sampaio (secretário-geral do MNE), em nome do ministro António de Oliveira Salazar, começava por evocar «as atuais circunstâncias anormais para adotar certas providências e definir algumas normas que previnam [...] em matéria de concessão de passaportes consulares portugueses e de vistos consulares, abuso e práticas de facilidades que a Polícia de Vigilância e Defesa do Estado entende inconvenientes ou perigosas [...] nesta orientação fica determinado o seguinte:

[...]

2 - Os cônsules de carreira [Aristides de Sousa Mendes e outros] não poderão conceder vistos consulares sem prévia consulta ao Ministério dos Negócios Estrangeiros:

ao estrangeiros de nacionalidade indefinida, contestada ou em litígio, aos portadores de passaporte Nansen [nome do diplomata norueguês pelo qual ficaram conhecidos os "passaportes" que deu aos apátridas, isto é, aos que foram expoliados da sua nacionalidade e ficaram indocumentados] e aos russos;

aos estrangeiros que não aleguem de maneira que o cônsul julgue satisfatória, os motivos da vinda para Portugal e ainda àqueles que apresentem nos seus passaportes a declaração ou qualquer sinal de não poderem regressar livremente ao país de onde provêm; com respeito a todos os estrangeiros devem os cônsules procurar averiguar se têm meios de subsistência;

aos judeus expulsos dos países da sua nacionalidade ou de aqueles de onde provêm. 

 

António Moncada S. Mendes – Aristides de Sousa Mendes, Memórias de Um Neto
Edições Saída de Emergência e António Moncada S. Mendes  (2017)

 

in https://outraspalavras.net/gavinadams/2020/01/18/memes-de-emergencia/

 

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