Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Nariz de cera

anotações e apontamentos que dizem tudo - de, por e para mim - por si mesmos.

Nariz de cera

anotações e apontamentos que dizem tudo - de, por e para mim - por si mesmos.

15
Mar21

espíritos lacrados

Todo o processo foi em seguida guardado num envelope e lacrado, significando que era confidencial e não poderia ser aberto sem autorização superior. 

Foram precisos 36 anos, mais a morte do ditador, uma revolução em 1974 e a queda do regime, até que, já em democracia, um ministro dos Negócios Estrangeiros, Melo Antunes, se tenha dignado mandar romper esse lacre, para que finalmente o país pudesse ter acesso a tal processo e os descendentes do cônsul de Bordéus pudessem começar a pensar que iria ser feita justiça [...]

Bessa Lopes resume o despacho ministerial contra Sousa Mendes como «hipócrita, ilegal e iníquo (por tudo isso, o processo conservava-se muito bem guardado em envelope lacrado) [...]

Aberto o envelope lacrado, verificou-se que dele não consta qualquer notificação ao "condenado" para o inteirar da decisão final, e que a pena aplicada, além da inatividade por um ano com apenas metade do vencimento da categoria, foi a aposentação compulsiva (e não a demissão), pena que não estava sequer prevista na lei (portanto, tudo isto era manifestamente ilegal).

 

António Moncada S. Mendes – Aristides de Sousa Mendes, Memórias de Um Neto
Edições Saída de Emergência e António Moncada S. Mendes  (2017)

 

in https://knoow.net/arteseletras/literatura/banda-desenhada/

 

10
Mar21

entendimentos rolha

Após o despiste, motivado pelo cansaço, o meu avô terminou a viagem em Ciudad Rodrigo, em Espanha, mesmo antes da fronteira com Portugal, para pôr a família em lugar seguro. Aí, apareceu Silvério, seu sobrinho, que os ia buscar para passarem a fronteira para Portugal, evitando que a polícia política na fronteira identificasse o cônsul. A PVDE estava a tornar-se cada vez mais interventiva, e com o estado de guerra declarado na Europa, o seu comandante, o capitão Agostinho Lourenço, aproveitava tudo para se pôr em evidência e ganhar mais terreno e poder. As suas pressões, juntamente com as de outros funcionários do MNE e elementos da sociedade portuguesa com simpatias germanófilas - e havia bastantes - levaram Salazar a assinar mais uma circular para conter os fluxos migratórios de seres humanos que desejassem entrar em Portugal. Chegara-se assim à Circular 14, assinada a 11 de novembro de 1939. Não trazia boas notícias ... 

[...]

A famigerada Circular 14, de 11 de novembro de 1939, assinada por Luiz de Sampaio (secretário-geral do MNE), em nome do ministro António de Oliveira Salazar, começava por evocar «as atuais circunstâncias anormais para adotar certas providências e definir algumas normas que previnam [...] em matéria de concessão de passaportes consulares portugueses e de vistos consulares, abuso e práticas de facilidades que a Polícia de Vigilância e Defesa do Estado entende inconvenientes ou perigosas [...] nesta orientação fica determinado o seguinte:

[...]

2 - Os cônsules de carreira [Aristides de Sousa Mendes e outros] não poderão conceder vistos consulares sem prévia consulta ao Ministério dos Negócios Estrangeiros:

ao estrangeiros de nacionalidade indefinida, contestada ou em litígio, aos portadores de passaporte Nansen [nome do diplomata norueguês pelo qual ficaram conhecidos os "passaportes" que deu aos apátridas, isto é, aos que foram expoliados da sua nacionalidade e ficaram indocumentados] e aos russos;

aos estrangeiros que não aleguem de maneira que o cônsul julgue satisfatória, os motivos da vinda para Portugal e ainda àqueles que apresentem nos seus passaportes a declaração ou qualquer sinal de não poderem regressar livremente ao país de onde provêm; com respeito a todos os estrangeiros devem os cônsules procurar averiguar se têm meios de subsistência;

aos judeus expulsos dos países da sua nacionalidade ou de aqueles de onde provêm. 

 

António Moncada S. Mendes – Aristides de Sousa Mendes, Memórias de Um Neto
Edições Saída de Emergência e António Moncada S. Mendes  (2017)

 

in https://outraspalavras.net/gavinadams/2020/01/18/memes-de-emergencia/

 

28
Jan21

e viveram felizes...

Mal o barco foi avistado, o rei fez-se conduzir ao porto numa carruagem. Assim que viu a noiva, deixou para trás toda a tristeza. Depois foi para o palácio organizar uma grande festa de casamento que durou duas semanas. Quando esta terminou, o rei foi viajar pelo reino para recolher impostos. 

 

Francisco Vaz da Silva – Gata Borralheira e Contos Similares (2011)
Círculo de Leitores e Temas e Debates (2011)

 

Los amantes pobres (1922)

Dalí i Domènech, Salvador

 

14
Dez20

13+1

A morada encontrada foi 14, Quai Louis XVIII, Bordéus.

Catorze, o número de filhos; 14, o número da maldita circular que Salazar iria assinar dentro de um ano, proibindo aos cônsules de carreira a concessão de vistos de entrada em Portugal a certas categorias de refugiados (aos judeus, de forma alguma); 14, o número de anos que iria durar o resto da sua vida atormentada até morrer, em 1954. 

Catorze foram também os anos que o Portugal democrático levou entre o 25 Abril de 1974 e a aclamação da reintegração póstuma de Aristides na carreira diplomática, como ministro plenipotenciário de 2ª classe (embaixador), na Assembleia da República, em abril de 1988. 

 

António Moncada S. Mendes – Aristides de Sousa Mendes, Memórias de Um Neto
Edições Saída de Emergência e António Moncada S. Mendes  (2017)

 

 

 

10
Dez20

quanto mais dívidas, melhor

(uma daquelas situações)

O seu ex-marido, Arnold, estava ligado ao show-business e ao mundo da arte. Não soube o que fazia concretamente. Assinava constantemente contratos com estrelas do rock, pintores, etc. O negócio tinha 60.000 dólares de débito, mas florescia. É uma daquelas situações em que, quanto mais dívidas se tiver, em melhor posição se fica. 

 

Charles Bukowski – Mulheres (1978)
Coleção Mil Folhas PÚBLICO (2003)

 

 

24
Nov20

cadáveres há muitos

Em França, a editora Gallimard publica, em 2015, o romance Le Consul, escrito por um romancista de origem argelina, Salim Bachi, que faz uma análise muito fina da psicologia de Aristides. Salim Bachi, laureado com o prémio Goncourt - primeiro romance, cita São Francisco de Assis, antes do primeiro capítulo: «O homem obediente é como um cadáver que se deixa colocar, sem protestar, onde os outros quiserem.» 

 

António Moncada S. Mendes – Aristides de Sousa Mendes, Memórias de Um Neto
Edições Saída de Emergência e António Moncada S. Mendes  (2017)

 

 

11
Jul18

heróis içados, nação valente

Em paga deste diagnóstico tão brilhante o nosso herói foi içado à categoria de ministro o que, naqueles tempos, não era nada mau porque o lugar funcionava como plataforma para outros encaixes menos espectaculares, porém mais lucrativos.  

 

 

 

Vilhena – História Universal da Pulhice Humana (1960/1961/1965)
Edição Completa, Integral e Nunca Censurada dos Três Volumes Originais Pré-História / O Egipto / Os Judeus

Herdeiros de José Vilhena / SPA 2015, E-Primatur (2016)

 

 

 

 

05
Out16

5 de outubro de 1910

" Mas, depois que vi e examinei essa proposta, reconheci com pasmo que ela de nada serviria a bem da Nação, nem contra os tais famosos costumes de administração.

As consequências desses costumes, que o Sr. Ministro não quis denunciar-nos como devia, são no entanto bem frisantes e dolorosas, e definem-se em duas palavras: uma dívida pública de perto de 800.000.000$000 réis; uma dívida flutuante que vai até 72.000.000$000 réis; impostos que têm sempre aumentado, até quase quintuplicarem, de 1852 para cá; e, por outro lado, o País sem instrução, nem exército, nem defesa das costas, e fronteiras, nem marinha, nem, auxílio aos operários, nem nada do que se pede e precisa, porque nem sequer temos estradas, já que as existentes, que nos custaram dezenas de milhares de contos de réis, destruiu-as a triste iniciativa e casmurrice do Sr. João Franco num dos seus Ministérios anteriores, não consentindo nas reparações necessárias, e inutilizando assim um importante capital nacional que, pelo contrário, era mister valorizar e aumentar.

Nós não temos absolutamente nada.

Os costumes de administração foi o que deram: o País à beira da ruína; o desgraçado consumidor a braços com o imposto de consumo, que o leva à tuberculose e à miséria; o contribuinte cada dia mais incapacitado de panar as contribuições sempre crescentes; o proprietário disposto a abandonar as suas terras; o viticultor impossibilitado cie colocar os seis vinhos.

Sr. Presidente: é a situação mais ruinosa e mais miseranda que se pode encontrar percorrendo a história, ainda mesmo dos povos que mais têm descido na sua economia e nas suas finanças.

(...)

Que espécie de contas são essas, que é preciso tanto tempo para as liquidar, e são precisos créditos especiais para as regularizar e encerrar?

A quem respeitam essas contas? Quando foram abertas? Que conhecimento se deu delas à Câmara? Onde está o relatório do Sr. Ministro da Fazenda explicando que contas são essas? Que enigma ouguet apens é este, armado à ingenuidade da Câmara, ou à desejada cumplicidade de uma parte dela, para lhe arrancar o voto de aprovação, que constituirá o encobrimento de crimes, por isso que se dará poderes para, pelos créditos autorizados, se desviar dinheiro da sua legal aplicação

(...)

E por isso insisto em perguntar:

Para quem foram esses dinheiros? Quem autorizou essas despesas ilegais? Por que razão são precisos créditos especiais para o encerramento das respectivas operações?"

 

Discurso de Afonso Costa, deputado republicano, na Câmara dos Deputados

em 20 de Novembro de 1906.

 

 

 

Afonso Costa, ainda hoje, é o único presidente do Governo e ministro das Finanças português que, em contexto democrático, obteve dois superavites 1912-13 e 1913-14

 

(cf. Nuno Valério - Os Orçamentos no Parlamento Português, 2001) 

 

in https://www.publico.pt/politica/noticia/afonso-costa-e-o-revisionismo-em-historia-1701826

 

 

 

 

 

Mais sobre mim

foto do autor

Sigam-me

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2021
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2020
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2019
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2018
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2017
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2016
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
Em destaque no SAPO Blogs
pub